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Criptomoedas: Do autoritarismo libertário à privatização da moeda

Entre a vertigem especulativa e um mundo descentralizado, a ausência de regulação onde todo o mundo é uma offshore e regressões sociais e anti-democráticas, as tecnologias blockchain e distributed ledgers vieram para ficar. Dossier organizado por Tiago Ivo Cruz.

Como melhor definir um libertário? São o equivalente a um gato: absolutamente convencidos da sua independência e absolutamente dependentes de um sistema que não apreciam nem compreendem. A viagem do Satoshi parece dar vida à metáfora, onde projetos de recriar uma sociedade livre do mundo sob a liderança de crianças adultas falha previsivelmente à menor exigência de responsabilidade depois de vários milhões de dólares gastos (através de criptomoedas, claro).

Bancos Centrais por todo o mundo discutem a criação de moedas digitais nacionais, que possam competir com a crescente popularidade das criptomoedas e substituir o uso físico de dinheiro. A urgência em adaptar o sistema monetário à mais recente inovação do sistema financeiro poderá aumentar ainda mais o poder dos interesses privados na esfera pública, escreve Izaura Solipa.

Atualmente com um valor nocional de cerca de 3 biliões de dólares, o mercado de criptomoedas está dominado por Bitcoins, mas esta está longe de ser o seu futuro e nem a especulação financeira define a sua razão de ser. Com um potencial anti-democrático explosivo, a tecnologia veio para ficar, provavelmente, e é bom percebermos porquê.

Existem dezenas de milhares de criptomoedas que qualquer pessoa pode adquirir, ou criar, através do seu telemóvel. Destas, alguns milhares estão disponíveis em mercados especulativos, algumas centenas têm utilidade teórica e algumas dezenas ou menos têm utilização comprovada. O seu potencial e alcance não passa pela sua utilização enquanto moedas privadas, mas sim enquanto redes de funcionamento de consensualização e gestão de informação. Sistemas como o SWIFT ou a própria VISA serão substituídos por dentro de poucos anos porque simplesmente não têm a capacidade de confirmar transações com o volume, velocidade e eficácia energética que as mais recentes ledgers permitem alcançar.

“A ideia de um sistema anacrónico e ultrapassado, que beneficia estruturas de riqueza em vez de beneficiar a economia, poder ser reproduzido através de uma moeda privada sem um Estado, quando já sabemos que quem faz a mineração são poucas centenas de pessoas na China e na Rússia, parece-me uma distopia sem sentido”, explica Mariana Mortágua em entrevista ao Esquerda.net.

Sobre os projetos de Zuckerberg para a criação de uma criptomoeda nativa ao Facebook, Francisco Louçã alerta que “o capitalismo puro não quer só privatizar os bens públicos, quer dirigir os sonhos individuais. Zuckerberg é o que está mais próximo da distopia de criar um mercado total”.

Essa vontade confirma-se com os Non Fungible Tokens, conhecidos por NFTs, através dos quais, “ao contrário das edições limitadas físicas (como as serigrafias), quem compra NFT apenas leva para casa o talão de compra e uma fotografia do original”, explica Ricardo Lafuente.

O Dossier fecha com um caso prático onde um país e um povo são utilizados como cobaias para experiências com criptomoedas.

Os defensores de um sistema financeiro livre da intromissão governamental através de criptomoedas têm em El Salvador o primeiro teste de algodão. E ele está sujo. Hidroelétricas de capitais públicos, empresas privadas sem capitais privados, administradores nomeados diretamente pelo Presidente Bukele e centenas de milhões de dólares em fundos públicos de El Salvador utilizados para comprar Bitcoin. O sistema financeiro de El Salvador foi praticamente entregue a uma empresa privada. A quem pertence e quem administra a Chivo? E quem detém as Bitcoin compradas com dinheiro público?

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Neste dossier:

Criptomoedas: Do autoritarismo libertário à privatização da moeda

Entre a vertigem especulativa e um mundo descentralizado, a ausência de regulação onde todo o mundo é uma offshore e regressões sociais e anti-democráticas, as tecnologias blockchain e distributed ledgers vieram para ficar. Dossier organizado por Tiago Ivo Cruz.

Moedas digitais centralizadas

Bancos Centrais por todo o mundo discutem a criação de moedas digitais nacionais, que possam competir com a crescente popularidade das criptomoedas e substituir o uso físico de dinheiro. A urgência em adaptar o sistema monetário à mais recente inovação do sistema financeiro poderá aumentar ainda mais o poder dos interesses privados na esfera pública. Artigo de Izaura Solipa.

Protesto que juntou centenas de milhares de trabalhadores e pensionistas contra a imposição de Bitcoin em El Salvador. Foto de Rodrigo Sura via EFE/EPA/Lusa.

El Salvador, o autoritarismo Bitcoin ou o neoliberalismo revisitado

Os defensores de um sistema financeiro livre da intromissão governamental através de criptomoedas têm em El Salvador o primeiro teste de algodão. E ele está sujo.

Portugal é uma offshore de criptomoedas

Em entrevista ao Esquerda.net, Mariana Mortágua considera que as criptomoedas devem ser antes consideradas criptoativos, instrumentos especulativos que devem ser regulados como tal. E alerta para a sua utilização como meios de crime financeiro ou fuga fiscal em Portugal.

Imagem do cruzeiro Pacific Dawn, renomeado Satoshi em honra do fundador da Bitcoin. Foto via site da Viva Vivas.

A viagem do cruzeiro Satoshi

Como melhor definir um libertário? São o equivalente a um gato: absolutamente convencidos da sua independência e absolutamente dependentes de um sistema que não apreciam nem compreendem. A viagem do Satoshi parece dar vida à metáfora.

Um dos paradoxos deste setor é que a popularidade da Bitcoin está em relação inversa com a sua utilidade ou eficácia operativa.

Da vertigem especulativa a um mundo descentralizado

Atualmente com um valor nocional de cerca de 3 biliões de dólares, o mercado de criptomoedas está dominado por Bitcoins, mas esta está longe de ser o seu futuro e nem a especulação financeira define a sua razão de ser. Com um potencial anti-democrático explosivo, a tecnologia veio para ficar e é bom percebermos porquê.

Da Bitcoin à Ethereum, Ripple à Hashgraph, os saltos tecnológicos de cada uma das gerações de criptomoedas já lhes garantiu uma relevância própria. Foto via Bermix Studio, Unsplash.com.

As várias gerações de criptomoedas e a sua utilização

Atualmente existem dezenas de milhares de criptomoedas que qualquer pessoa pode adquirir, ou criar, através do seu telemóvel. Destas, alguns milhares estão disponíveis em mercados especulativos, algumas centenas têm utilidade teórica e algumas dezenas ou menos têm utilização comprovada.

Bitcoin, a alta da moeda falsa

No início deste ano, o conjunto das criptomoedas atingiu a valorização de um bilião de dólares, ganhando 130 mil milhões de dólares num só dia e tendo passado a ser, no seu conjunto, a quinta moeda de maior circulação no mundo. Artigo de Francisco Louçã.

Lobbying nos EUA revela os interesses atrás das criptomoedas

O crescente peso de lobbying em torno das criptomoedas tem levado à introdução de propostas regulatórias definidas em grande parte pela própria indústria. Os avultados lucros gerados em torno das criptomoedas e o retorno esperado de um setor desregulado e em crescimento não prometem alterar esta tendência. Artigo de Izaura Solipa.

Imagem de São Francisco Xavier, séc. XVII. Propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que lançou uma série de 125000 NFTs com representações digitais da peça por 200€ cada.

NFT:Como reduzir a Arte ao talão de compra

O tema dos NFT irrompeu pelo discurso mediático e, pelo meio dos anglicismos ciber-místicos (blockchains, tokens, Ethereum, drops, Tezos, gas fees), é um grande desafio conseguir compreender o que está em jogo. Neste texto começamos por uma articulação não técnica sobre o que são e não são os NFT, para depois articular o hype à sua volta e a sua eventual utilidade para as artes e a sociedade. Artigo de Ricardo Lafuente.

Proíbam a libra

O capitalismo puro não quer só privatizar os bens públicos, quer dirigir os sonhos individuais. Zuckerberg é o que está mais próximo da distopia de criar um mercado total. Artigo de Francisco Louçã.

Se a Bitcoin é suposto ser adotada livremente, porque razão se tornou obrigatória em El Salvador?

Em El Salvador, a liberdade foi entregue a uma empresa

O sistema financeiro de El Salvador foi praticamente entregue a uma empresa privada, controlada indiretamente por Bukele, que adquiriu Bitcoin através de fundos públicos, e cuja carteira digital estão todos obrigados a utilizar sem, de facto, poderem transferir as suas moedas para fora do sistema controlado pela empresa.

O Presidente de El Salvador apresenta o projeto de transformar o país numa offshore para criptomoedas. Foto de Rodrigo Sura, via EFE/EPA/Lusa.

Liberais liberais, negócios à parte

Hidroelétricas de capitais públicos, empresas privadas sem capitais privados, administradores nomeados por Bukele e centenas de milhões de dólares em fundos públicos de El Salvador utilizados para comprar Bitcoin. A quem pertence e quem administra a Chivo? E quem detém as Bitcoin compradas com dinheiro público?