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O sucesso mercantil da ganância

Em 2021, a Moderna teve 18 mil milhões de lucros e espera chegar aos 35 mil milhões no próximo ano. Agora, ao recusar a copropriedade da patente ao NIH, reclama um ganho de mercado que fará uma fortuna. Há quem lhe chame ganância.

Foi um ar que se lhe deu. A Comissão Europeia, pressionada no Parlamento de Estrasburgo e, antes disso, pela opinião pública, chegou mesmo a admitir ganhar coragem para suscitar a quebra de patentes e forçar as grandes farmacêuticas a permitirem genéricos no mundo inteiro. Recusou esse caminho, primeiro, e aceitou-o depois, na evidente presunção de nunca mais voltar a falar do assunto. Passaram tempestades, descobriu-se que os contratos tinham sido negociados por convenientes incompetentes e que houve aumento dos preços depois do primeiro ano, mesmo com a inundação de financiamentos destas empresas pela União. Mas esquecida ficou a conversa sobre as patentes.

Em contrapartida, a questão renasceu nos Estados Unidos. O National Institute of Health (NIH) foi responsável pela investigação que deu origem à tecnologia de base das vacinas da Moderna e da Pfizer-BioNTech, tendo cooperado com a primeira na sequenciação genética dos coronavírus ao longo dos últimos quatro anos. Agora, o NIH contesta o pedido de registo de patente pela Moderna, que reclama só para si os louros do produto.

A Moderna, que nunca tinha lançado no mercado qualquer medicamento, recebeu do Governo do seu país 10 mil milhões de dólares para desenvolver a vacina e uma encomenda no valor de 8,1 mil milhões. Em 2021, teve 18 mil milhões de lucros e espera chegar aos 35 mil milhões no próximo ano. Agora, ao recusar a copropriedade da patente ao NIH, reclama um ganho de mercado que fará uma fortuna. Há quem lhe chame ganância.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 27 de novembro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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