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Guto Pires: “Rebentaram comigo física e psicologicamente”

Guto Pires acredita que devemos construir um mundo melhor, mais saudável, de harmonia. Mas não foi isso que aconteceu a 27 de outubro de 2013, quando foi espancado pela polícia, sendo internado nos cuidados intensivos. O Esquerda.net falou com o músico natural da Guiné-Bissau. Por Mariana Carneiro.
Foto publicada na página de Facebook de Guto Pires.

Guto, podes contar-nos o que aconteceu no dia 27 de outubro de 2013?

Foi o pior dia da minha vida.

Em pleno século XXI, devíamos pacificar um pouco mais. O mundo pode ficar melhor, sem racismo e sem discriminações. Porque um português pode ir para Espanha e ser discriminado, e um espanhol pode vir para Portugal e também ser discriminado. Existem 850 mil portugueses na África do Sul que também estão a ser discriminados lá. E os africanos estão a ser discriminados cá em Portugal. Isso não leva a nada. A vida humana é mais plena quando a gente se compreende, se ajuda mutuamente. É assim que construímos um mundo melhor. Um mundo mais saudável, de harmonia. É isso que eu sempre pensei e é com isso que sonho.

Guto Pires na Festa do Avante, 2014.

E, naquele dia, não foi isso que aconteceu. Até hoje, sinto-me revoltado. Mas deixei tudo nas mãos de Deus. Não tenho nenhuma religião, só penso em Deus, sei que ele existe.

Sinto-me injustiçado. Partiram-me três costelas, a minha cara ficou feita num oito. O meu médico diz que a minha sorte é ter um bom corpo, uma boa constituição, uma boa pele. E por isso é que consegui recuperar, apesar de ter ficado com algumas mazelas, não vejo muito bem da vista esquerda. Passei a usar óculos e a vista esquerda tem mais graduação.

Penso que devemos lutar por um mundo melhor. Eu próprio já cheguei a essa conclusão. O ódio só nos destrói.

Em que contexto foste alvo de violência policial?

A polícia entrou pela minha casa adentro. Tinha sido chamada devido a um desacato entre vizinhos. O indivíduo chegou lá a gritar comigo. Eu apenas lhe disse que ele não podia entrar ali a gritar, que devia estar lá para resolver as questões, e que eu pagava o que houvesse a pagar. Disse-lhe ainda que ele só estava a gritar assim por ter farda. Foi o suficiente. Fui espancado ainda dentro de casa.

O meu pai também foi agredido naquele dia, tinha 96 anos. Empurraram-no e ele caiu, batendo com a cabeça. A minha filha, com 15 anos, também estava lá. Bateram-lhe já na rua, atirando a cara dela contra um carro. E ela só estava a gritar e a chorar.

Só na esquadra de Casal de São Brás é que fui identificado. Lá, continuaram a espancar-me. Eu estava no chão, algemado, com as mãos atrás das costas. Além de me baterem ouvi todo o tipo de injúrias: “Vamos mandar-te para Angola”, ao que eu respondi que não sou angolano, sou da Guiné-Bissau. “És um preto feio”, “Estás no chão, não te levantas?”, continuava o indivíduo que me bateu. E deu-me dois pontapés, daqueles bem fortes. É sádico. Queria humilhar-me, destruir-me.

Eu estava cheio de sangue, com a cara desfeita. Estava a chorar e saía sangue por todo o lado. Tenho uma foto que se te mostrasse nem a conseguias ver. É muito violento olhar para a imagem. Partiram-me todo. O indivíduo partiu-me três costelas e lesionou uma quarta costela. Estava todo pisado. Ele dizia-me: “Hoje é domingo, você está a sujar o chão todo, não tenho empregadas de limpeza aqui”.

Rebentaram comigo física e psicologicamente.

Basicamente, eles tentaram desumanizar-te?

Sim, exatamente.

Um amigo meu foi falar com o chefe da polícia e questionou-o: “Então vocês foram bater no Guto Pires, um artista aqui da nossa praça?”. Ao que ele respondeu: “Ai, meu Deus! Não me digas que os meus polícias já cometeram outra asneira!”

Fiquei seis dias e meio no hospital. Estava constantemente preocupado com o meu pai, porque eu é que tomava conta dele, que cozinhava.

O chefe da polícia, Luís Martins, foi ao hospital ver-me, imposto pela Carla Tavares, presidente da Câmara da Amadora. Pediu-me desculpa e disse-me que os rapazes dele não sabiam quem eu era. Eu respondi que eles não tinham de saber quem eu era. Eu não sou ninguém, sou um ser humano como qualquer outro. Ele continuou, afirmando que eles não sabiam que eu era um músico. E ofereceu-me um cheque, para a minha recuperação. Não aceitei, disse que não precisava do dinheiro deles. Deu-me o contacto, para o caso de eu precisar de alguma coisa.

Achas que os polícias extravasaram as suas competências e violaram o seu código deontológico?

Não é a polícia que tem de julgar. Senão, o que é que os juízes irão fazer quando um indivíduo chega à frente deles todo espancado, com costelas partidas e não só? Não se justifica. A polícia tem o papel de prender o indivíduo, de o levar ao juiz. E o juiz é que julga, o juiz é que condena. Não é a polícia de segurança que tem esse papel. Mesmo quando alguém comete alguma injustiça, que não é o meu caso, merece ser julgado por um juiz.

É preciso acabar com os espancamentos. Não vemos brancos a serem espancados a toda a hora. Mas vemos negros a serem espancados a toda a hora. Até mulheres.

Dizem que a Constituição não o permite, mas o que acontece é que, quando o indivíduo chega a tribunal, ainda leva com mais multas, mais prisões… Não foi esse o meu caso, ainda assim foi o que aconteceu com vários casos que eu conheço. Só depois do que me aconteceu é que conhecei a investigar, a pesquisar muito, e encontrei muitos injustiçados, só por causa da pele negra.

É preciso acabar com os espancamentos. Não vemos brancos a serem espancados a toda a hora. Mas vemos negros a serem espancados a toda a hora. Até mulheres.

Mas eu quero acreditar que as pessoas vão meter a mão na consciência.

Os polícias que te espancaram foram chamados à responsabilidade? Existiu alguma condenação, foram suspensos?

Não. O meu processo está arquivado. Quem sofreu fui eu, os polícias não sofreram nada. E ainda paguei quase quatro mil euros pelo processo judicial. Agora tenho um novo advogado que vai tentar reabrir o processo. Não desisto de levar os indivíduos à justiça.

Quando é que arquivaram o processo?

Em 2015.

E qual foi o argumento mobilizado para arquivá-lo?

Eles disseram que me apanharam na rua, embriagado. Foi o argumento esfarrapado que arranjaram.

Chegaste a dar entrevistas sobre o que aconteceu, denunciando a violência policial racista de que foste alvo?

O meu conterrâneo Dr. João Ferreira foi ao hospital ver-me com representantes da embaixada da Guiné. Mas eu recusei entrevistas. Para mim até é uma vergonha falar sobre este assunto. Marcou-me psicologicamente. Os meus familiares viram-me assim, todo quebrado, com os dentes todos a abanar. Doía-me tudo.

Achas que em Portugal continuamos a criminalizar os negros, as pessoas racializadas, por forma a justificar a intervenção violenta nos bairros suburbanos?

Sim. Por exemplo, na Buraca, os polícias chegam logo aos berros sem saber quem é o indivíduo. Quando nós abordamos alguém, seja negro ou branco, temos de ir com mais respeito, com civilização. O negro é um ser humano. Como o branco também é um ser humano. Em toda a parte do mundo há gente boa e gente má. Aqui é a mesma coisa. Como é em África. Nós precisamos mais gente boa para ajudar o mundo a avançar.

Eu sou músico e faço o meu papel. Inclusive, sou um dos indivíduos que luta pela expansão da língua portuguesa. E não é de hoje, já o faço há muitos anos. É a única língua que eu falo muito bem. Falo também crioulo da minha terra, que é derivado do português. Uma das línguas mais nobres que existem é o crioulo da Guiné-Bissau.

Guto Pires com as Estrelas Alentejanas da Damaia - MANGA DI RÔNCO música do mundo lusofono Recreios da Amadora.

A Cultura, e a música em particular, são veículos importantes no combate ao racismo?

Sim, começa mesmo por aí. Eu pertenço a duas orquestras lusófonas: Sons da Fala, com o Sérgio Godinho, o Tito Paris, o André Cabaço, o Gilberto Gil, e muitos outros; e Sons da Lusofonia, com o Carlos Martins, o Dany Silva, o Rui Veloso e companhia. Temos andado pelo mundo a divulgar a língua portuguesa.

Depois há uma temática sobre a qual tenho investigado que me preocupa imenso: a destruição do planeta, o desastre climático. Quero fazer canções juntamente com o poeta guineense Tony Tcheka sobre este flagelo. Inclusive, estou a pensar fazer um coisa muito bonita, que as pessoas possam dançar. Sobre um mundo onde humanos e bichos convivem todos. Acredito que um dia vai haver essa comunhão. O clima é, de facto, algo que me preocupa muito. Mesmo agora com a COP26 não chegaram a acordo. Há quem continue a querer explorar o petróleo e pôr em risco o planeta.

As pessoas mais desprotegidas, e as pessoas racializadas especificamente, são as mais atingidas por este flagelo?

Sem dúvida. Volto a repetir que temos de ajudar a construir um mundo melhor, sem racismo, cuidando deste planeta e de todos os que cá estão.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea. Investigadora do pólo História, Territórios e Comunidades do Centro de Ecologia Funcional – Ciência para as Pessoas e o Planeta.
(...)

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