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Raça, Clima e Território

Olhar para a crise climática sem apresentar uma lente intersecional para a crise em questão é falhar em apresentar propostas políticas que colmatem as grandes dificuldades das comunidades que estão na linha-da-frente da crise climática.

Sabemos que o sistema sócio-económico é o problema gerador da crise climática e que todas as formas em que ele se tenta reinventar são meramente insuficientes para fazer face aos cortes de emissões necessários para evitar o aumento de temperatura a um ponto irreversível para o equilíbrio do planeta e a manutenção da vida da espécie humana. No panorama europeu, pensamos, nomeadamente nos planos de recuperação e resiliência apresentados para responder à crise gerada pelo covid-19 e no Green New Deal Europeu.

Perceber a escala e magnitude dos problemas gerados pela crise climática, não inviabiliza a conquista de condições de vida materiais que permitam a vida às comunidades mais impactadas já pela crise climática. Em Portugal, tivemos eleições autárquicas há menos de um mês e foi nesse momento que repensamos um pouco sobre o que significa esta tal ideia de repensar as nossas cidades e os nossos espaços urbanos. As nossas cidades são cada vez mais difíceis de viver- os grandes centros urbanos como Lisboa e o Porto estão a conhecer processos de gentrificação sem precendentes, com a deslocalização da sua ação política das comunidades autóctones das cidades para o turismo- tornando cidades em marcas para serem vendidas como parques de diversões para quem tem dinheiro para delas usufruir. O que estas políticas de bullying imobiliário têm provocado é o despejo das comunidades do centro da cidade para a periferia, num processo em loop, em que a periferia é cada vez mais longe e os movimentos pendulares cada vez mais distantes, mais dolorosos para as pessoas que têm de o efetuar.

Em Lisboa, às 6 da manhã é quando vemos os transportes públicos a abarrotar com as pessoas que foram empurradas para fora das suas cidades a caminho dos seus trabalhos invisibilizados, considerados “irrelevantes” para a economia da cidade. Mas nós sabemos que quando eles param, a vida nos centros urbanos torna-se somente insustentável.

Não é, também, por acaso que há características partilhadas em termos de género, categorias étnico-raciais e de classe das pessoas forçadas a estes fenómenos urbanos. Angela Davis, tal como várias outras teóricas pensaram de forma profunda sobre como a raça, o género e a classe se relacionam e de que modo estas camadas de opressões contribuem para o estrangulamento das comunidades que já estão há mais tempo a resistir ao capitalismo global- não só em termos económicos como em termos literais- como a morte de George Floyd, Ben Gardner e tantos outros negros às mãos do sistema.

No contexto português, torna-se ainda mais difícil falar sobre a necessidade de políticas específicas para grupos sociais devido ao estado da nossa relação com o momento colonial. Ainda não queremos assumir a nossa própria história. Portugal não consegue reconhecer que o sistema colonial não se limitou a comportamentos racistas ou à recusa de um ditador fascista, António Salazar, de aceitar as reivindicações de liberdade feitas pelos movimentos de libertação nas ex-colónias portuguesas. Este país recusa-se a reconhecer a culpa que teve nesse momento histórico, que foi todo um sistema gerado para manter e impedir que o capitalismo europeu não colapsasse, expandindo os seus locais de produção para outros continentes, desumanizando comunidades, cometendo genocídios, praticando a escravatura, pilhando, destruindo territórios e contribuindo para o caminho do caos climático que tanto nos aflige.

Sobre o/a autor(a)

Estudante e ativista da Greve Climática Estudantil.
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