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Um presente a ganhar

Estes dois anos de desespero, insegurança, medo e instabilidade marcaram o mundo que conhecemos e a forma como conhecemos o mundo. O COVID-19 deixou a nu as engrenagens do capitalismo.

Estes dois anos de desespero, insegurança, medo e instabilidade marcaram o mundo que conhecemos e a forma como conhecemos o mundo. A pandemia foi mais um dos desafios colocados às nossas vidas - para muitas de nós só mais um. Houve quem estivesse a combater nas instituições de ensino, conjugando a saúde mental, o isolamento social, com o peso cada vez mais incomportável das propinas e de todas as taxas imagináveis. Houve quem se tivesse focado em tentar respirar no sufoco da especulação imobiliária, questionando-se inúmeras vezes se as cidades tinham sido, de facto, feitas para as pessoas, ou para alojar o capital. Houve quem tivesse ficado sem casa. Muitas de nós estivemos no Seara a ver a polícia a despejar e a empurrar a pobreza, a emparedar a igualdade, a deixar tantas casas sem gente e tanta gente sem casa.

O COVID-19 deixou a nu as engrenagens do capitalismo. Vimos como países começaram a discutir a disponibilização da terceira dose da vacina enquanto outros faziam todos os esforços para disponibilizar uma primeira. Aplaudimos os nossos médicos, os nossos enfermeiros, todos e todas que trabalharam no nosso sistema de saúde para evitar um colapso social, todos os dias na linha-de-frente- enquanto não lhes garantiamos condições de trabalho dignas, enquanto parte do espectro político luta pela privatização do SNS. Vimos laboratórios privados a enriquecer, enquanto a pandemia continuava a matar, enquanto vidas continuavam em risco.

Se já havia um fosso abismal entre ricos e pobres , os ricos só ficaram mais ricos e os pobres só mais pobres. Tantas foram as manifestações contra os despedimentos indiscriminados, as situações de injustiça laboral, as dificuldades e custos do trabalho à distância.

Pensamos, por exemplo, nos trabalhadores da cultura que nos perguntaram como seria o mundo sem cultura. Se não tinham sido os filmes, as músicas, as palavras, a ajudar-nos a suportar o terror duma vida totalmente diferente e inóspita. Perguntaram-nos não só se sobrevivemos sem eles, mas se de facto viviamos.

Infelizmente, vimos o que o medo faz às pessoas. A desconfiança da ciência, as manifestações contra o COVID não passaram alheias de forma alguma. A paranoia da conspiração, conjugada com os espaços online sedentos do discurso do ódio, do insulto, do anonimato que esquece que atrás de cada ecrã existe uma pessoa. Também nós fomos vítimas deste fenómeno, de nos virarmos uns contra os outros, incertos do que seria o mundo no dia seguinte.

A extrema-direita, por todo o mundo, procurou dar uma resposta a estes anseios. Falámos, por exemplo, do Brasil, dos Estados Unidos, de França, de Itália e mesmo de Portugal. O nosso país, que há tão pouco tempo derrubou o fascismo, a ditadura, o medo deu passos tenebrosos em busca de um passado que nós sabemos que nunca existiu. A ideia mitificada pelo Estado Novo de um passado em que fomos gloriosos, aventureiros, em que confraternizámos com outros povos e partilhámos a nossa cultura… Essa nostalgia falsa que a extrema-direita procura reedificar para legitimar um projeto que quer separar, que quer discriminar, que quer explorar, que pretende sempre enganar. Vimos o populismo barato, as suas ramificações nos processos eleitorais e a sede dos media em capturar o próximo escândalo, o palco dado por quem queria demonstrar que era isento de valores.

As nossas redes sociais acompanharam o mundo a um ritmo sem precedentes. Passámos a aprender sobre eventos distantes através de danças no tiktok. Informamo-nos sobre o conflito israelo-palestiniano, os conflitos no Sudão e solidarizamos com as mulheres afegãs, mas também passámos a ser vítimas do nosso algoritmo e ficámos reféns das nossas bolhas de comunicação.

O nosso mundo digital encheu-se de quadrados pretos quando o mundo parou. O assassinato de George Floyd poderia ter sido mais uma história ignorada, mais um homem negro, um afro-americano sufocado às mãos da violência supremacista da polícia, da políticas de “lei e ordem”. Poderiam ter sido mais umas imagens que inspiravam breves ondas de choque na internet e rapidamente eram esquecidas. Mas não foi.

Talvez porque tenha sido a última gota para um movimento que transpirava a mágoa, a injustiça e que simplesmente não aguentava mais. Talvez tenha sido a última gota para toda a gente que já não aguentava não respirar.

E esta foi a parte bonita no meio de tudo. Milhões de pessoas em todo o mundo disseram, em uníssono, que bastava, que o mundo não tinha de ser assim, rejeitaram a injustiça, as políticas da morte. Bateram o pé perante a ideia de que respirar era um privilégio e não um direito.

Também foi isto que os ativistas climáticos fizeram por todo o mundo, arriscando a sua própria segurança- como foi o caso de uma ativista indiana durante as manifestações dos agricultores contra as políticas agrícolas. Rejeitaram as novas políticas da PAC, criticaram os despedimentos sem responsabilidade na refinaria de Matosinhos, por exemplo, rejeitando a ideia de que resolver o clima tinha de significar prejudicar as pessoas, esquecendo que não é tolerável que sejam as pessoas socialmente mais frágeis continuamente a pagar por todas as crises.

Quis começar por relembrar o passado, por mais dramático que tenha sido, para relembrar o que estes e estas ativistas fizeram. Não deixaram de sonhar o futuro, de o desenhar, de o escrever, de o planear. É isso que os tempos nos compelem a fazer: a planear o futuro, a criar pontes entre pessoas, ideias, localidades e lutas. A relembrar que precisamos umas das outras para a luta pelas pessoas e pelo planeta.

Afinal: foi por isso que escolhemos este partido. Porque somos jovens, mas as nossas lutas não se reduzem a lutas da nossa faixa etária. São as lutas de todos e todas, dos nossos tempos, são a procura de ser a paz quando os outros são a guerra.

Foi a luta pela justiça que nos convocou a estar aqui neste momento, a refletir, a decidir, a votar, a concordar e a discordar. A crença de que a força está na pluralidade e de que a luta vale sempre, sempre a pena. Podemos não ganhar sempre, mas temos sempre tudo a ganhar.

Sobre o/a autor(a)

Estudante e ativista da Greve Climática Estudantil.
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