You are here

O dinheiro da extrema-direita contra as mulheres

Seguir o rasto do dinheiro com que a extrema direita financia as suas campanhas contra a igualdade de género permite-nos desmontar duplamente a ficção de que a extrema direita é “contra o sistema”.

O Fórum Parlamentar Europeu para os Direitos Sexuais e Reprodutivos acaba de apresentar um relatório sobre o modo como é financiada, na Europa, a ação dos movimentos extremistas contra a autodeterminação das mulheres e a igualdade de género (https://www.epfweb.org/node/837). Chama-se “A ponta do iceberg” e é um retrato detalhado das redes de apoio à extrema direita neste continente.

Primeiro dado relevante: entre 2009 e 2018, cerca de 707 milhões de dólares foram mobilizados por 54 organizações – de ONG’s a partidos ou a organizações religiosas – para financiar a sua ação contra a igualdade de género na Europa. Segundo dado relevante: nas três principais fontes geográficas desse financiamento (Estados Unidos, Rússia e Europa), as elites conservadoras juntam-se às organizações de extremismo religioso. Assim, na Rússia, os cerca de 190 milhões de dólares mobilizados foram originados em organizações associadas a dois oligarcas (Yakunin e Malofeev) que se destacam na lavagem de dinheiro para financiamento das campanhas eleitorais de partidos da extrema direita europeia. Nos Estados Unidos, 81,5 milhões de dólares foram, neste período, canalizados para organizações europeias de combate à igualdade de género por 10 think tanks da direita evangélica financiados por fundações ligadas a bilionários do campo trumpista. Terceiro dado relevante: os 438 milhões de dólares mobilizados na Europa para financiamento da agenda contra os direitos das mulheres vieram tanto de organizações católicas ultraconservadoras (polacas, espanholas e alemãs, sobretudo) como de elites empresariais de mais de 20 países.

Portugal não aparece no relatório. Engana-se quem repousar sobre isto. Tanto como se enganou quem repousou na convicção de que Portugal continuaria a ser uma exceção ao crescimento da extrema direita patente em toda a Europa. E é por ajudar a prevenir este repouso distraído que este relatório é tão importante.

Seguir o rasto do dinheiro com que a extrema direita financia as suas campanhas contra a igualdade de género permite-nos desmontar duplamente a ficção de que a extrema direita é “contra o sistema”. Primeiro, porque fica patente que o sistema contra que a extrema direita se move é o sistema dos direitos e da igualdade, de que os direitos das mulheres são um elemento nuclear. Segundo, porque o grosso do dinheiro mobilizado pela extrema direita para este fim vem da aristocracia económica que é o motor do sistema da desigualdade no trabalho, na posse dos bens e no acesso aos direitos.

Siga-se o rasto do dinheiro e perceba-se como a extrema direita é a guardiã do sistema. Na Europa e em Portugal também.

Artigo publicado no diário “As Beiras”, a 27 de julho de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
(...)