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Jacarandás no Rato

Convém repetir as vezes que forem precisas que o PS não estabeleceu, nem quis estabelecer, nenhum acordo político com o Bloco e que o palavreado de deserções e divórcios é truque vulgar de quem reserva as conversas sérias para Bruxelas.

Quem atravessar o Largo do Rato nesta altura do ano verá os jacarandás em flor, no seu lilás esplendoroso. Esse panorama, presume-se, inspirou o deputado Porfírio Silva a mais uma prosa intencional em que compara o Bloco de Esquerda à desditosa árvore que aparenta, por um lado, uma beleza admirável sendo, a outro lado, cínica fautora da sujidade pegajosa das suas folhas caídas, forjando um tapete de tropeço pelos calcários passeios.

Julgo ser esta uma variante naturalista do mito do canto da sereia que, desde a antiguidade grega, assusta os espíritos com a perversidade da fraude que consegue cintilar ao olhar. A altivez literária de Porfírio Silva incidiu sobre a declarada vontade do Bloco de Esquerda de negociar com o governo minoritário do PS o próximo Orçamento do Estado, ao mesmo tempo que afirma nada ter a rever na sua rejeição da lei do orçamento para 2021.

Com simples otimismo, devolve-se ao deputado Porfírio Silva a frase essencial: "basta o Bloco querer". Pois basta o PS querer aprovar o orçamento com o Bloco de Esquerda

Matéria sempre discutível, o Bloco tem obrigação de demonstrar, como tem feito, com factos. Logo o responsável do PS previne que o Bloco não é dono da verdade, o que se infere ser igualmente válido para o PS. O pendor moralizante de Porfírio Silva continua na crítica ao "abandono" a que o Bloco teria votado o PS, no "momento mais difícil para o povo português". Para jacarandice não está mal…

Esse estribilho, a gotejar mágoa própria muito sentida, sucede à sonora e truculenta diatribe do líder acerca da "deserção" do Bloco. Convém repetir as vezes que forem precisas que o PS não estabeleceu, nem quis estabelecer, nenhum acordo político com o Bloco e que o palavreado de deserções e divórcios é truque vulgar de quem reserva as conversas sérias para Bruxelas. Conviria que se discutisse escolhas políticas sem chantagens bacocas e que cada qual assumisse as suas responsabilidades e explicasse o alcance dos seus atos. Estar na oposição, comprometido com valores de esquerda, significa não desistir da proposta e torná-la clara para decisão do governo.

O ensaio de pregação moral não só complica a conversa como tem um problema: a ética do PS em minoria, incapaz de cumprir orçamentos acordados, está, para usar uma expressão pressurosa, em resiliência e recuperação. Com simples otimismo, devolve-se ao deputado Porfírio Silva a frase essencial: "basta o Bloco querer". Pois basta o PS querer aprovar o orçamento com o Bloco de Esquerda. Sem a inclemência do juízo de Porfírio Silva sobre os jacarandás: o belo do colorido continuará lá, sem ceder ao incómodo que provoca na rinite.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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