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A Palestina não tem nada a provar

Depois de tantos anos a assistir à luta desigual do povo palestiniano pela sobrevivência, foi a comunidade internacional que transformou esta história – a verdadeira, sem pretextos – numa história sem moral. A Palestina não tem nada a provar, a não ser que é vítima de uma ocupação ilegal.

O Bloco de Esquerda apresentou um projeto para proibir a importação e venda de bens, a contratação de serviços e a extração de recursos de territórios ilegalmente ocupados por outro país ou das suas águas territoriais associadas. Se for aprovada, a lei aplicar-se-á a cidadãos portugueses ou residentes em Portugal, a empresas e ao Estado português, e o seu incumprimento poderá ser punido com pena de prisão até cinco anos.

A ideia, que não é inédita e já inspirou iniciativas semelhantes na Irlanda e em cidades europeias como Oslo, não se resume a uma questão moral nem procura expressar simpatia simbólica pela causa palestiniana. Trata-se de saber se as relações económicas devem validar o que o direito internacional condenou como colonialismo e de tentar impedir que a ocupação ilegal de territórios seja rentável para o estado ocupante.

É importante clarificar este aspeto porque se há coisa que os últimos dias provaram é que as abordagens morais ao chamado ‘conflito’ israelo-palestiniano não passam de um embuste. Declarações como a do Governo português, que condenou “o lançamento indiscriminado de mísseis a partir da Faixa de Gaza contra civis israelitas” mantendo absoluto silêncio sobre a violência da potência ocupante; reações que tratam crimes de guerra como uma briga de crianças, à procura de saber “quem bateu primeiro”; argumentos tão inexplicáveis como a justificação da colonização porque o estado colonizador é “uma democracia” no meio de sociedades “autoritárias”, “machistas” ou “homofóbicas”; e até a já cansada desculpa “mas apoiamos a solução de dois Estados” –, todos estes pretextos fazem parte de uma moral sem história.

Por ela exige-se a um povo colonizado por um dos estados mais militarizados e agressivos do mundo que, como prova de boa vontade, assista pacificamente à sua própria destruição. Que resista pacificamente à expulsão de famílias das suas casas, à destruição dos seus olivais, à expropriação do acesso a terrenos férteis ou fontes de rega, à explosão de escolas, reservatórios de água, à humilhação diária e à prisão indiscriminada, sem rockets, nem confusão nem nada que chame a atenção.

Enquanto isso, o “democrático” Governo de Israel cumpre o seu objetivo de um Estado étnico, declara que o povo judaico tem direito exclusivo à autodeterminação nacional, que o Estado dá “valor nacional” ao “estabelecimento de comunidades judaicas” e que irá “encorajar e promover o seu estabelecimento e consolidação”, consagra Jerusalém “unida” como capital – violando todas as convenções e acordos internacionais – e define que o hebraico é a única língua oficial, diminuindo o estatuto do árabe.

Enquanto isso, o “democrático” governo de Israel bombardeia e destrói vinte e dois meios de comunicação, entre eles o edifício sede da Al Jazeera e da Associated Press, tenta “silenciar a confundir a imprensa estrangeira sobre o conflito de Gaza”; bombardeia Gaza, mata 58 crianças, e avisa que não vai parar.

Depois de tantos anos a assistir à luta desigual do povo palestiniano pela sobrevivência, foi a comunidade internacional que transformou esta história – a verdadeira, sem pretextos – numa história sem moral. A Palestina não tem nada a provar, a não ser que é vítima de uma ocupação ilegal. Como essa parte está feita, o resto do mundo não tem outro caminho para a paz a não ser o reconhecimento do Estado palestiniano.

Artigo publicado no jornal “I” a 20 de maio de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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