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Negacionismo, uma pandemia?

O conceito não se tornou tão viral quanto a pandemia, mas esteve nas bocas do mundo. A desinformação a que se refere espalhou-se tanto que foi chamada de infodemia. Olhamos para os negócios, para alguns dos protagonismos, para as formas como se dissemina. Dossier organizado por Carlos Carujo.

A pandemia foi acompanhada pelo que foi chamado uma infodemia, a desinformação tornou-se viral. Da origem da Covid-19, à sua gravidade, às formas de a combater, as teorias da conspiração ganharam proporções inéditas.

Um destes fenómenos foi o negacionismo do novo coronavírus que se esforçou por defender que não havia pandemia ou que a doença não era grave ou que não era causada pelo vírus. Aproveitou-se do medo, da ansiedade, dos problemas económicos, da frustração do confinamento.

Este termo, negacionismo, foi cunhado para designar aqueles que negam a realidade histórica do Holocausto. Cresceu depois para designar acontecimentos históricos e evidências científicas negadas por franjas da população que parecem operar de forma semelhante.

Luisa Martín Rojo e Ángela Delgado explicam uma das suas facetas: são movimentos conservadores, retrógrados que utilizam a suspeita e que fingem ser anti-sistema para defender no fundo o sistema.

Ernesto Perini Santos preocupa-se não só com quem produz as teorias e notícias falsas e os negacionismos mas também com quem atacam, como as universidades e outros centros produtores de conhecimento, e quem a elas adere, perguntando-se o que faz com que as pessoas adiram a ideias implausíveis e como elas se espalham como se de uma epidemia se tratasse.

Nicolas Guilhot explica que a transmissão de teorias conspiratórias em tempo de pandemia não é novidade. Um sentido de “apocalipse iminente” alimenta-as. Ainda para mais quando “a cultura política dos últimos 50 anos falhou em oferecer à vasta maioria das pessoas um sentido do seu valor e em protegê-las contra o risco existencial de perderem os seus meios de subsistência”.

Por sua vez, Caitlín Doherty questiona se será uma estratégia útil enquadrar a resistência a temas específicos como parte dessa categoria mais ampla que é o negacionismo. Fá-lo em particular sobre as pessoas que têm hesitações acerca das vacinas. Para lidar com este ceticismo, é preciso bem mais do que descartar as suas ideias como irracionais. É preciso quer “um engajamento genuíno com a dúvida e a incerteza que é também os dos princípios fundamentais do método científico”, quer responder às questões que colocam sobre as farmacêuticas e a ciência comercialmente orientada.

Luís Leiria recorda a história de outro negacionismo, o do VIH/SIDA, hoje praticamente inexistente, para lembrar que os argumentos dos atuais negacionistas da Covid nem sequer são originais.

Outro negacionismo mais recente é o das alterações climáticas. Alexandre Araújo Costa considera-o “um produto de laboratório de corporações e think tanks que há mais de 20 anos mimetizaram a estratégia da indústria do tabaco, que sabotou por um longo tempo as medidas de restrição”.

Neste dossier, olhamos ainda para as ligações entre negacionistas da Covid e negacionistas climáticos: muitos dos mais famosos negacionistas climáticos militam agora no negacionismo da Covid.

Outra vertente que abordamos no dossier são os negócios à volta da desinformação. O “negocionismo” é uma viagem à volta do negócio das mentiras a três tempos. Olhamos em primeiro lugar para alguns dos interesses de negócios, de Estados, de “empreendedores políticos” e teóricos da conspiração que passam pela venda de curas, merchandising, filmes, livros e por páginas de notícias falsas, redes sociais e plataformas de crowdfunding.

Olhamos em segundo lugar, para dois casos particulares de desinformação sobre a Covid: a teoria do 5G e os anti-vacinas, uma conspiração antiga e uma nova que ganharam novo fôlego em contexto pandémico e que também são um negócio.

Em terceiro lugar, prestamos atenção a como o negacionismo se aproveitou de frustrações e problemas económicos causados pelos confinamentos para sair à rua através de dois casos, o britânico e o alemão, onde as manifestações chegaram a ter dezenas de milhares de pessoas. “Pensadores laterais” e teóricos da conspiração trabalham também no seu interesse económico. Com a extrema-direita sempre por perto.

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Neste dossier:

Negacionismo, uma pandemia?

O conceito não se tornou tão viral quanto a pandemia, mas esteve nas bocas do mundo. A desinformação a que se refere espalhou-se tanto que foi chamada de infodemia. Olhamos para os negócios, para alguns dos protagonismos, para as formas como se dissemina. Dossier organizado por Carlos Carujo.

Autocolante a dizer que a Covid é uma fraude e com referência ao filme Plandemic. Foto de duncan c/Flickr.

Negocionismo I: o negócio das mentiras sobre a pandemia

Empresas a vender curas milagrosas, Estados a fazer o seu jogo geoestratégico, “empreendedores políticos” e teóricos da conspiração a vender as suas ideias. A desinformação sobre a Covid-19 passou por filmes, livros, páginas órgãos de comunicação social especializados em fake news, redes sociais e plataformas de crowdfunding.

Fake news e redes sociais. Imagem publicada no Outras Palavras.

A ‘epidemia’ de ideias falsas que ameaça o conhecimento e a democracia

Teorias falsas, fake news e manipulação política das crenças sempre existiram. Mas há uma onda de extrema-direita que lhes dá uma nova dimensão. Em entrevista ao Sul21, o filósofo Ernesto Perini Santos analisa as razões que fazem as pessoas acreditarem em ideias implausíveis.

Cartaz anti-confinamento de um grupo que se apropriou do nome "Rosa Branca", o movimento alemão de resistência anti-nazi. Foto de duncan c/Flickr

Desafios políticos do negacionismo

A capacidade do negacionismo se apresentar como um movimento anti-sistema sendo precisamente pró-sistema, aliado de conservadores e retrógrados, que utiliza a suspeita, a conspiração e a polarização da sociedade, explica em boa medida o seu êxito. Por Luisa Martín Rojo e Ángela Delgado.

Adepto de uma teoria da conspiração sobre o coronavírus. Foto de Eden, Janine and Jim/Flickr

Porque é que as pandemias são o ambiente perfeito para as teorias da conspiração?

A cultura política dos últimos 50 anos falhou em oferecer à vasta maioria das pessoas um sentido do seu valor e em protegê-las contra o risco existencial de perderem os seus meios de subsistência. As teorias da conspiração alimentam-se de um sentimento de impotência face a um apocalipse. Por Nicolas Guilhot.

Vacina. Foto de Jernej Furman/Flickr.

Pedir apenas confiança nos especialistas não cura o ceticismo da vacina

Caitlín Doherty questiona se enquadrar a resistência a temas específicos como parte de uma categoria mais ampla de negacionismo será uma estratégia útil e busca as motivações para “o ceticismo da vacina”.

Manifestação de pessoas HIV positivas na Cidade do Cabo em 2002, no âmbito da Treatment Action Campaign que defrontou Thabo Mbeki o presidente negacionista da SIDA. Foto de Louis Reynolds/Flickr.

Quem se lembra do negacionismo da SIDA?

Os atuais negacionistas da Covid acham-se verdadeiros iluminados em terra de carneirinhos. Mas os seus argumentos nem sequer são originais. Alguns parecem cópia de outro movimento negacionista que chegou a ter grande importância: o do VIH/SIDA, hoje praticamente inexistente. Por Luis Leiria.

Negacionismo climático. Foto de Matt Brown/Flickr.

Ceticismo e negacionismo

O físico Alexandre Araújo Costa considera antagónicos os dois conceitos. Analisa o negacionismo climático considerando-o “um produto de laboratório de corporações e think tanks que há mais de 20 anos mimetizaram a estratégia da indústria do tabaco, que sabotou por um longo tempo as medidas de restrição”.

Manifestantes do movimento Reopen America. Maio de 2020. Foto @SurrealSage/Twitter.

Negacionismo das alterações climáticas, negacionismo da Covid, a mesma luta?

Nem todos os negacionistas da Covid são negacionistas climáticos. Mas muitos dos mais famosos negacionistas climáticos tornaram-se agora negacionistas da Covid. A mesma desconfiança da ciência, as mesmas temáticas conspirativas, às vezes os mesmos inimigos surgem nas suas narrativas. E os mesmos interesses.

Negocionismo II: Infodemia, 5G e antivacinas

A rejeição das vacinas é antiga. Ganhou novo fôlego com os medos trazidos pela vacinação contra a Covid. A teoria da conspiração acerca dos efeitos nocivos do 5G é tão recente quanto esta mas também se adaptou aos tempos de pandemia. Há quem diga que fazem parte de uma infodemia. Mas são também um negócio.

Manifestação anti-confinamento em Londres. Setembro de 2020. Foto de Steve Eason/Flickr.

Negocionismo III: nas ruas, o caso britânico e o alemão

Nem só nas redes sociais o negacionismo da Covid vive. Em alguns países ocupou as ruas, explorando frustrações e problemas económicos causados pelos confinamentos. Na Alemanha, chamaram-se “pensadores laterais”. No Reino Unido, há vários teóricos da conspiração à mistura. Com a extrema-direita sempre por perto.