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Memórias da Comuna

Figura lendária da Comuna de Paris, Louise Michel traz-nos, neste excerto, quadros desgarrados das barricadas: de insensatez, de crueldade, de cobardia. Mas também e sobretudo da coragem dos “federados”.
Louise Michel.
Louise Michel.

Escrevi em primeiro lugar este volume sem contar nada acerca de mim. Quando amigos me assinalaram isso, juntei alguns episódios pessoais apesar do embaraço que me causava. Ao fazê-lo, o efeito contrário produziu-se em mim: enquanto ia avançando no relato passei a adorar reviver este tempo de luta pela liberdade, que foi a minha verdadeira existência, e adorei perder-me na sua memória.

É por isso que olho para os meus pensamentos como uma série de quadros em que passam milhares de existências que desapareceram para sempre.

Aqui estamos no Campo de Marte: os nossos braços estão empilhados e a noite é bela. Às três da madrugada saímos, pensando que iremos para Versalhes. Falo com o velho Louis Moreau e ele também está feliz por ir. Em lugar da minha velha espingarda, deu-me uma carabina Remington. Pela primeira vez, tenho uma boa arma, apesar de se dizer que ela não é confiável, o que não é verdade. Relembro todas as mentiras que contei à minha mãe para que ela não se preocupasse. Tomei todas as precauções, tenho cartas cheias de notícias tranquilizadoras nos meus bolsos que serão enviadas mais tarde. Digo-lhe que precisavam de mim numa ambulância; que irei para Montmartre na primeira oportunidade. Pobre mulher, como a amo. Como lhe estou grata pela liberdade que me permitiu de agir como me ditava a minha consciência e como gostaria de lhe ter poupado os maus dias que tão frequentemente teve.

Os camaradas de Montmartre estão ali. Confiamos uns nos outros e confiamos nos que comandam. Agora partimos tranquilamente; a luta começou. Há um monte e grito ao correr em frente: Para Versalhes! Para Versalhes! Razoua lança-me a sua espada para juntar os homens. Apertamo-nos as mãos no topo; o céu está a arder e ninguém ficou ferido. Espalhamo-nos como atiradores nos campos cheios de pequenos troncos. Até parecia que já tínhamos feito isto antes.

Aqui estamos em Moulineaux. Os polícias não estão a aguentar como pensámos. Pensamos que vamos avançar mais mas não, vamos passar aqui a noite, alguns de nós no forte, outros no convento jesuíta. Aqueles entre nós que pensávamos que iríamos mais longe, os de Montmartre e eu própria, choramos de raiva. E contudo estamos confiantes. Nem Eudes nem Ranvier nem nenhum dos outros teria decidido ficar parado sem uma razão séria. Contam-nos as razões mas não os ouvimos. Voltamos a ter esperança: há agora canhões no Forte de Issy e será bom permanecer aí. Tínhamos partido com munições estranhas, os restos do cerco, e as balas não condiziam com o calibre das nossas armas.

Vejo passar por mim como sombras os que estavam no grande muro por debaixo do convento: Eudes, os irmãos May, os irmãos Caria, três velhote que era valentes como heróis: o velho Moreau, o velho Chevalet, o velho Caria, Razoua, todos federados de Monmartre; um negro escuro como ébano com dentes brancos pontiagudos como os de um fera selvagem: ele é bom, inteligente e bravo; e um ex-zuavo papal convertido à Comuna.

Os jesuítas fugiram, sem contar com um velho, que diz que não tem medo da Comuna e que permanece pacificamente no seu quarto, e com o cozinheiro que, não sei porquê, faz-me pensar no frade Jean des Eutomures. As pinturas que decoram as paredes não valem dois tostões, sem contar com um retrato que dá uma boa ideia do caráter do sujeito: deve ser o diretor dos jesuítas. Há ainda uma adoração dos reis magos, um dos quais parece uma versão feia do nosso federado negro, assim como quadros de histórias hagiográficas e outros disparates.

O forte é magnífico, uma fortaleza espetral, mordida em cima pelos prussianos, na qual a brecha se enquadra perfeitamente bem. Passo muito tempo com os artilheiros. Recebemos a visita de Victorine Eudes, uma amiga de longa data que é ainda jovem. E também dispara bem.

Há mulheres com as suas bandeiras vermelhas cravejadas de balas a saudar os federados. Montaram um hospital de campanha no forte, de onde os feridos são enviados para os de Paris que estão melhor equipados.

De forma a sermos mais úteis, espalhamo-nos. Eu vou para a estação de caminhos de ferro de Clamart, bombardeada todas as noites pela artilharia de Versalhes. Seguimos um caminho cercado para o forte de Issy; a estrada está cheia de violetas a florir, esmagadas pelas bolas de canhão.

À direita, perto, está o moinho de pedra. Frequentemente não somos suficientes nas trincheiras de Clamart. Se não contássemos com o apoio do canhão do forte, um ataque surpresa teria sido possível: os versalheses nunca souberam quão poucos éramos.

Até aconteceu que uma noite estiveram apenas dois de nós na trincheira em frente à estação, apesar de não saber porquê: o ex-zuave papal e eu própria com espingardas carregadas: poderíamos pelo menos dar o alarme. Tivemos a inacreditável sorte de não sermos atacados nessa noite. Enquanto andávamos de um lado para o outro na trincheira disse-me quando nós encontrámos:

“- Que impressão tens da vida que estamos a ter?”

“- A impressão de ver a margem de um rio que temos de alcançar”, respondi-lhe.

“- Eu tenho a impressão de estar a ver um livro ilustrado”, retorquiu.

Continuámos a andar na trincheira no silêncio dos versalheses sobre Clamart.

Quando Lisbonne chegou de manhã, trazendo uma multidão com ele estava ao mesmo tempo contente e furioso, abanando a cabeça sob as balas que voltaram a assobiar à nossa volta como se estivesse a afugentar moscas.

Houve uma escaramuça noturna no cemitério em Clamart entre as campas iluminadas pelo luar que tornou visíveis, brancas como fantasmas, as pedras tumulares atrás das quais partiam os relâmpagos rápidos dos fuzis.

Uma outra expedição noturna com Berceau, no mesmo local; os que tinha saído de perto de nós voltaram sob o fogo dos versalheses mil vezes mais em perigo.

Vejo tudo isto outra vez como se fosse um sonho na terra dos sonhos, o sonho da liberdade.

Um estudante que não partilhava as nossas ideias, mas que estava ainda menos do lado dos versalheses, veio a Clamart atirar, sobretudo com o objetivo de verificar o seu cálculo de probabilidades. Trouxe um livro de Baudelaire do qual leu algumas páginas quando tinha tempo.

Um dia quando vários federados foram atingindos por tiros de canhão no mesmo lugar, uma pequena plataforma no meio da trincheira, quis refazer os seus cálculos e convidou-me para um chávena de café. Sentámo-nos confortavelmente e lemos um trecho chamado “La Charogne.” Quase tínhamos acabado o nosso quando a Guarda Nacional se lançou a nós e nos afastou, gritando: “Bom Deus, isto tem de acabar!”

No mesmo momento caíu um tiro de canhão que esmagou as chávenas na plataforma e reduziu o livro a pedacinhos.

“Os meus cálculos estavam exatamente certos!”, disse o estudante sacudindo a poeira que o cobria. Ainda ficou mais alguns dias mas depois nunca mais o vi.

Durante a Comuna os únicos a quem vi faltar coragem foi um sujeito gordinho que veio desinquietar a jovem com quem tinha acabado de se casar e que ficou feliz quando levou uma carta minha a Eudes pedindo-lhe para o reenviar para Paris. Abusei da sua confiança escrevendo mais ou menos o seguinte:

“Meu caro Eudes:

“Podes, por favor, mandar este imbecil de volta para Paris. Só é bom a causar pânico se houvesse pessoas aqui que pudessem ser atacadas de pânico. Convenci-o que os tiros de canhão do nosso forte são de Versalhes de modo a que ele corra mais depressa. Por favor manda-o embora.”

Ele tinha tanto medo que nunca mais o vi. Se manteve o uniforme federado quando o exército de Versalhes entrou em Paris terá sido imediatamente abatido junto com os defensores da Comuna. Houve muitos outros nesta situação.

O outro do mesmo tipo era um jovem. Uma noite quando havia um punhado de nós na estação de Clamart e a artilharia de Versalhes disparava sobre nós foi tomado pela obsessão de se render e nenhum razão o conseguia demover. Disse-lhe: “Faz como quiseres, mas eu fico aqui e rebento com a estação se a renderes.” Sentei-me com uma vela num pequeno quarto onde os projéteis estavam empilhados e passei a noite aí. Alguém veio apertar-me a mão e vi que também estava vigilante; era o negro. A estação aguentou-se e o jovem foi-se embora no dia seguinte e nunca mais voltou.

Uma aventura estranha aconteceu comigo e com Fernandez em Clamart.

Tínhamos ido com alguns dos federados para a casa do guarda do campo. Tantas balas assobiavam à nossa volta que Fernandez disse-me: “se morrer toma conta das minhas irmãs pequenas”. Abraçamo-nos e continuamos ao longo da estrada. Três ou quatro feridos estavam na casa, deitados no chão ou em colchões. O guarda de campo estava ausente e a sua mulher, sozinha, parecia assustada.

Quando começámos a retirar os feridos, começou a pedir-nos para nos irmos, deixando para trás os feridos feridos que, dizia ela, não podiam ser transportados e deviam ser deixados ao cuidado dos dois ou três federados que nos acompanhavam. Não conseguindo compreender porque é que a mulher estava a agir desta forma, não deixaríamos por nada deste mundo os outros neste lugar suspeito.

Removemos os feridos com grande dificuldade na macas que tínhamos trazido, enquanto a mulher rastejava atrás de nós, implorando para nós dois nos irmos embora. Vendo que não conseguia nada, ficou em silêncio e viu-nos afastar da sua porta, carregando os nossos feridos, enquanto choviam balas, era costumeiro que os de Versalhes disparassem para as ambulâncias.

Soubemos mais tarde que estavam soldados do exército regular escondidos na sua cave. Será que esta mulher temia que outras pudessem ser assassinadas ou estaria simplesmente delirante?

Junto com os nossos feridos, trouxemos um soldadinho versalhês meio morto que, como os outros, foi levado para um hospital de campanha em Paris e começou a sarar. No momento da invasão de Paris pelo exército terá sido morto pelos vencedores tal como todos os outros feridos.

Quando Eudes foi à Légion d'Honneur fui a Montrouge com La Cecilia e depois a Neuilly com Dombrowski. Estes dois homens, que fisicamente eram muito diferentes, davam a mesma impressão durante as ações; o mesmo olhar rápido, a mesma capacidade de decisão, a mesma impassibilidade.

Foi nas trincheiras de Hautes Bruyères que conheci Paintendre, o comandante das crianças perdidas. Se este nome de crianças perdidas alguma vez foi justificado tê-lo-á sido no caso dele, no caso deles. Tamanha era a sua ousadia que parecia que nunca poderia ser morto. Contudo, Paintendre acabar por ser morto, tal como muitos deles.

Em geral, é possível ver pessoas tão corajosas como os federados mas nunca mais corajosas – era este ímpeto que poderia ter ganho na rapidez do movimento revolucionário.

As calúnias sobre o exército da Comuna espelharam-se nas províncias; era feito de bandidos e fugitivos da justiça dizia Foutriquet.

Apesar de Paule Mink, Amouroux e outros valentes revolucionários terem emocionado as grandes cidades onde se declararam Comunas que enviaram a sua adesão a Paris; no resto da província, a campanha era feita pelos relatórios militares de Versalhes. Por exemplo, o relatório sobre a morte de Duval assustou as aldeias.

“As nossas tropas”, dizia, “fez mais de 5.000 prisioneiros e pudemos ver de perto a figura dos miseráveis que, para saciar as suas paixões de bestas selvagens, conduziam alegremente o país à beira da ruína. Nunca a baixa demagogia tinha oferecido aos olhares tristes das pessoas honestas rostos tão ignóbeis: a maior parte teriam entre quarenta a cinquenta anos mas havia velhos e crianças nas longas filas de personagens hediondas. Também havia algumas mulheres. O pelotão de cavalaria que as escoltava tinha grande dificuldade em defendê-las da multidão exasperada.” “Conseguiu-se contudo conduzi-las sãs e salvas aos grandes estábulos.””

“Quanto ao indivíduo Duval, esse outro falso general, foi executado de manhã junto com dois outros oficiais da Comuna.”

“Os três tiveram o destino reservado a todos os dirigentes insurgentes apanhados em armas como fanfarrões.” (A guerra dos comuneiros de Paris, por um oficial Superior do exército de Versalhes)

Nós sabíamos o que esperar dos generais do Império que passaram para o serviço da República em Versalhes sem que nem eles nem a Assembleia mudassem outra coisa que não o título.

Uma das vinganças futuras do estrangulamento de Paris será descobrir as infames traições costumeiras da reação militar.


Nota da tradução: Louise Michel, professora e escritora, foi uma das mais destacadas militantes da Comuna de Paris. Pelo seu envolvimento nesta revolta será deportada para a Nova Caledónia. Só pode regressar a Paris em 1880 onde continua a sua militância, voltando a ser presa várias vezes. Tendo inspiração blanquista inicialmente, vai-se tornar uma figura conhecida do anarquismo e uma inspiração para o feminismo.


Fonte: Mémoires de Louise Michel écrits par elle-même. F. Roy, Paris, 1886, traduzido para inglês para o Marxist.org por Mitchell Abidor. Tradução de Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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