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Comuna de Paris: rebelde, polémica e atual

No seu livro Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune, Kristin Ross sugere que esta revolta antecipou visões contemporâneas sobre Arte e Ecologia e que as diferenças entre marxistas e anarquistas eram menores que se pensa.
Pormenor da capa de Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune de  Kristin Ross.
Pormenor da capa de Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune de Kristin Ross.

Em 18 de março de 1871, artesãos e comunistas, trabalhadores e anarquistas, tomaram a cidade de Paris e estabeleceram a Comuna. Essa experiência radical de autogoverno socialista durou 72 dias, antes de ser esmagada por um massacre brutal que estabeleceu a Terceira República francesa. Mas socialistas, anarquistas e marxistas nunca deixaram de discutir o significado daquela ação.

Kristin Ross, no seu novo livro, o poderoso Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune [Luxo Comunal: O imaginário político da Comuna de Paris], expõe com máxima clareza os debates acumulados sobre a Comuna, os quais, como ela diz, calcificaram falsas polémicas: anarquismo versus marxismo, camponês versus operário, terrorismo jacobino revolucionário versus anarco-sindicalismo e assim por diante.

Agora que a Guerra Fria acabou e o Republicanismo francês está exaurido, argumenta Ross, podemos livrar finalmente a Comuna dessa esclerose. Essa emancipação pode, por sua vez, revitalizar a esquerda contemporânea para agir e pensar sobre os desafios de hoje. Nenhuma obra especifica mais completamente o que disse Marx, para quem a maior conquista da Comuna de Paris foi sua “existência real em exercício”.

Entrevista de Manu Goswami para a revista Jacobin.


O seu livro reencena a Comuna de Paris nos nossos tempos. Porque é que este movimento é um recurso para pensar as exigências do presente?

Kristin Ross: Fico contente que tenha escolhido “recurso”, em vez de “lição”. Em geral as pessoas insistem em que o passado nos daria lições, ou ensinaria que erros evitar. A literatura acerca da Comuna é cheia de palpites, de engenheiros de obra feita, de gente que goza ante a lista de erros: ah, se os Communards tivessem feito isso ou aquilo, saqueado dinheiro do banco, marchado sobre Versailles, feito a paz com Versailles, se se organizassem melhor, aí, sim, teriam sido bem-sucedidos!

Para mim, esse tipo de superioridade teórica post-facto é, ao mesmo tempo, estúpida e profundamente a-histórica. O nosso mundo não é o mundo dos Communards. Quanto mais cedo compreendermos esta diferença, tanto mais fácil será perceber os pontos nos quais o mundo deles é, de facto, muito próximo do nosso – mais próximo de nós, talvez, do que o mundo da geração dos nossos pais.

O modo como vivem hoje as pessoas, particularmente os mais jovens, assemelha-se muito à instabilidade económica enfrentada pelos operários e artesãos do século 19, que fizeram a Comuna. Muitos deles passavam mais tempo em busca de trabalho do que propriamente a trabalhar.

Depois de 2011, com a retoma virtualmente em todos os lugares, de uma estratégia política baseada em tomar espaços, ocupar locais e territórios, converter cidades inteiras – de Istambul a Madrid, de Montreal a Oakland – em teatros para operações estratégicas –, a Comuna de Paris voltou a ser visível, como se recebesse uma nova iluminação, entrou novamente na figurabilidade do presente.

As suas formas de invenção política tornaram-se novamente viáveis para nós – não como lições, mas como recursos, ou como o que Andrew Ross, ao comentar meu livro, chamou de “um arquivo usável”. A Comuna tornou-se imagem para uma história, e talvez para um futuro – diferente dos rumos que a modernização capitalista tomou; e, por outro, dos caminhos que o Estado socialista utilitário seguiu.

É um projeto que, creio, muita gente partilha hoje, e o imaginário da Comuna é central para esse projeto. Por essa razão, tentei, no livro, pensar sobre a Comuna ao mesmo tempo como pertencente ao nosso passado e como uma espécie de abertura do campo dos futuros possíveis, no meio das nossas lutas atuais.

 

O luxo comunal foi slogan da secção dos artistas da Comuna e dá título ao seu livro. Pode falar sobre a génese dessa expressão?

Diferentemente da “república universal”, “o luxo comunal” não foi um dos slogans retumbantes da Comuna. Encontrei a expressão metida na última frase do manifesto que artistas e artesãos produziram sob a Comuna, quando se auto-organizavam numa federação. Para mim tornou-se uma espécie de prisma pelo qual refratar várias invenções e ideias-chaves da Comuna de Paris.

O autor da expressão, o artesão de artes decorativas Eugène Pottier, é mais conhecido até hoje como autor de “A Internacional”, composto no final da Semana Sangrenta, antes de o sangue dos massacres ter secado nas calçadas. O que ele e outros artistas queriam dizer com “luxo comunal” era algo como um programa de ação para “beleza pública”: melhoria de vilas e cidades, o direito de todas as pessoas viverem e trabalharem num ambiente agradável.

Pode-se ver aí uma exigência pequena, até mesmo apenas “decorativa”. Mas de facto implica não só a completa reconfiguração da nossa relação com a arte, mas também com o trabalho, as relações sociais, a natureza e o ambiente vivido. Significa mobilização total na direção das duas palavras de ordem da Comuna: descentralização e participação. Implica arte e beleza desprivatizadas, plenamente integradas na vida diária, não escondidas em salões privados ou centralizadas numa monumentalidade nacionalista obscena.

Os recursos e realizações estéticas de uma sociedade não mais tomariam, como os Communards mostraram em atos, a forma do que William Morris chamou de “aquela peça básica da estofaria napoleónica”, a Coluna Vendôme. Na pós-vida da Comuna, no trabalho de Elisée Reclus, Morris e outros, mostro como a reivindicação de que a arte e a beleza florescessem na vida quotidiana continha as ideias chaves do que hoje chamaríamos de desejo “ecológico” e que pode ser percebido na “noção crítica de beleza” de Morris, por exemplo; ou na insistência de Kropotkin sobre a importância da autossuficiência regional.

Nas suas fronteiras de alcance mais especulativo, “o luxo comunal” implica um conjunto de critérios, os sistemas de valorização diferentes do que o mercado fornece, para decidir o que uma sociedade valoriza, o que considera precioso. A natureza é valorizada não como um stock de recursos, mas como fim em si mesma.

 

O seu livro estende a vida da Comuna até aos trabalhos de Kropotkin e do socialista britânico William Morris, entre outros.

É muito fácil deixar-se tomar, num transe de horror, pelo que Flaubert chamou de a “goticidade” da Comuna, expressão pela qual espero que ele tenha querido referir-se aos horrores da Semana Sangrenta, ao massacre de milhares que levou ao fim da Comuna. De modo algum minimizo o significado do massacre. De facto, vejo aquela espantosa tentativa, pelo Estado, de exterminar um a um e em massa os seus inimigos de classe, como o ato de fundação da IIIª República.

Mas ocupei-me mais em documentar o que, para mim, seria o prolongamento da Comuna – o modo como o pensamento communard continuou a ser elaborado depois do fim da Semana Sangrenta, com sobreviventes da Comuna exilados reunindo-se e trabalhando juntos com os apoiantes que mencionou – companheiros de uma mesma viagem, para quem os eventos da Comuna haviam alterado profundamente o que Jacques Rancière chamaria de “a distribuição do sensível”.

Descrevo como a onda de choque produzida pela Comuna e as discussões e a sociabilidade que se seguiram, com os que sobreviveram à Comuna, mudaram os métodos desses pensadores, as questões sobre as quais se debruçavam, os materiais que selecionavam, a paisagem intelectual e política que mapearam para si mesmos – em resumo, o caminho deles.

Essas ondas imediatas de pós-choque são a continuação da luta, por outros meios. São parte do excesso do evento e são tão absolutamente vitais para a lógica de qualquer evento, como as ações iniciais pelas ruas.

Talvez a maior modificação possa ser detetada na trajetória de Marx, depois da Comuna – uma mudança que assume a forma paradoxal tanto de um fortalecimento da sua teoria como de uma rutura com o próprio conceito de teoria. A Comuna mostrou muito claramente, aos olhos de Marx, que as massas não só modelam a história como também, ao modelá-la, transformam o presente e também transformam a própria teoria. Isso, de facto, é o que Henri Lefebvre tinha em mente, quando falou da “dialética do vivido e do percebido”.

O pensamento e a teoria de um movimento só são desencadeados com o movimento e depois do movimento. São as ações que criam os sonhos, não o contrário.

 

Piotr Kropotkin, Elisée Reclus e William Morris estavam, como argumenta no seu livro, preocupados em mobilizar as “energias do antigo”, associadas a formas pré-capitalistas e não capitalistas, com o potencial radical de práticas emergentes.

Não só esses, mas também Marx estava preocupado com a existência, “anacrónica” no seu próprio tempo, de formas e modos de vida pré-capitalistas.

O destino das obshchina, aquelas formações agrárias comunitárias russas, que perduraram por séculos, foi um importante foco das preocupações dos socialistas ocidentais. O desafio teórico que tomou forma depois da Comuna girava em torno da questão de uma forma-comuna revitalizada: como pensar juntas (a) a espantosa insurreição que aconteceu numa grande capital da Europa e (b) a persistência daquelas antigas formas comunistas no campo.

Estes pensadores estavam todos extremamente atentos ao que se pode chamar “fissuras no tempo” – momentos nos quais a ininterrupta continuidade da modernidade capitalista parece rachar-se e abrir-se como um ovo. Os historiadores em geral temem o anacronismo como o maior erro possível. Tendem, por exemplo, a desconsiderar o interesse de Morris pela Islândia do seu tempo, e pelo passado medieval da Islândia, como se fosse nostalgia obcecada. Morris foi, realmente, capaz de ver formações pré-capitalistas e modos de vida como os que haviam florescido na Islândia medieval como passados, parte da história, e, ao mesmo tempo, como figuração de um futuro possível.

Isso é sinal, na minha opinião, não de nostalgia, mas de um modo de pensar profundamente historicizado. Sem isso, não temos como pensar a possibilidade de mudança, nem de viver o presente como algo contingente e sem desfecho conhecido.


Kristin Ross é professora emérita de Literatura Comparada na Universidade de Nova Iorque. Especialista em cultura e literatura francesa.

Entrevista de Manu Goswami para a revista Jacobin publicada no Outras Palavras. Traduzida por Vila Vudu. Editada pelo Esquerda.net para português de Portugal.

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Neste dossier:

Comuna de Paris, os 72 dias que mudaram o mundo

Os 150 anos da Comuna de Paris são o pretexto para analisar a primeira experiência de autogoverno operário, os debates que suscitou, as esperanças que alimentou e a forma como continua a ser uma inspiração. Dossier organizado por Carlos Carujo.

A chamada Geração de 70 foi influenciada pela Comuna de Paris.

A Receção da Comuna de Paris de 1871 em Portugal

A insurreição parisiense teve enorme impacto numa certa elite intelectual jovem que se afirmaria nas letras e na política. Do outro lado, a imprensa monárquica, conservadora e clerical abominou-a, vulgarizando as figuras como um bando de revoltosos que queriam acabar com a ordem. Por Tiago Rego Ramalho.

Ilustração sobre a resistência à apropriação dos canhões de Montmartre por Thiers, o momento que despoletou a revolta que originou a Comuna. Foto de Wikimedia Commons.

A alternativa possível da Comuna de Paris

Paris demonstrou que era necessário perseguir o objetivo de construir uma sociedade radicalmente diferente da capitalista. Ainda que “o tempo das cerejas” nunca tenha chegado para os seus protagonistas, a Comuna encarnou a ideia abstrata e a transformação concreta ao mesmo tempo. Por Marcello Musto.

Barricada no cruzamento das avenidas Voltaire e Richard-Lenoir. Biblioteca histórica da Cidade de Paris/Wikimedia Commons.

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Banco de França. Imagem da instituição.

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Um governo popular não pode ficar paralisado diante do mundo financeiro, deve tomar medidas radicais em relação ao banco central, bancos privados e dívidas. Se não o fizer, está condenado ao fracasso. Por Eric Toussaint.

Ilustração sobre a Comuna de Paris. Fonte: Site da Gauche Anticapitaliste.

A Comuna de Paris e os debates que suscitou

Marx, Trotsky, Lenine foram alguns dos que pensaram sobre a Comuna de Paris. Mas esta primeira tentativa de emancipação social dos oprimidos permanece de uma espantosa atualidade e merece alimentar a reflexão das novas gerações. Por Michael Löwy.

Pormenor da capa de Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune de  Kristin Ross.

Comuna de Paris: rebelde, polémica e atual

No seu livro Communal Luxury: The Political Imaginary of the Paris Commune, Kristin Ross sugere que esta revolta antecipou visões contemporâneas sobre Arte e Ecologia e que as diferenças entre marxistas e anarquistas eram menores que se pensa.

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Estiveram no despoletar do movimento e até ao final nas últimas barricadas mas têm sido invisibilizadas. Os seus nomes esquecidos e os seus contributos menorizados. E no seio do movimento operário da época enfrentavam hostilidade de muitos grupos. Entrevista à historiadora Mathilde Larrère.

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