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Precisamos de confinar o vírus, não as pessoas

Temos que deixar de andar a fugir e a escondermo-nos do vírus e começar a correr atrás dele, isolando-o: vacinando e testando massivamente.

O confinamento de uma população é uma medida extrema, cega, de último recurso, de quem não consegue controlar uma epidemia. Todos os confinamentos implicam grandes repercussões sociais e económicas, principalmente em sociedades frágeis, como é o caso da portuguesa. No trabalho, na escola, na socialização, na saúde mental, no agravamento das doenças crónicas, na falta de diagnósticos precoces, entre tantos outros aspetos que contribuem para acentuar as dificuldades e desigualdades já existentes, com consequências tão ou mais graves na saúde do que a própria epidemia. A covid-19 veio revelar muitas das nossas fragilidades e provou que o desenvolvimento, a economia e o bem-estar de um país dependem largamente da saúde da sua população.

A solução não pode ser confinar a população, terá que passar por confinar as pessoas infectadas, ou seja, confinar o vírus! Temos que deixar de andar a fugir e a escondermo-nos do vírus e começar a correr atrás dele, isolando-o: vacinando e testando massivamente.

Vacinar, vacinar!

As vacinas estão aí e são um instrumento fundamental no controlo da covid-19, mas a sua distribuição é um desafio mundial. Para já, não há vacinas em quantidade suficiente para se imunizar toda a população. Perante essa dificuldade, o Governo deverá reagir e agir com a maior brevidade. Em vez de guardar doses, porque não adiar a segunda toma? De acordo com fontes oficiais do Reino Unido, a vacina da Pfizer já provou reduzir o risco de infeção em cerca de 65% com a primeira toma e a da Astrazeneca parece ser igualmente eficaz mesmo após 12 semanas. A OMS e a Comissão Técnica de Vacinação já afirmaram que, nas circunstâncias excepcionais em que vivemos, a segunda dose pode ser adiada. Estamos a viver uma circunstância excecional e a decisão de atrasar a segunda toma permitiria maximizar o número de pessoas a beneficiarem da vacina, reduzindo perdas de vida e internamentos.

Todas as pessoas saberão esperar pela sua vez, mas exigem que aqueles que estão em maior risco sejam devidamente priorizados na vacinação. E aqueles que estão em maior risco são os mais idosos, que devem e precisam de ser considerados como a prioridade das prioridades, devendo neste processo passar as fases da vacinação a ser definidas por grupos etários numa lógica descendente, como, aliás, já acontece em muitos outros países. De uma vez por todas devíamos ter uma ordenação simples, inquestionável e entendida por todos nós: mais de 80 anos, mais de 77, mais de 75… “Mostre o seu bilhete de identidade e vacine-se!” Simples e claro.

Na actual definição, por exemplo, as pessoas com diabetes representarão 30 a 40% das pessoas no grupo com mais de 50 anos e com co-morbilidades, pois esta percentagem corresponde ao número de pessoas com diabetes que têm, também, uma das condições listadas para essa fase do plano de vacinação: insuficiência cardíaca, doença coronária, insuficiência renal ou doença respiratória crónica. Que confusão… Podia dizer-se o mesmo para outras doenças.

Segundo as previsões iniciais, Portugal teria direito a receber, até ao final do primeiro trimestre de 2021, quatro milhões de vacinas. Até agora, foram apenas entregues 500 mil. O governo português, enquanto Presidência da CE, deveria deitar mão de outras estratégias possíveis: comprar a vacina de outros países (não esperar que venham ter com a EMA mas procurar as que oferecem mais garantias) e conseguir pôr todas as fábricas de vacinas na Europa a produzir vacinas anti-covid, se necessário tornando as patentes públicas.

A política de saúde não pode ficar exclusiva dos agentes de saúde, tem de saber envolver e mobilizar toda a comunidade, quer na vacinação, quer no confinamento dos infectados

Testar, testar!

A testagem massiva já é possível, não é uma miragem. Enquanto a vacina não chega é a forma de localizar o vírus. E este caminho ignorado até agora parece estar finalmente aberto. A própria ministra da Saúde já assumiu esta estratégia. Testar e testar rápido, apostando no acesso generalizado aos testes rápidos de antigénio, que são uma ferramenta essencial para controlar a pandemia. Ao contrário dos testes laboratoriais, os testes de antigénio podem ser feitos em casa pela própria pessoa, são de fácil utilização e dão resultados em tempo real, informando essa pessoa se é contagiosa e, assim, poder tomar medidas para impedir a propagação e auto isolar-se de acordo com as indicações do SNS24. Só desta forma conseguiremos identificar precocemente os casos positivos e quebrar as cadeias de transmissão da infeção, confinando o vírus e não a maioria da população.

Até à data de hoje, a aplicação dos testes rápidos de antigénio só é permitida nos estabelecimentos prestadores de cuidados de saúde, laboratórios, algumas farmácias e, a título excecional, às equipas de saúde pública. Como a história da diabetes e da insulina já comprovou, não há justificação nenhuma para que as pessoas não possam aprender a auto testarem-se. Garanto que é mais difícil estrelar um ovo do que fazer um destes testes. E com que poupança! Pedir às pessoas para serem agentes de saúde pública também é saber dar-lhes confiança, autonomia e capacidade para fazerem parte da solução. As pessoas querem, podem e sabem fazer mais. Não penso que seja necessário pedir a quem de direito que revisite a história dos testes de gravidez ou do diagnóstico do HIV/sida.

A política de saúde não pode ficar exclusiva dos agentes de saúde, tem de saber envolver e mobilizar toda a comunidade, quer na vacinação, quer no confinamento dos infectados (com o óbvio apoio para que o possam cumprir).

Artigo publicado em publico.pt a 12 de fevereiro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Médico, presidente da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP), dirigente do Bloco de Esquerda
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