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Torre Bela: "Vaidade, o meu pecado preferido"

Foi a gabarolice que os traiu. Se não fosse a vaidade dos caçadores nunca teríamos sabido que tipo de gente abate 540 veados, javalis e gamos que não têm para onde fugir nem por onde se esconder.

O Ministro do Ambiente foi claro sobre o ato “ignóbil e vil” que matou 540 animais de grande porte na Torre Bela, um “crime ambiental”. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) fez queixa-crime ao Ministério Público por “fortes indícios de prática de crime contra a preservação da fauna durante uma montaria realizada a 17 e 18 de dezembro, na qual terão participado 16 caçadores” e suspendeu a licença da Zona de Caça Turística de Torre Bela.

Logo depois foi a proprietária da Torre Bela quem apresentou uma queixa-crime ao Ministério Público contra a empresa espanhola responsável pela montaria e também contra desconhecidos, afirmando “que esta caçada ocorreu em inequívoca violação dos direitos de caça adquiridos e ultrapassando os limites acordados por contrato com a entidade exploradora da caçada, limites fixados pela zona de caça turística”.

Quando também a Câmara da Azambuja lavou as mãos ficou claro que ninguém se ia acertar sobre responsabilidades. Estranhamento, só estavam de acordo numa coisa: a inexistência de qualquer relação entre a matança e “outra eventual atividade da Herdade ou dos seus proprietários”. A outra atividade afinal não era nada eventual e valia uma renda milionária, mas já lá vamos.

Entre o vai e vem de acusações (que é a melhor maneira de levar com as culpas de raspão) ficam as imagens do massacre como fiadoras do apelo geral à punição dos responsáveis. “We dit it again !!! 540 animals with 16 hunters in Portugal”, dizia a mensagem que acompanhava a fotografia de centenas de animais mortos perfeitamente alinhados no chão e dois cobardes de pé.

“O que se ouvia era a cada 10 segundos: pá, pá, pá. E eram tiros, tiros, tiros. Tanto que a minha filha me perguntava ‘Pai, porque é que são tantos tiros?’ e eu respondi ‘Pois, não sei. A morte saiu à rua. Estão a massacrar alguma coisa lá dentro’”, relatou um vizinho à imprensa regional.

Foi a gabarolice que os traiu. Se não fosse a vaidade dos caçadores nunca teriamos sabido que tipo de gente abate 540 veados, javalis e gamos que não têm para onde fugir nem por onde se esconder, nunca teríamos visto as fotografias das famílias orgulhosas e das crianças com as caras manchadas do sangue da matança, nunca teríamos perguntado como e porquê. Enquanto andávamos distraídos com o fim do ano passava-nos o fim do mundo debaixo do nariz.

Muitas coisas abanaram depois da publicação daquelas imagens. Abanou a empresa espanhola, a lei, a fiscalização e o conceito de “caça turística", abanou um dos maiores projetos fotovoltaicos de Portugal com 775 hectares e um investimento previsto de 170 milhões de euros (mas que vai criar apenas 10 postos de trabalho), abanou a nossa memória coletiva.

Apesar das certezas do Ministro, do Presidente da Câmara da Azambuja e da proprietária, a verdade é que atrás da matança da Torre Bela está um negócio qualquer. O negócio da empresa espanhola que está ligada ao negócio da carne, o negócio da empresa que explora a Torre Bela e que promoveu a montaria a preços milionários, o negócio da sua misteriosa proprietária que quer o terreno limpo para cobrar uma renda pela instalação de um parque fotovoltaico, que por sua vez é o negócio das duas empresas inglesa e francesa que concorreram ao leilão solar de 2019.

O Estudo de Impacto Ambiental do projeto prevê a retirada de veados, gamos e javalis para “a zona adjacente localizada a nascente”. No entanto, o estudo também refere que a hipótese de extermínio de animais pode ser ponderada que os animais tornaram-se num problema que precisava de "solução".

A matança e a desflorestação daquela propriedade deram-se antes da aprovação do Estudo de Impacte Ambiental, que entretanto foi (bem) suspenso. Um projeto de energia limpa ficou manchado de sangue lembrando-nos que a desejada transição energética também pode ser um negócio que destrói a biodiversidade e joga cal nos usos sociais de terrenos florestais e agrícolas.

A Torre Bela é a maior propriedade murada da Europa. Não está errado pensar que tanta terra produtiva deve servir as necessidades e o bem-estar da comunidade em vez do ócio dos seus proprietários. Essa ideia é bonita e quem a teve primeiro foi o povo da Azambuja, mais precisamente de Manique do Intendente, de Maçussa e da Lapa (Cartaxo).

"Se aqui se fizer uma cooperativa numa parte desta terra é preciso que esse latifundiário que está aí, que tem aqui casas vazias para passar o fim-de-semana para as caçadas e para os amigos deles, que exploraram este povo anos e anos, os vossos pais e os vossos avós (...) não pode ficar com o resto da propriedade."

Este projeto apresentado em nome do futuro serve essa ideia? É preciso parar e refletir. Todos queremos a modernidade mas não estamos dispensados de perguntar de quem é a enxada. De a construir.

Artigo publicado no jornal “I” a 31 de dezembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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