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À beira de um ataque de nervos

O país precisa de esperança concreta. E isso faz-se de horizontes que mobilizem todas as nossas forças. No ano que aí vem, em cada decisão coletiva, é isso que se joga.

Ao cabo de dez meses de pandemia, o país está exausto de tensão e medos acumulados. A compressão da economia e a compressão do espaço das vidas torna-se cada dia mais insuportável. Para muitos, isso significa desespero causado pelo desemprego ou pela perda quase total de rendimento, logo agora que as coisas pareciam levar um rumo de recuperação, ainda que tímida. Comparamo-nos com outros povos e animamo-nos por não estarmos sós nesta provação, mas isso mesmo acrescenta medo ao nosso medo porque torna a nossa viragem dependente da de outros.

Para não sermos vítimas do desinvestimento de muitos anos na saúde e no trabalho, aceitamos “achatar a curva” achatando os nossos direitos. Para que a fragilização dos nossos velhos, esquecidos das políticas públicas há muito, não degenere em tragédia coletiva, deixamos de os tocar e impomo-nos distâncias. O país chega ao fim deste ano com uma ansiedade brutal.

Para um país assim, há três respostas que estão aí. A primeira é a da extrema direita. É uma resposta que explora os medos e o desespero e que alimenta a zanga de quem tem medo e desespera. É uma resposta apontada à culpabilização difusa, à segregação social e à acumulação de capital de queixa, sem nunca ambicionar mudar o que, no funcionamento da sociedade, provoca a fragilidade que é a verdadeira raiz do desespero. A segunda resposta é a da contenção de danos e tem nas diretrizes de Mário Centeno sobre a “intervenção na margem” sem medidas estruturais a sua cartilha. É uma resposta resignada, por antecipação, ao mais que previsível regresso de Bruxelas às imposições de redução de défices e da consequente limitação da despesa social, agora que ela é o resguardo único da massa dos atirados para o vazio. Tudo nela é temporário e a bazuca europeia é o seu resguardo. A terceira resposta é a da determinação em mudar agora de fundo as condições de segurança das pessoas. A segurança feita saúde, com um SNS redimensionado nos seus meios humanos e na sua gestão. A segurança feita emprego, com direitos do trabalho que previnam a facilidade de despedir e de recorrer a mão de obra sem direitos. A segurança feita proteção social, reforçando-a onde ela é fraca e trazendo para mecanismos robustos de apoio – e não para medidas pontuais – os muitos milhares de pessoas sem proteção.

O país precisa de esperança concreta. E isso faz-se de horizontes que mobilizem todas as nossas forças. No ano que aí vem, em cada decisão coletiva, é isso que se joga.

Artigo publicado no diário “As Beiras”, a 22 de dezembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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