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Primeiro atacaram "os coitadinhos". Depois...

"Tempos sombrios", Brecht. Mas a verdade, a política e a palavra são as armas dos democratas. O teatro é uma arma. O corajoso espetáculo do Tiago Rodrigues "Catarina e a beleza de matar fascistas" é prova disso.

19 de maio de 2028, chegou o dia de Catarina. Aos 26 anos matará um fascista porque, aos 26 anos, no dia 19 de maio de 1954, Catarina Eufémia morreu, assassinada a tiro numa greve de trabalhares rurais em Baleizão. Catarina, como todas as Catarinas antes dela, matará um fascista cúmplice (em atos, palavras ou omissões) da morte de mais uma mulher. Os pés estão firmes na terra que conheceu bem as misérias da ditadura, mas Catarina hesita, tem dúvidas. "De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida". Sabem quem disse isto? Brecht. E Catarina tem dúvidas. Não vê beleza em matar fascistas, sabe que o seu ritual familiar não impediu a extrema-direita de alcançar o poder, e parece-lhe uma contradição matar para que mais nenhuma mulher morra.

"Apenas a violência pode servir onde reina a violência". Sabem quem disse isto? Brecht. Em democracia serve a palavra, e a política. Mas a expressão é também arma dos fascistas, e ela pode matar. O discurso do ódio faz vítimas, os "coitadinhos", bodes expiatórios que o líder do Chega violenta para cavar fundas fraturas sociais, dizendo falar em nome da maioria, do "português comum". Mas há mais em comum entre quem trabalha por tão pouco, entre todos os precários, entre todas as mulheres, do que entre qualquer um deles e Ventura. O seu percurso de oportunismo, do PSD para o Chega, de inspetor tributário para advogado de offshores, é tudo menos o de um "português comum".

"Quando a hipocrisia começa a ser de péssima qualidade, é hora de começar a dizer a verdade". Sabem quem disse isto? Brecht. Ventura acumulou o salário de deputado com o de consultor fiscal. A PJ bateu-lhe à porta no âmbito do maior caso de corrupção autárquica do país. Os seus financiadores - vindos da Banca, do imobiliário ou dos negócios com Luanda - veem nele o futuro da Direita dos negócios.

"O fascismo é uma fase histórica do capitalismo; neste sentido, é algo novo e ao mesmo tempo antigo". Sabem, foi Brecht. A história não se repete. A Grande Recessão não repetiu a Grande Depressão. O fascismo que agora lavra não repete o do séc. XX. Mas a fratura e o susto são sempre os seus instrumentos. Desde os anos 70 que o capitalismo financeiro engole direitos para sobreviver. Uma por uma, derrubou as conquistas económicas, sociais e laborais do pós-guerra, e no seu lugar plantou mercados, deixando um lastro de pobreza, de gente precária e desiludida. Leiam o programa eleitoral do Chega e saberão para onde quer ir: a venda de escolas e hospitais aos privados, menos impostos para os ricos, menos direitos para quem trabalha, mais concentração da riqueza. É só isso que importa, e só o autoritarismo o pode impor.

"Tempos sombrios", Brecht. Mas a verdade, a política e a palavra são as armas dos democratas. O teatro é uma arma. O corajoso espetáculo do Tiago Rodrigues "Catarina e a beleza de matar fascistas" é prova disso.

Artigo publicado em “Jornal de Notícias” a 15 de dezembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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