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D. Sebastião

Os presidentes de agora, deste século XXI, também são eleitos com qualquer idade. Tu, Donald, tens a idade mental de D. Sebastião quando se tornou rei. Bolsonaro é o teu irmão mais novo.

Eu gostava de te escrever, Donald, só para te dizer o que penso de ti.

Mas quando escolho as palavras, só me saltam das teclas subprodutos, coisas indizíveis, palavras delinquentes. Insultos.

Dantes os reis subiam ao trono, ao poder, como então se dizia, com qualquer idade.

Dom Sebastião, o tal, foi rei com três anos e quatro meses.

Os presidentes de agora, deste século XXI, também são eleitos com qualquer idade. Tu, Donald, tens a idade mental de D. Sebastião quando se tornou rei. Bolsonaro é o teu irmão mais novo. Foste eleito pela primeira e única vez com muitos votos. Daqueles que viam em ti o D. Sebastião deles. Só que o rei português era um parvo e tu, Donald, um espertalhão.

Perdeste as eleições.

Afinal, há gente normal nos EUA. Há gente que ensina os filhos a dizer bom dia, que lhes dá um beijo ao deitar e lhes diz, não se rouba o lanche aos outros meninos.

Afinal, há gente, nessa tão proclamada pátria da liberdade, que é gente.

Eu sei. Também há os outros, que desfilam cobertos por camadas de raiva, ódio, impotência, alarvidade, incentivados pela arrogância que o teu focinho fechado transmite. Fechado, mas sem máscara, num incentivo criminoso ao contágio.

Esses outros fazem parte dos teus. Desfilam de braço esticado e ostentam armas. Gritam à porta das assembleias de voto “ Stop the count”. São uma espécie de vanguarda armada, exércitos na sombra, à espera da sua hora. Não queriam a contagem dos votos até ao fim, porque sabiam que iam perder. Nem na mais caótica República das Bananas se assistiu a uma coisa destas.

Os muitos milhões que votaram em ti fazem parte, na sua maioria, de uma América pobre, agreste, nalguns casos indigente. São os que perderam empregos, viram as fábricas fechar, comem mal, soletram mal, vaqueiros sem vacas, operários sem oficinas, vencidos no deserto da globalização. Vivem atomizados em casas espaçadas, sem livros, um quadrado de relva à frente, e aí está o sonho americano. Outros vivem em caravanas debotadas pelo sol, sem tom, empanturram-se de enlatados todo o santo dia e emborcam copos nos bares no virar da noite. A televisão, eternamente ligada, transmite por entre publicidade agressiva séries em que os heróis são sempre americanos. Os jovens, sem qualquer horizonte para lá deste quotidiano quase trágico, desesperam em escolas más, desinvestidas, onde picam o ponto da escolaridade, sem interesse, sem alma e sem chama.

Esta América sente-se como que num beco esquecido, abandonado, de paredes escalavradas a denunciar um desamparo que até dói.

E esta gente gosta de ti, Donald. Do Texas ao Ohio, passando pelo Alasca, Kansas, Montana e Mississípi, e outros tantos mais estados, estas gentes identificam-se contigo, porque tu falas como elas, partilhas dos seus valores, dizes a mesmas coisas. Conseguiste um mimetismo notável, prometendo, por entre grosserias de uma incivilidade e descompaixão que constrangem, o que sabias não poder cumprir.

És um D. Sebastião que lhes apareceu a cavalo, num campo de golfe, arma no coldre, laço descaído, e alma feita de plástico. Dourado.

Agora, tudo isso faz de ti um perfeito looser.

“Make America great again”, rugias. Na verdade, o que querias era transformá-la numa pocilga.

Nem eles sabem o que ganharam quando tu perdeste.

Sobre o/a autor(a)

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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