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Quem ganha e quem perde nas eleições dos Açores?

Num contexto complexo, com o aparecimento de novos partidos e com a chantagem do discurso do voto útil a ser utilizado repetidamente pelo PS para garantir a maioria absoluta, há um dado a relevar: o Bloco tem o melhor resultado de sempre na região.

Este artigo é escrito no dia seguinte às eleições. Ainda todas as possibilidades de formação de governo estão em aberto e as negociações acontecem tanto pelo PS como pelo PSD. Não entrarei em prognósticos, mas sim numa tentativa de análise da situação política atual dos Açores, vista enquanto militante formado na ilha Terceira mas há muitos anos no continente.

1. Num contexto complexo, com o aparecimento de novos partidos e com a chantagem do discurso do voto útil a ser utilizado repetidamente pelo Partido Socialista para garantir a maioria absoluta, há um dado a relevar: o Bloco tem o melhor resultado de sempre na região. Elege o António Lima e a Alexandra Manes, militantes de São Miguel e da Terceira cujo trabalho acaba de começar. Tanto em votos como em percentagem, o Bloco cresce e mostra que mesmo numa região conservadora e dominada pelo clientelismo dos pequenos caciques, é um partido que está de pés assentes na terra.

2. O Partido Socialista, por seu lado, perde a maioria absoluta ao fim de 24 anos no poder. Terá de negociar para garantir que continua a ser Governo e é o único culpado desse resultado. A aritmética ficou facilitada com algumas declarações de partidos na noite eleitoral, como a garantia de viabilização do Governo por parte do Bloco e do PAN.. Mas nem tudo são favas contadas. Será útil revermos como se chegou aqui.

3. Se Carlos César inaugurou anos que significaram o romper com a lógica dos governos de Mota Amaral - que perpetuaram em grande medida as políticas de miséria que vinham da ditadura - não foram sinónimo de avanço e progresso como o PS gosta de vender. Todos conhecem César. Toda a sua vida política na região pautou-se por colocar os seus generais um pouco por toda a administração pública regional, distribuindo cargos e benesses consoante os apoios políticos fossem garantidos. O conhecido caciquismo. Num frio taticismo típico de partido "catch-all", controlando a administração pública, as câmaras e as Juntas de Freguesia, os seus tentáculos mais facilmente garantiam as repetidas maiorias absolutas com a "rigorosa" distribuição de fundos europeus e nacionais para os lugares "certos". Esta lógica perpetuou-se ao longo dos governos de Vasco Cordeiro, mas já para além do PS. Não são poucos os militantes socialistas que foram se habituando a ver caciques do PSD em lugares de confiança da administração regional. O bloco central tomou conta do aparelho de estado regional mas ao fim de 24 anos, nem isso salva o PS.

4. Isto acontece na região mais pobre do país. 20 anos de governo do PSD e 24 anos de Governo do PS não conseguiram virar a página e introduzir um plano de desenvolvimento que rompesse com a pobreza e a desigualdade da região. Grande parte da população não estuda para além do ensino básico. A estrutura económica da região vacila entre os baixos salários do setor agrícola, o RSI (de 1 em cada 10 açorianos nos bairros sociais de onde dificilmente se sai), e o emprego público, sob as chefias do PS. Os Açores são sempre vendidos como um lindo destino turístico, arquipélago de incríveis paisagens verdejantes, mas tem uma economia débil, uma desigualdade gritante e uma elite que olha com desdém para quem quer fazer diferente.

5. Esta é, simultaneamente, uma das regiões mais conservadoras do país, onde em 2007, 70% da população votou "Não" no referendo do aborto. A força da Igreja e dos seus setores mais conservadores faz-se notar. A presença da religião na vida quotidiana continua a ter uma importância que já foi esquecida por muitos nas maiores cidades do país. Isto não será alheio ao facto de que, para além de São Miguel e da Terceira, grande parte das ilhas ter uma dimensão populacional pequena, funcionando como um microcosmos. Apesar da globalização e das novas tecnologias, as ilhas acabam por fechar-se sobre si próprias.

6. É natural a revolta com 44 anos de consenso mole entre PS e PSD que perpetuaram os Açores na cauda de todos os rankings. Neste contexto, o CDS sempre conseguiu capitalizar algum desse voto de protesto contra o bloco central. E nestas eleições, o CDS conseguiu um resultado que dará uma bóia de salvação por alguns meses ao jovem e contestado líder nacional do CDS.

7. Infelizmente, quem veio agora capitalizar o voto de protesto foi, por um lado, um partido neo-fascista (Chega) e um partido ultraliberal (IL). Na verdade, sejamos francos, ambos são ultraliberais, na medida em que ambos propõem a privatização do SNS e da Escola Pública. Sabemos que não querem responder aos anseios da população açoriana. Querem reforçar a luta ideológica da direita, resgatando velhas ideias de privatizar bens essenciais, condenar a diversidade e a luta dos trabalhadores, fazer alianças com o que de mais obscuro há na sociedade portuguesa. E no caso do Chega, resgatando também antigos candidatos e governantes do PSD, tal como já fez no Continente. É a velha política com roupa lavada.

8. Com o desaparecimento da CDU da Assembleia Regional, a perda da maioria absoluta e o reforço das várias direitas, o Bloco tem uma responsabilidade acrescida. O desafio dos próximos 4 anos nos Açores é a construção de uma alternativa real que se alicerce em dois pontos. Por um lado, na proposta de políticas públicas que sejam uma real alternativa ao marasmo dos últimos anos de maiorias absolutas do PS. Por outro lado, na construção de uma organização de base na maior parte das ilhas de forma que transporte a proposta e a mensagem da esquerda para todos os cantos do arquipélago. Será um passo decisivo para travar o crescimento da extrema-direita tanto nos Açores como no resto do país.

Sobre o/a autor(a)

Assessor no gabinete do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa.
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