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A Universidade entre a emergência da pandemia e os bufos cá da praça

O espírito crítico que compõem a missão universitária tem hoje duas grandes tarefas: não negar a evidência científica sobre a Covid19 e combater o discurso mesquinho da responsabilidade individual enquanto alfa & ómega do aumento do número de contagiados.

Aumenta o número de casos e, rapidamente, se aponta o dedo às gerações mais novas. Se os jantares de curso, convívios e festas não deviam ter existido? É um facto. Se os responsáveis pelas praxes deviam ter tido mais juízo? É tão evidente quanto difícil de acontecer, dado algum fanatismo típico destes grupos. Mas foquemo-nos no essencial sobre o atual estado da vida académica: continuamos a ter estudantes sentados nas escadas dos auditórios por falta de lugar. Assiste-se a problemas de falta de limpeza em algumas residências. A inexistência de espaços amplos dedicados ao estudo é uma realidade. Nos transportes públicos entre casa e a faculdade, são poucos aqueles que conseguem evitar viajar encostados a qualquer outro passageiro.

Sim, são os alunos quem, na esmagadora maioria das vezes, desinfeta, com o gel alcoólico que traz consigo, a carteira onde pousa o seu caderno. Não é preciso culpar nem os estudantes nem os funcionários, que estão em cada instituição a tentar encontrar soluções num curto espaço de tempo e, em muitos casos, sem os meios necessários, que o subfinanciamento não permite. O excesso de número de alunos por sala continua e a falta de docentes para continuar a desdobrar as turmas em turnos é um problema que só não foi resolvido porque não se quis.

Antes do início deste ano letivo, havia uma decisão a tomar e duas opções em cima da mesa: ou a ganância falava mais alto e se aproveitava o argumento das aulas online para não contratar mais docentes (quem dá um zoom para 20, dá para 40 ou 100) ou se tinha a coragem de assumir o óbvio: para desdobrar turmas, era necessário muito mais professores. Os responsáveis de cada Instituição e o Governo fizeram, cada um, a sua escolha.

Nas residências estudantis, a regra combinada entre a DGS e o Governo serve mais para esconder o problema da falta de alojamento do que a segurança dos alojados. No mesmo quarto, ditam os regulamentos, que basta distanciar as cabeceiras das camas dois metros que já pode ser quarto partilhado. Quem acreditar que é suficiente para combater o contágio do vírus num edifício onde se partilham cozinhas e casas de banho, que se acuse.

Até o Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup), preocupado com toda a comunidade académica, especialmente os que se encontram incluídos nos grupos de riscos, lançou um pré-aviso de greve para garantir a segurança a todos os docentes e investigadores que não viram essa prorrogativa afiançada pelo sistema.

Para garantirmos que não perdemos de vez o debate ideológico contra quem nos quer impor uma Academia tecnocrata e empresarial, precisamos de lutar para que todas as condições de segurança sejam asseguradas e, assim, não deixar nunca de assumir o caráter predominantemente presencial do que é ser parte desse todo. O espírito crítico que compõem a missão universitária tem hoje duas grandes tarefas: não negar a evidência científica sobre a Covid19 e combater o discurso mesquinho da responsabilidade individual enquanto alfa & ómega do aumento do número de contagiados.

Em jeito de conclusão: alinhar com o discurso reacionário sobre a irresponsabilidade das gerações mais novas só serve um propósito neste momento: alimentar uma agenda pidesca – que vai ganhar novamente força – que procura apontar responsabilidades ora individuais ora de grupos sociais específicos. A Universidade é, como sempre foi, espaço de encontro. É, mais do que um edifício, mais do que uma instituição legalmente certificada pelo poder público, uma Comunidade. E cumprirá melhor o seu papel social quanto mais se comportar como uma Comunidade de Iguais. Também é uma praça, mas não a dos bufos. Só pode ser o fórum das ideias.

Sobre o/a autor(a)

Museólogo. Deputado e membro da Comissão Política do Bloco de Esquerda.
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