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Mistérios caseiros

Portugal conseguiu um resultado impressionante: somos o quinto país europeu no que toca a subida dos preços do imobiliário durante a pandemia. Este resultado paradoxal encerra vários riscos poderosos.

Portugal conseguiu um resultado impressionante: somos o quinto país europeu no que toca a subida dos preços do imobiliário durante a pandemia. Se, no conjunto das economias mais desenvolvidas, os preços aumentaram, em média, 5%, em Portugal essa variação foi de 7,8% no segundo trimestre, em comparação com período homólogo no ano anterior. Isto não tinha acontecido a nível mundial na grande crise anterior, a de 2008-2009, em que os preços da habitação se reduziram em 10% como resultado da falência de famílias e da venda das suas casas.

A continuação do boom imobiliário em Portugal ajuda a explicar a surpresa dos analistas quando verificaram que o sector da construção tem crescido. No entanto, este resultado paradoxal encerra vários riscos poderosos. Começo pela explicação do sucesso. Os preços do imobiliário sobem porque a taxa de juro é muito baixa (nos EUA, para empréstimos a 30 anos, desceu de 3,7% no início do ano para 2,9% agora) e isso aumenta o valor de mercado da propriedade, além de diminuir a rentabilidade de aplicações financeiras alternativas; sobem porque a crise social só atinge, para já, os trabalhadores mal pagos e a procura de habitação continua forte para quem tem dinheiro, havendo muita liquidez. O problema é que esta bolha tem consequências pesadas. A mais grave é que preços altos continuam a empurrar os jovens para as periferias, rompendo a malha intergeracional das cidades e acumulando barris de pólvora em subúrbios sofridos e marginalizados. Uma cidade em que o centro é para quem tem fortuna e para os turistas será um burgo cercado. Além disso, outro efeito deste deslumbramento com o mercado é perder a oportunidade de reverter o alojamento local para arrendamento de longa duração, restabelecendo a vida nos bairros. O facto simples é este: ou é agora que se trazem pessoas para as cidades ou não será nunca. A satisfação com esta subida dos preços faz adivinhar que não se passará nada de novo.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 10 de outubro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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