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Mais 50% de desemprego em Lisboa obriga-nos a pensar

Precisamos de um tecido produtivo mais complexo, que não aposte apenas numa atividade económica, e temos de ser rápidos, pois o turismo não voltará tão cedo.

De acordo dados do IEFP, o desemprego em Lisboa no mês de agosto aumentou 48,1% face ao ano passado. É um infeliz recorde, só ultrapassado pelo Algarve, que viu o desemprego desse mês subir 177,9% face ao mesmo mês de 2019. Estes valores são explicados pela pandemia, sim, mas estas duas regiões são mais afetadas porque se apostou apenas numa atividade económica: o turismo.

É precisamente na área do alojamento, restauração e similares que se regista a maior subida de desemprego: 88,4%, quando comparado com o agosto de 2019, sendo que as novas ofertas de emprego nessa atividade económica desceram perto de 7%.

Na cidade de Lisboa havia quase 150 mil pessoas a viver do turismo, uma indústria que representava 10 mil milhões de euros. Pessoas que trabalhavam na restauração, no alojamento local, nos tuk-tuk, trabalhos na maior parte das vezes precários e que desapareceram logo nos primeiros dias de pandemia. Muitas destas pessoas trabalhavam como falsos recibos verdes ou mesmo sem contrato, tinham salários baixos, viviam no sistema ‘chapa-ganha-chapa-gasta’ e perderam o seu trabalho de um momento para o outro.

Muitas destas pessoas ficaram sem nada, muitas procuraram o apoio da Câmara Municipal de Lisboa nos centros de emergência para as pessoas em situação de sem-abrigo, porque ficaram sem teto nos primeiros momentos da crise sanitária.

Estas pessoas não podem ser deixadas para trás. Precisamos imediatamente de um Rendimento Social de Cidadania que apoie quem perdeu o rendimento e não tem acesso ao subsídio de desemprego, porque a precariedade em que vivia não lhe permite aceder aos apoios sociais. Estas pessoas têm de ser retiradas da pobreza por esta medida social, absolutamente essencial, e que está a ser negociada no âmbito do Orçamento do Estado para 2021 entre o Bloco de Esquerda e o PS. Sem essa medida veremos o número de sem-abrigo aumentar, veremos a pobreza crescer, veremos o desemprego e a crise social galopar.

E se neste momento o desemprego na área do turismo é enorme, precisamos muito de apoios às profissões sociais, como o apoio aos idosos ou às crianças. Essa transição profissional para o setor social deve ser apoiada, porque precisamos de milhares de pessoas a trabalhar nos lares ou nas escolas, mais ainda na resposta à Covid-19.

Por último, é preciso alterar a estrutura produtiva em Lisboa. Fernando Medina, que há poucos anos dizia que não sabia o que era “turismo a mais”, já teve de reconhecer que as zonas da cidade menos dependentes do turismo estão a recuperar mais depressa. Precisamos de um tecido produtivo mais complexo, que não aposte apenas numa atividade económica, e temos de o fazer em ritmo acelerado, visto que o turismo não voltará tão cedo.

Artigo publicado em Jornal Económico a 5 de outubro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
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