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O birrento e a amiga bastonária

O líder fanfarrão teve um fim de semana de humilhação, um flop nas ruas e no congresso partidário. Só o beijo da amiga lhe aqueceu o coração.

A Convenção Nacional do Chega foi um fartote, ópera bufa de fim de semana inteiro. André Ventura anunciou uma enorme manifestação para Évora, desfile apoteótico para entrada no congresso do partido que se juntava na cidade alentejana. A promessa não era corriqueira, seria a “maior marcha alguma vez vista”, mas isto do tamanho tem muito que se lhe diga como a realidade demonstrou. Ventura e o seu parco séquito foram suplantados por uma multidão que se juntou para cantar a Grândola Vila Morena. A liberdade estava a passar por ali e o líder do Chega saiu como entrou: de fininho.

O nosso povo é sábio sobre os prenúncios de um mau início e disso o Chega não se conseguiu livrar. O dia de sábado não terminou sem que a GNR fosse obrigada a intervir para garantir mínimos de saúde pública. Ventura exigiu para outros o que não cumpriu - o uso de máscaras e o distanciamento físico pareciam indicados por Donald Trump ou Jair Bolsonaro. Os circuitos de entrada e saída, essenciais para ordenar o fluxo das pessoas e evitar ajuntamentos na sala, se alguma vez foram definidos, estavam na clandestinidade - ninguém os conhecia. A intervenção policial mostra a sobranceria que imperava no congresso e dá conta da irresponsabilidade geral.

A qualidade do debate político pode medir-se pela bitola das moções apresentadas a votação. Deixando de lado a crítica gramatical - que levaria ao desespero qualquer professor de português - o conteúdo é tão educativo sobre o Chega que foi o próprio partido quem tratou de esconder estas pérolas, houve um apagão e já nada se encontra disponível para consulta. É assim o partido que tem vergonha dos seus militantes.

No entanto, o apagão das moções não foi a tempo de impedir a divulgação de uma das moções estratégicas à qual vale a pena ter atenção. Um dos militantes apresentou uma moção onde propunha retirar os ovários às mulheres que abortassem nos hospitais públicos. Esta boçalidade, contrária a valores fundamentais defendidos por muitíssimas pessoas de direita, teve a votação favorável de 15% dos militantes. O sonho desses congressistas não é muito diferente do que vimos em regimes totalitários, não podemos mesmo baixar a guarda.

Estava o congresso do Chega a decorrer nesta toada de afronta a direitos fundamentais das mulheres e no desrespeito pelas normas de saúde pública e eis que Ana Rita Cavaco, bastonária da Ordem dos Enfermeiros, aparece para “dar um beijo de amiga” a André Ventura. Já sei, já sei, uma coisa é a “amiga” outra a “bastonária”, já ouvi essa conversa vazia. Contudo, percebo porque muitos milhares de enfermeiros ficaram indignados com essa presença. Eles sabem o que defende o Chega: o “alargamento do horário semanal dos profissionais de saúde das 35 para as 40 horas semanais” e a promoção da “gestão privada dos hospitais públicos”. Imagino, ainda, que partilhem a opinião de um médico francês que há dias desabafava: “o que nos cansa é uma segunda vaga porque as pessoas não respeitam o distanciamento”. Ana Rita Cavaco mostrou desprezo por todos esses profissionais.

E se acha que tudo isto não é suficiente para um fim de semana em grande, espere pelo final dramático. André Ventura tinha sido eleito presidente do partido numa votação coreana realizada 15 dias antes. A convenção partidária ia votar a lista da direção, apresentada por André Ventura e que propunha ex neonazis para cargos nacionais, e a única lista existente. Mesmo assim, foi chumbada - enorme ingratidão. Escreveu Mário de Carvalho que “Passada a festa, esqueceu-se o santo!” e Ventura sentiu nas costas essa facada. Foi o fim da democracia e o início da birra. Levou novamente a lista a votação, para um resultado semelhante. Estava a descambar a situação e, frase batida, ameaçou a demissão se não fosse aprovada a lista, com a lágrima no canto do olho. À terceira foi de vez, com um número sempre em queda dos presentes na sala - e se não fosse à terceira, seria à quarta ou à quinta vez, que a democracia é só uma formalidade.

O líder fanfarrão teve um fim de semana de humilhação, um flop nas ruas e no congresso partidário. Só o beijo da amiga lhe aqueceu o coração.

Artigo publicado no jornal “Público” a 25 de setembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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