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Fantasia e realidade nas eleições presidenciais

A eleição é importante não por decidir o que está decidido, o Presidente do próximo mandato, mas antes por ajudar a situar os braços de ferro que hão de fazer a vida social.

Talvez mais do que qualquer outra, a eleição presidencial é terreno propício ao surgimento de candidaturas circunstanciais (em 2011, Coelho teve 190 mil votos; em 2016, Tino ficou só a 30 mil votos do candidato do PCP), ao erro das sondagens (em 2016, antecipavam 18% para Maria de Belém e 1,9% para Marisa, quando o resultado final foi 4,2% e 10,1%) e ainda a estratégias avulsas. Nada disso sobra quando passa o tempo, implacável como é. Por isso, antes de serem apresentadas candidaturas que contam, supondo que o serão proximamente e ficando para novembro a certeza da recandidatura de Marcelo, sugiro algumas reflexões.

A primeira é a mais óbvia: que esta eleição disputa ideias para Portugal, mas não o resultado final. É conveniente que se tirem as conclusões desta evidência: fingir que há uma incerteza dramática será o mais deficiente dos incentivos eleitorais. A eleição é importante não por decidir o que está decidido, o Presidente do próximo mandato, mas antes por ajudar a situar os braços de ferro que hão de fazer a vida social. Melhor será levar a sério o que a eleição representa mesmo, uma forma de olhar as dificuldades estruturais de um país com défice de liderança social, com uma economia atravessada por dependências e amarrado a um estado insuficiente nos cuidados essenciais, ineficaz na sua gestão e vulnerável aos interesses corruptores. Por isso o que importa é o que as candidaturas respondem à crise económica, ao futuro das políticas sociais e de como a nossa democracia representará os excluídos, ao liberalismo agressivo que dita regras europeias, à ‘trumpização’ da política.

A segunda é a mais pesada: que não há uma candidatura unificadora da esquerda. Não há um Jorge Sampaio. E o povo não o exige. Todos sabemos que Marcelo ganhará e, com ele, a ideia de um Presidente de direita que coopera com Costa. É por isso que os votos dos eleitores do PS parecem ser-lhe tão fiéis. Desmontando a conflitualidade cavaquista, o atual Presidente ocupou esse espaço sem ser contrariado. No desgaste que o prolongamento da crise social impõe, está mais resguardado do que o Executivo, que por isso tem vantagem em manter a parceria. Neste contexto, pretender que o que está em causa é a exigência de uma “unidade da esquerda” soa a montagem artificiosa: não existe personalidade que a una, a massa dos eleitores de esquerda não vê a que caso ela responderia, e pedir a Costa que apresente candidatura é ficção, bem como pedir ao PCP ou ao Bloco que desistam é chantagem. Todas as candidaturas de esquerda serão tribunícias, como agora se diz; nenhuma será tocada pelos anjos, e melhor seria que não se sobrepusessem.

A terceira é que há uma disputa à direita e, se esta é uma oportunidade conveniente para Ventura, não será uma esquerda que imite os seus temas que o atrapalhará. Essa candidatura, se existisse, seria de duvidoso resultado. Suponho até que não gostaríamos de assistir a tal espetáculo. Este é um confronto à direita, e é mesmo Marcelo quem o enfrenta, pela simples razão de que o eleitor radicalizado pelo ressentimento contra os ciganos poderá ser sensível a alternativas institucionais mas não responde à recusa dos termos do ódio. A esquerda não precisa de campeões de bate-boca, precisa de saber onde está o seu alvo, que é garantir segurança e proteção aos aflitos da crise. Por isso a fantasia seria desviar a atenção: para definir respostas consistentes para a gente, o medo do desemprego é mais importante do que os fogos de artifício dos venturistas. Mesmo nas presidenciais.

Artigo publicado no semanário Expresso a 5 de setembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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