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A minha história com Amália

Há pessoas que reconhecem a Amália pelo papel que ela teve na representação de Portugal. Para mim, a questão prende-se com o que é que ela fez ao fado, e o que é que o fado representa para Portugal.

A primeira memória que tenho da Amália é a de ouvir uma cassete — ouvida e reouvida, nem sei como é que aquela cassete sobreviveu —, nas viagens de carro com os meus pais. Lembro-me que a nossa música preferida era “O Namorico da Rita”. A gente achava um piadão àquilo. Fazíamos sempre viagens muito longas e aquele era um dos hits.

Depois houve um hiato, entrei na adolescência e comecei a ouvir outras coisas. Nunca fui a uma casa de fados até ter quase 30 anos. Não sabia que gostava. Sabia que tinha uma memória de criança, de achar piada a algumas músicas. Embora a minha família sempre tivesse gostado de fado, e eu tivesse sempre tendência para me escapulir para os discos do meu avô para ouvir umas coisas de fado, não havia esse hábito.

Já em adulta, fui uma vez, por uma ocasião de celebração, ao Senhor Vinho, onde conheci um grande amigo meu, o Duarte, que é fadista. Ficámos muito amigos, e eu relembrei-me que gostava daquilo. A partir daí, nunca mais saí das casas de fado. A Amália era por isso uma inevitabilidade. Todos os fadistas, em algum momento, falam sobre ela. Toda a gente tem coisas para dizer sobre ela, toda a gente tem histórias. Algumas reais, outras inventadas... Isso acontece sempre. Portanto, tornou-se uma presença contínua.

Amália aconteceu-nos

Joana Mortágua

No outro dia, ouvi o David Ferreira falar sobre o que é que ela representava para o país, se ela representava o país. E ele dizia que a Amália era muito virada para dentro, representava-se sobretudo a si própria, às suas inquietudes, à sua maneira de ver o mundo e de se ver a si própria. É uma coisa que eu ainda tenho de estudar. Há pessoas que têm memórias da Amália enquanto a "diva" de Portugal, o símbolo de Portugal, o símbolo de Portugal no mundo. Há pessoas que reconhecem a Amália pelo papel que ela teve na representação de Portugal. Para mim, a questão prende-se com o que é que ela fez ao fado, e o que é que o fado representa para Portugal.

A Amália tem uma frase em que diz que o Zeca Afonso é o dia e ela é a noite. O Zeca era, obviamente, um génio. E o século XX foi partilhado entre dois génios absolutamente extraordinários. É uma sorte tremenda uma geração poder conviver com um génio como a Amália, e eu acho que as pessoas não têm noção disso. Veem-na como "diva", uma versão muito simplificada, muito unidimensional da Amália. Provavelmente, é a história que nos quiseram contar sobre ela. As pessoas não têm noção de como ela, além de ser, enquanto artista, muito complexa (e isto não é uma coisa assim tão fácil de entender), transformou não só o fado mas, de certa maneira, a cultura portuguesa.

Fez encontros que ninguém achava que eram possíveis. O encontro do fado, que é uma música popular, bairrista, que foi durante muitos anos vista como insubmissa, mal vista pelo poder político, pelas elites... A maneira como a Amália junta aquilo com os grandes autores, com os grandes poetas, e quebra todos os cânones, sejam políticos ou musicais, e continuamos a chamar àquilo, ainda hoje, fado... Acho que isso é de génio, não é?

Texto publicado por Rita Sousa Vieira em 24.sapo.pt, no centésimo aniversário do nascimento de Amália Rodrigues, integrado num conjunto de depoimentos.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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