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Os erros do desconfinamento

Os passos atrás que o Governo anunciou agora mostram a dificuldade de responder à situação. Precisamos de um Governo que não falhe neste momento fundamental.

As imagens dos transportes na zona de Lisboa não deixam margens para equívocos: comboios, metro e autocarros lotados, apinhados de gente. É a essa triste realidade que condenamos os heróis que não deixaram o país parar quando o confinamento se abateu sobre nós. Basta ver as condições destes transportes entre as 6h e as 8h da manhã ou entre as 18h e as 20h, os períodos em que são usados por milhares de trabalhadores, e começam a surgir as explicações para os números da pandemia na grande Lisboa.

Somam-se as dificuldades das vidas a quem o salário não compensa o trabalho fundamental que fazem para o país, que se traduzem em condições difíceis nas habitações, muitas vezes sobrelotadas. Nestas duas situações, transportes e habitação, baseia-se uma explicação bastante consistente para a realidade que se vive em que os números teimam em não baixar. Poderia ser diferente? Eu creio que sim e explico porquê.

Como se explica que, apesar dos transportes rodoviários estarem apinhados de gente, os operadores privados tenham uma parte considerável dos motoristas em layoff?

Começo por dizer que não há “descontrolo da epidemia a nível nacional e na região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT)”, como afirmou o Presidente da República. Com os dados atualmente conhecidos concordo com a análise. O objetivo de achatar a curva foi conseguido e não há indicadores que digam voltou a estar em risco. O número de pessoas internadas, tal como as que exigem cuidados mais intensivos, está dentro da capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde e continuamos bem longe das imagens dantescas que nos chegaram (e ainda chegam) de outros países. Mas, mesmo assim, há coisas que deveriam ter sido feitas para que os números pudessem ser mais baixos.

Creio que é exatamente por isso que se começa a instalar algum desnorte na ação do Governo. O desconfinamento foi somando equívocos com o passar dos dias. Primeiro foi a ordem de saída, repetida à exaustão, agora é a ordem para recolhimento sem a conveniente e devida explicação, pelo meio tentou-se desviar as atenções dos pecados próprios para uma suposta irresponsabilidade dos jovens. É preciso acertar o passo e rapidamente.

Devo dizer que estou de acordo com as mensagens para que as pessoas regressassem à economia. Apesar dos exageros na encenação dos vários almoços e jantares, a ideia essencial estava e está correta. O mesmo se passa quando o primeiro-ministro foi a espetáculos culturais: são sinais importantes que ajudam a recuperar a confiança. Mas, pelo meio, era preciso ter feito todos os trabalhos de casa e isso tarda a ser cumprido.

Os trabalhadores dos setores que agora estão a ser testados abundantemente, de atividades como a construção civil, a limpeza e muitos trabalhadores precários, nunca pararam, nunca confinaram, trabalharam sempre durante o confinamento e o desconfinamento. Foram fundamentais para o país ganhar tempo para fazer as adaptações necessárias, para o SNS se ajustar, para a indústria se reformular, para que os equipamentos de proteção individuais se tornassem abundantes. Mas, nesse tempo que ganharam para nós foi tempo que o Governo perdeu, como agora se está a concluir. O que foi feito para responder à sobrelotação dos transportes ou às débeis condições habitacionais?

Os passos atrás que o Governo anunciou agora mostram a dificuldade de responder à situação. Exemplo: pede um dever cívico de recolhimento a uma população que nunca pôde parar e que precisa de se deslocar de concelho para trabalhar. Outro exemplo: limita os ajuntamentos a mais de cinco pessoas, mas mantém o problema dos transportes públicos apinhados, onde dezenas de pessoas se amontoam. Roça o ridículo, não acha?

O primeiro-ministro, cujas medidas apontam o dedo à forma como as pessoas organizam a sua vida social, mostra-se forte apenas para algumas coisas mas não para as que devia. Como se explica que, apesar dos transportes rodoviários estarem apinhados de gente, os operadores privados tenham uma parte considerável dos motoristas em layoff? Mais carreiras seria menos gente apinhada e isso o Governo podia e devia ter feito já há semanas. A criação de alternativas aos transporte ferroviário na linha de Sintra nunca aconteceu. E o levantamento das carências habitacionais, já foi feito? Também não. Mais do que culpados para as falhas do Governo, precisamos de um Governo que não falhe neste momento fundamental.

Artigo publicado no jornal “Público” a 26 de junho de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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