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Dizem que a Champions é uma espécie de prémio ao SNS?

A cereja no topo do bolo da “falta de noção” é a engenharia financeira que o Governo inventou para “reforçar” as verbas para o SNS neste Orçamento Suplementar.

O anúncio foi feito com pompa e circunstância, reunindo as três principais figuras do Estado. O motivo de satisfação era a escolha de Lisboa para a realização da Final Eight da Liga dos Campeões, notícia longe de irrelevante num momento em que o turismo de cidade vive momentos cataclísmicos. Tudo certo? Nem por isso, um dos cicerones acabou por arruinar o momento com uma frase catastrófica.

António Costa mostrou-se ainda mais otimista do que o habitual, exultante. Pelo meio fez uma afirmação desconcertante: a Champions em Portugal é um “prémio merecido aos profissionais de saúde”. Enquanto o governo francês pagou 1500€ de bónus aos profissionais de saúde que estiveram na linha da frente da resposta à covid-19 ou a Alemanha decidiu aumentar a remuneração destes profissionais, o primeiro-ministro português passa das palmadinhas nas costas para uma desconcertante metáfora futebolística. Será que a pandemia afetou o sentido do ridículo?

Enquanto o governo francês pagou 1500€ de bónus aos profissionais de saúde ou a Alemanha decidiu aumentar a remuneração destes profissionais, o primeiro-ministro português passa das palmadinhas nas costas para uma desconcertante metáfora futebolística

O reconhecimento popular pelo esforço dos profissionais de saúde é meritório. As palmas que o país bateu à janela são absolutamente justas, as demonstrações de apreço e reconhecimento ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) não têm nenhum excesso, bem pelo contrário. Quando comparamos a resposta dada pelo SNS no período pandémico com o que aconteceu em muitos outros países sabemos da sua valia, como é imprescindível e insubstituível. Mas, como todos sabemos, não é com salvas de palmas ou pancadinhas nas costas que se pagam as contas no final do mês, não serve para trocar por comida na mercearia nem consta que seja nome de algum vale de desconto. Elogios? E que tal começar pela folha de vencimento?

Esperava-se de um primeiro-ministro algo mais do que um duvidoso discurso motivacional. Em quanto é que a Champions aumenta os salários destes profissionais? Ainda por cima, estas afirmações foram feitas no mesmo dia em que o Governo discutiu na Assembleia da República o Orçamento Suplementar onde não havia nenhum suplemento remuneratório para os profissionais de saúde que estão na linha da frente, nenhum subsídio de risco, nada. Incompreensível. No dia de se passar das palavras aos atos, o Governo reforçou as palavras para poupar nos atos. E ficou à vista uma das insuficiências da proposta apresentada pelo executivo liderado por António Costa.

A proposta da criação de um subsídio de risco para os profissionais de saúde é uma das prioridades que o Bloco de Esquerda já apresentou para melhorar o Orçamento Suplementar. Esse sim, é um prémio absolutamente merecido para profissionais que têm inerentemente um risco acrescido nas suas funções neste período pandémico, face a uma doença que ainda tem muito de desconhecido. O risco é comprovado pelos números havendo mais de 3.000 profissionais de saúde infetados e doentes e muitos outros em quarentena ou isolamento profilático por terem sido expostos a situações de maior risco. Se há mesmo vontade em premiar os profissionais de saúde, aqui está uma boa forma de o fazer, mas não é a única.

A proposta da criação de um subsídio de risco para os profissionais de saúde é uma das prioridades que o Bloco de Esquerda já apresentou para melhorar o Orçamento Suplementar. Esse sim, é um prémio absolutamente merecido para profissionais que têm inerentemente um risco acrescido

A conversa sobre sermos os melhores teima em ficar sempre longe das folhas de vencimento. Aí, a alegria pelos feitos mais extraordinários leva rapidamente um banho de água fria, um choque térmico com a triste realidade. Por isso, temos muitos profissionais de saúde a emigrar, um descontentamento latente na classe e inúmeros protestos pelas carreiras ou a falta delas.

No entanto, a cereja no topo do bolo da “falta de noção”, é a engenharia financeira que o Governo inventou para “reforçar” as verbas para o SNS neste Orçamento Suplementar. Fizeram uma limpeza de 159 milhões de euros aos saldos de gerência do INEM, Infarmed, Direção-Geral de Saúde e da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), implementando a conhecida política orçamental que tira de um bolso e põe no outro, afirmando que o SNS fica com mais dinheiro disponível. O “reforço” vem do dinheiro que já lá estava. Mais um prémio de António Costa? Há prémios que roçam o insulto.

Artigo publicado no jornal Público em 19 de junho de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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