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As estátuas, os media e o racismo

Estamos a assistir a um momento histórico único a uma escala global após o homicídio gravado de agentes policiais nos EUA a mais um afro-americano, George Floyd.
Semeia as sementes da justiça - fotografia Pedro Schacht (integrada no Nr 1 da Revista Mural Sonoro, no prelo

A narrativa que os meios de comunicação e difusão de massas querem pespegar é de que as acções na rua das últimas semanas são promovidas por uma “extrema-esquerda” organizada. É esta mesma retórica conveniente às direitas radicais que por estes dias saem, novamente, do armário.

Esta prosa corriqueira vem lado a lado com o negacionismo, a ideia de que “Portugal não é um país racista, tem é pessoas que são racistas”. Um discurso que todos já ouviram e se resume ou traduz na descredibilização, infantilização, secundarização das organizações anti-racistas, de estudos e de movimentos negros cada vez mais conscientes sobre formas de actuação perante a percepção cristalizada do poder. Foi de novo este discurso que fez correr tinta nos media generalistas com alcance tendo como pano de fundo um cartaz (lamentável) numa manifestação onde se lia “polícia bom é polícia morto”.

Esta prosa corriqueira vem lado a lado com o negacionismo, a ideia de que “Portugal não é um país racista, tem é pessoas que são racistas”

Para quem esteve nas manifestações em Aveiro, Coimbra, Porto, Lisboa, tratou-se de uma manifestação pacífica, a maior de que há memória neste século, ninguém terá visto tal cartaz, para as massas a discussão sobre o que motivou a manifestação, séculos de história do maior herdeiro do colonialismo europeu (o racismo estrutural, por conseguinte, institucional), ficou estrangulada pelo cartaz de um adolescente.

A análise às dicotomias: percepção, acção; percepção, reacção está longe de se esgotar. Os mesmos que continuam a afirmar com descomedimento “não acham que estão a exagerar?” [dirigido às manifestações anti-racistas no rescaldo da morte de Alcindo Monteiro às mãos de grupos de direita nacionalista radicais e que levaria a uma resposta pública de José Falcão, fundador do SOS Racismo]” (Pacheco Pereira in Expresso 1995) ou “Portugal não é racista” (Rui Rio, TVI Junho 2020) ainda estão em negação.Rui Rio, vamos acreditar que por defeito de formação, talvez precisasse de números concretos (os mesmos que foram formalmente pedidos a 3 de Abril de 2019 pelo Grupo de Trabalho Censos 2021 - Questões Étnico-Raciais que iniciou os seus trabalhos a 5 de Fevereiro de 2018 como davam nota no jornal Público em Abril do ano passado as investigadoras Cristina Roldão e Marta Araújo e o actual dirigente do SOS Racismo Mamadou Ba), Pacheco Pereira (historiador cuja escrita, em muitas matérias, me habituei a acompanhar) precisa de ler mais os seus pares, oriundos de distintas áreas disciplinares, apesar do seu reconhecido percurso académico são, nitidamente, matérias que não domina. Como até aqui o pensamento tem sido ocupado por homens, deixo-lhe alguns nomes no feminino: Cristina Roldão, Inocência Mata, Lúcia Furtado, Grada Kilomba ou Raquel Lima são algumas que, de modos diversos, têm reflectido sobre marcas que permanecem do colonialismo europeu: sendo o racismo institucional a mais gritante.

As acções e as reacções são motivadas por percepções. Será difícil, com certeza, a quem não se procura informar sobre os temas em causa, “calçar sapatos alheios”, ficando o discurso na órbita dos “achismos” movidos a privilégio. É de facto um privilégio ser branco. Há de facto alturas em que é preciso ser-se anti-racista, não basta declarar que não se é racista.

É de facto um privilégio ser branco. Há alturas em que é preciso ser-se anti-racista, não basta declarar que não se é racista

Bem sabemos que “ver um determinado filme ou ouvir uma determinada canção com conteúdo racista não nos tornará racistas”, como se tem repetido, mas também sabemos que esta retórica é maioritariamente produzida por brancos e brancas que têm o privilégio de não estar na mira, durante séculos, da opressão e da violência sobre o seu corpo que essas propostas podem traduzir. A violência sobre corpos negros manifesta-se das mais variadas formas e nos locais mais inusitados: cara a cara, na escola, por via do humor, da sátira, no local de trabalho, na disciplina de história, nas classificações académicas, na procura de casa, etc.

Derrubar uma estátua não tem o mesmo peso simbólico que ouvir uma canção, assistir a um filme ou a uma performance. Erigir uma estátua no centro de uma cidade, no seio de uma comunidade que nela habita, significa glorificar a presença daquela figura na nossa História.

A nossa percepção pode turvar, tolher, se não formos parte de quem se sente violentado, ofendido, ou simplesmente se não houver a empatia necessária para compreender o que tal glorificação assim materializada num espaço físico, que é também o de quem é secundarizado e violentado sistematicamente das mais diversas formas, significa.

No dia 10 de Junho, numa conversa moderada por Angella Graça, na qual participaram Cristina Roldão, Lúcia Furtado e Raquel Lima (aconselho-a, está no FB do INMUNE - Instituto da Mulher Negra em Portugal), ouvi que é necessária uma outra ontologia.

Acredito que este é de facto um momento histórico para o movimento negro também em Portugal, do seu lugar de fala. Mas, isso tem que implicar ao resto da comunidade, não negra, novas práticas: um lugar de escuta, que evitará que quem integra estes movimentos esteja sempre no início a explicar o elementar sequioso de avançar. As comunidades racializadas, que resistem ao longo de muitas gerações, estão já hoje comprometidas em movimentos negros anti-racistas com características distintas entre si, posicionam-se muito além da sua experiência quotidiana: com conhecimento historiográfico sólido, munidas de fontes, arquivos, biografias e bibliografias, no universo das práticas artísticas, por exemplo, usando novos dispositivos de criação e reflexão, fortificadas com noções muito claras e fundamentadas sobre hegemonias e as suas escalas, posicionamento radical vs apropriação e instrumentalização dos seus corpos.

Acredito que este é de facto um momento histórico para o movimento negro também em Portugal, do seu lugar de fala. Mas, isso tem que implicar ao resto da comunidade, não negra, novas práticas

Quanto às estátuas e à sua importância muitos despautérios teremos de continuar a ouvir, tal como no resto do mundo. Afinal, a falta de noção, a apropriação e a instrumentalização são, como a pandemia e o racismo, planetários.

Há dias alguém na CNN comparava o regime comunista ao nazismo.

De resto, os governos dos países democráticos até apreciam ditadores desde que sejam de direita, Hitler e Mussolini não foram excepção.

Ao longo da história foram governos designados de democráticos que apoiaram ditaduras que defendiam os seus interesses. Na América Latina, África, Ásia, Europa. Derrubaram inclusivé governos como o do Chile. Dirigentes europeus não esconderam simpatia com Hitler, repugnava-lhes negociar com Estaline, o que beneficiou a Alemanha nazi.

O regime do apartheid na África do Sul foi apoiado pelo Ocidente até como pretexto da luta contra o comunismo, Cavaco Silva é disso exemplo

O regime do apartheid na África do Sul foi apoiado pelo Ocidente até como pretexto da luta contra o comunismo, Cavaco Silva é disso exemplo. O regime minoritário branco da Rodésia usava armamento para lutar contra as guerrilhas da ZAPU e da ZANU, fazendo para isso incursões em Moçambique de modo a auxiliar o exército português contra a FRELIMO. Como fez incursões contra campos de refugiados em Moçambique independente, o que levou Margaret Thatcher a classificar a guerrilha da ZANU e da ZAPU de terroristas.

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