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Centeno não tem um plano, ou não quer dizer

Mário Centeno tem razão ao afirmar que a resolução do Novo Banco foi "um sucesso". Só se esqueceu de dizer que o sucesso é da Lone Star.

Mário Centeno tem razão ao afirmar que a resolução do Novo Banco foi "um sucesso". Só se esqueceu de dizer que o sucesso é da Lone Star. Os contribuintes continuam a pagar a garantia que o Estado pôs nas mãos de um fundo abutre. O descaramento tem limites. Para além desta afirmação quase provocatória, Centeno diz que "houve falha de comunicação, não houve falha financeira" na transferência feita antes do resultado da auditoria, ao contrário do que garantiu António Costa. E até dá um subtil puxão de orelhas ao Primeiro-Ministro dizendo que "o PM entendeu que devia fazer um pedido de desculpas ao Bloco de Esquerda".

Quando as falhas de comunicação são tantas, é impossível afastar a sensação de que a verdadeira falha é de política

Ficamos a saber que Centeno acha que dar informações erradas à Assembleia da República não é razão para pedidos de desculpa. Ficamos a saber que as auditorias vão servir essencialmente para os historiadores. E até ficamos a saber que a coisa está a aquecer entre PM e MF. Mas sobretudo ficamos com a impressão de que este modelo é para repetir... Porque ninguém pode falar do Novo Banco sem dizer o que fará para evitar situações análogas no futuro e o que fará se as mesmas se verificarem, sob pena de estar a defender mais do mesmo no futuro. Duas sugestões a esse respeito:

1. Impor a capitalização acima dos mínimos regulatórios, que são grosseiramente insuficientes.

2. Pôr na lei que qualquer injeção de capital será refletida na propriedade de qualquer instituição e será permanente. Ou seja, sempre que os contribuintes tiverem de pagar a limpeza de um banco privado (e é demagógico dizer que é só deixá-lo cair), será para ficarem com ele.

Centeno disse ainda que não vê necessidade em nacionalizar a TAP. Ou seja, para o Ministro das Finanças, o Novo Banco é o paradigma a seguir. Se a TAP tiver de ser recapitalizada (e terá) e o privados não meterem um cêntimo (e não meterão) vamos pagar para manter uma empresa nas mãos da atual administração.

"Neste momento, estamos a fazer o contrário da austeridade", disse ainda. Uma ideia duplamente preocupante, em primeiro lugar porque aparentemente Mário Centeno pensa que uma reposição muito parcial de rendimento e níveis historicamente baixos de investimento público são "o contrário da austeridade" e, em segundo, porque afirmou que "o que aí vier vai depender muito do caráter mais ou menos temporário desta recessão". Ficamos mais uma vez no domínio da falha de comunicação. E sem saber se este Ministro das Finanças percebe que o tal "caráter desta recessão" depende exactamente e em boa medida de se fazer "o contrário da austeridade". Um compromisso claro comunicava melhor... Mas comunicar claramente compromete.

Num momento como o que vivemos, o Ministro das Finanças teve oportunidade de falar ao país e esclarecer várias questões ao longo de uma hora. Mas escolheu a constante e intencional "falha de comunicação", entre risinhos e manobras de linguagem, recusando assumir qualquer compromisso e denunciar qualquer plano para o futuro. Quando as falhas de comunicação são tantas, é impossível afastar a sensação de que a verdadeira falha é de política. O que esta entrevista mostra é que Centeno ou não tem um plano ou não quer dizer qual é. E ter um plano numa recessão costuma ser importante. Bem como, no mínimo, informar o país sobre ele. Assumir e manter alguns compromissos talvez já seja pedir demasiado.

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputado e economista.
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