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Mulher musical: imagens e representações, breve opinião

As mulheres na Música Popular, sendo elas negras/afrodescendentes, pobres/ricas, velhas/ jovens, trazem não só experiências de vidas diferentes como as suas práticas musicais produzem significados distintos para cada uma delas.

Há em várias disciplinas das ciências sociais um fosso notório entre investigações de natureza/inspiração feministas que estabeleçam uma relação dos repertórios de luta das mulheres na música popular com as suas representações nas indústrias da música (recepção musical: comunicação social, indústrias do espectáculo) e outras áreas do trabalho (como a política, o sector empresarial ou o sector doméstico).

não há campo do trabalho onde a rede de símbolos e de metáforas em função da sua faixa etária e/ou das características de natureza física ou “emocional’’ seja mais evidente que o da Música Popular

O certo é que não há campo do trabalho onde a rede de símbolos e de metáforas em função da sua faixa etária e/ou das características de natureza física ou “emocional’’ seja mais evidente que o da Música Popular.

A relação entre a prática e a produção musicais de autoras em Portugal de idades compreendidas entre os quarenta e os noventa anos com a sua imagem e as suas representações públicas, nomeadamente nos media e em especial em domínios sonoro-musicais da cultura popular, tem sido grosso modo fortalecida por uma dilatada plataforma de metáforas e gongorismos associados ao masculino ou ao feminino.

Nas entrevistas que dirigi no podcast Mural Sonoro1, no documentário que realizei para a RTP2 A Guitarra de Coimbra2 ou no ciclo Conversa ao Correr das Músicas decorrido no Museu Nacional da Música, que contou com a minha curadoria, notei que a ligação das mulheres que actuam em universos musicais como o fado, o pop-rock, o rap, grupos de influência folk ou tradicional ao sistema das relações de género, à imagem, às atribuições sociais de papéis de poder e de prestígio é superior à da música clássica e/ou erudita, onde as habilitações académicas são exigíveis.

Abaixo, Áudio do Episódio 5 - Curiosidades sobre a representação de mulheres na música em Portugal do Mural Sonoro Podcast - Mulheres na Música

Ao longo da segunda metade do século vinte a imagem albergou as mais diversas explicações e definições, impossível de remetê-la em si a uma só significação ou a um sentido único. Na música popular, onde a imagem se encontra intimamente ligada à representação social, ao reflexo e à mimetização de padrões e estereótipos, à representação de ideias psicológicas e intelectuais a imagem tem sofrido as mais diversas acepções.

A imagética, a representação de uma mensagem por via da imagem, ou uma exposição/exibição da representação social do feminino, estiveram ao longos dos anos oitenta e noventa do século vinte em consonância com a mensagem visual de uma representação social do feminino. A importância atribuída à aparência da mulher (Tseelon, 1995)3 sempre em palco, permanentemente observada e visível contrasta com a sua invisibilidade e a secundarização dos seus trabalhos ou a subalternização das suas perspectivas ou reflexões quando os assuntos colhem um maior grau de seriedade. Na música popular, historicamente ligada à imagem e à fisicalidade na performance artística, essa importância é curiosa quando “a mulher se transforma a si própria num objecto visual: numa visão” (Berger 1982)4.

É interessante verificar como a dicotomia visibilidade da “imagem visual criada” invisibilidade se conjuga na prática da música popular

É interessante verificar como a dicotomia visibilidade da “imagem visual criada”, e muitas vezes em conexão com a estereotipagem do feminino, invisibilidade, relativa à discriminação social das mulheres pela forma como a sociedade patriarcal estrategicamente nos remete à invisibilidade - “aquilo que não se vê, não existe”, se conjuga na prática da música popular.

Por outro lado, a crítica (quer das intérpretes/autoras que entrevistei nestas investigações e nestes projectos culturais, como a própria crítica feminista), tem-se confrontado com algumas questões de difícil resolução. No caso musical e da cultura popular, isto poderá dever-se em grande medida ao facto de a mulher depender ainda duma indústria marcadamente masculina e masculinizada. Muitas autoras, intérpretes e compositoras debatem-se com imagens que consideram ora redutoras ora opressivas ao mesmo tempo que tomam consciência dos seus papéis e das suas posições enquanto produtoras de imagens muito distantes de imagens que traduzam a sua resistência.

 

Margaret Marshment (1993)5 alertou-nos para esta realidade, a de uma possível representação da mulher subordinada, ao ser complacente com a perpetuação destas mensagens visuais, pelo que a necessidade, ou até exigência, de criar na música popular imagens (quer por via das letras das canções como nos videoclipes) descoladas desse imaginário e mais próximas do quotidiano destas intérpretes (“mais realistas”) são uma forma de atribuir outros significados à mulher enquanto sujeito e performer, distante da “eterna vítima”. Isto acontece com algumas autoras oriundas de universos musicais onde as suas biografias e a idade têm auferido maior relevância nestes domínios, como é o caso do rap ou do pop-rock.

Os diferentes modos de estudar o feminino e as relações entre homens e mulheres exploram a ligação com a nossa organização social e com as hierarquias de poder, com as dinâmicas de subordinação e a forma como estas se constroem, reconstroem, se afirmam e se reafirmam, quer no discurso culturalista como no científico.

Visibilizar o empirismo de Mulheres na Música Popular de diferentes origens, grupos etários e universos musicais, discutir as relações de poder tendo em conta a retórica que afirma a posição social da Mulher (resultado de uma construção social) será, então, a única forma de combater aquilo que é uma notória impossibilidade: a de “pensar e falar em nome de todas as mulheres” ou de alcançar as especificidades das vivências das mulheres. Logo, o recurso à história oral será a única forma de transferir essas experiências para o debate público e/ou académico.

As mulheres na Música Popular, sendo elas negras/afrodescendentes, pobres/ricas, velhas/ jovens, trazem não só experiências de vidas diferentes como as suas práticas musicais produzem significados distintos para cada uma delas.


Notas:

1 um podcast sobre Mulheres na Música, papéis, repertórios de luta e resistências, https://soundcloud.com/muralsonoropodcast.

3 Tseelon, Efrat (1995), The Masque of Femininity, Londres: Sage.

4 Berger, John (1982), Modos de ver, Lisboa: Edições 70. Betterton, Rosemary (1987), «Introduction: Feminism. Feminity and Representation» in Betterton, r. (Ed.), Looking on, Images of Feminity in the visual arts and the media, Londres: Pandora.

5 Marshment, Margaret (1993), «The picture is political: representation of women in contemporary popular culture» in Richardson, D. e Robinson, V. (eds.), Introducing Women’s Studies, Londres: Macmillan.

Sobre o/a autor(a)

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