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Corona Jihad e nacionalismo hindu versus Kerala comunista

Há uma certa variedade na forma como as nações têm dado resposta ao coronavírus. Na Índia, as respostas têm consistido em pura islamofobia, como testemunha o termo “corona-jihad”. No Estado de Kerala vemos uma resposta muito distinta e mais humana.

Há uma certa variedade na forma como as nações têm dado resposta ao coronavírus. Na Índia, as respostas têm consistido em pura islamofobia, como testemunha a criação do termo “corona-jihad”. Não encontrarão tal palavra nos dicionários de inglês. Já no twitter, a palavra corona-jihad constou nos trending topics da Índia logo após relatos de que se empreendia uma busca nacional por mais de 2 000 muçulmanos que apareceram no Tablighi Jamaat (reunião de um grupo missionário muçulmano) em meados de março, no oeste do bairro de Nizamuddin, em Nova Deli. A caça teve início depois de se saber que cinco pacientes com resultado positivo para a Covid-19 – e que, depois, vieram a falecer – marcaram presença no evento de Jamaat. Relatos posteriores sugerem que pelo menos 100 participantes – alguns de Deli e outros Estados – foram infetados, e mais de 1 000 pessoas ao longo do território dos 20 Estados e da União estão agora sob quarentena.

A onda de ódio no twitter demonstra como a ansiedade sobre o coronavírus uniu-se à já antiga islamofobia. Foram publicados vídeos falsos, que afirmavam retratar membros do grupo missionário a cuspir na polícia e em pessoas circundantes; outros tornaram-se rapidamente virais nas redes sociais, exacerbando uma já perigosa atmosfera para a comunidade muçulmana. “Que o vírus mate 50 crore (500 milhões) de indianos, radicais islâmicos lançaram um corona-jihad contra a Índia”, escreveu um comentador nacionalista hindu. Mesmo após detalhes da congregação emergirem nos meios de comunicação, os hashtags #CoronaJihhad, #NizamuddinIdiots, #Covid-786 (em referência a um número que carrega significado religioso aos muçulmanos), adentraram a lista de trending topics do twitter. Telejornais ostentavam manchetes tais como “Salvem o país do Corona Jihad”. Waseem Rizvi, presidente do conselho central do Shia Waqf de Uttar Pradesh, disse que o Tablighi Jamaat planeou um ataque ‘fidayeen’* contra a Índia.

Esses ataques à comunidade muçulmana antecedem a crise do coronavírus, tendo o seu início em 2014, na tomada de posse do nacionalista hindu Narendra Modi, que já vinha a fazer uma campanha de ódio contra indianos muçulmanos; para os nacionalistas hindus, eles seriam brutais invasores. O medo do coronavírus é apenas mais uma oportunidade para o partido do governo lucrar com as misérias das suas minorias muçulmanas, culpando-as pelas infeções e mortes.

O impacto do “corona-jihad” tem sido enorme entre os 200 milhões de indianos muçulmanos. Em Bawana, no distrito de Deli, um grupo de homens foi preso por espancar jovens. Os jovens, alegadamente, teriam escondido suas ligações com Tablighi Jamaat. De acordo com a polícia, os locais teriam assumido que os jovens tinham coronavírus e que tinham vindo espalhar o vírus naquela localidade. No dia 6 de abril, diversas famílias da comunidade muçulmana Gujjar, nos bairros Hajipur e Talwara do distrito de Hoshiarpur, foram alegadamente espancadas por grupos em vilarejos de maioria hindu. “Eles bloquearam a nossa passagem e não nos permitiram levar o rebanho a pastar, dizendo-nos que somos sujos e espalhamos a doença”, disse Farman.

Uma muçulmana grávida teve a sua entrada no hospital negada em Varanasi devido ao medo do coronavírus; mais tarde, deu à luz em frente ao mesmo hospital sem nenhuma ajuda médica. Uma testemunha relatou ao autor deste artigo que os suplementos alimentícios gratuitos, destinados a toda a população pobre, estariam a ser distribuídos seletivamente ao eleitorado hindu do BJP, ignorando as comunidades muçulmanas. No distrito de Varanasi, círculo eleitoral do primeiro-ministro Narendra Modi, comunidades muçulmanas a viver em Lohata, Khojwa e Bajardeeha estão a ser excluídas das distribuições de alimentos pelo governo. Também comunidades dalit em Nut e Mushar enfrentam o mesmo tratamento discriminatório por parte das autoridades indianas.

O exemplo de Kerala

No Estado meridional de Kerala vemos uma resposta muito distinta e mais humana ao desafio da Covid-19. O Estado de Kerala é governado por uma coligação entre o Partido Comunista Indiano e outros partidos de esquerda. Kerala tornou-se um modelo para o mundo pela forma como enfrenta o coronavírus, estabelecendo verdadeiros padrões em questões de testagem, rastreamento e tratamento. Ainda que Kerala tenha sido o primeiro Estado a reportar um caso de coronavírus, já no fim de janeiro, o número de casos na primeira semana de abril desceu 30 porcento em relação à semana anterior. O governo tem conduzido um rigoroso “rastreamento de contatos”, ampla testagem, estabelecido uma longa quarentena, distribuído milhões de alimentos preparados, construído milhares de abrigos para trabalhadores e trabalhadoras migrantes que se encontram sem recursos devido ao confinamento nacional. O governo de Kerala criou também um número de WhatsApp destinado ao reporte de casos de violência doméstica no Estado, que têm crescido desde o início da quarentena.

O sucesso de Kerala pode provar-se um importante exemplo para o governo do BJP. Este tem visto a curva subir mesmo após as medidas de distanciamento adotadas. Os desafios enfrentados em Kerala são diversos, mas os especialistas têm notado que as medidas proativas, como a deteção precoce e amplas medidas de apoio social, poderiam servir de modelo ao resto do país. Em mais de 30 anos de governação comunista, o Estado investiu fortemente na educação e saúde públicas e universais. Kerala possui a maior taxa de literacia na Índia, e beneficia do mais eficiente sistema de saúde pública do país.

Kerala, antes do governo central ter instituído uma dura quarentena que deixou muitos Estados em frangalhos, anunciou um pacote económico no valor de 2 600 milhões de dólares destinados a combater a pandemia. O governo de Kerala distribuiu alimentos às crianças nas escolas, negociou com fornecedores para a garantia de um aumento na capacidade da internet e prometeu um avanço de dois meses na distribuição das pensões.

O governo central, controlado pelo BJP, falhou miseravelmente, tanto na saúde quanto na educação. A quarentena nacional já se provou profundamente danosa ao trabalho migrante. Narendra Modi não sentiu necessidade em consultar outros Estados ao estabelecer a quarentena. As perdas económicas e humanas iminentes devido ao covid-19 fizeram com que o BJP procurasse um bode expiatório no qual atribuir seu próprio fracasso – e o Corona Jihad é um deles. Contudo, o governo central ainda poderia tentar reverter o desastre nacional que se avizinha se aprendesse com as lições da Kerala comunista.

Artigo traduzido para português por Pedro Ribeiro da Silva


Nota:

* Nome dado a grupos militares suicidas

Sobre o/a autor(a)

Investigador no Centro para o Estudo das Línguas e Sociedade Indianas e doutorando no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
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