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Mercados de Lisboa renascem na pandemia

Os pequenos comerciantes dos mercados e do comércio local mantêm o emprego e pagam impostos em Portugal, contribuindo para o bem comum. Um exemplo de resistência e reinvenção.

Nas últimas semanas temos sido confrontados com situações que já não julgávamos possíveis, como o encerramento das grandes superfícies, filas que dão a volta ao quarteirão para os supermercados, falta de produtos nas prateleiras ou encomendas online que levam semanas a ser entregues. O vírus trocou-nos as voltas e o que era garantido deixou de o ser.

Mas, ao mesmo tempo que se avolumavam as filas nos supermercados, um outro setor reinventou-se para responder à crise da Covid-19: os mercados e o comércio local.

Por toda a cidade de Lisboa, os mercados continuam abertos, sem filas, cumprindo todas as regras de distanciamento social, com frescos de enorme qualidade e oferecendo entregas ao domicílio de um dia para o outro, na maior parte dos casos.

Esta reinvenção foi surpreendente, não estava prevista, muitos pensavam que o “ir à praça” era um hábito do século passado, mas os mercados de Lisboa provaram que aí estão, capazes de responder às necessidades dos seus fregueses, capazes de usar as tecnologias de informação, capazes de entregar produtos de qualidade e de manter as cadeias de distribuição. A crise seria bem pior sem esse esforço.

Agora fica mais evidente a falta que nos fazem estes mercados e o erro que foi encerrar alguns deles e entregá-los simplesmente ao turismo, como aconteceu no mercado Time-Out. O turismo não pode ser a única aposta económica, é premente manter os mercados e o comércio local – e esta crise mostra-nos isso.

Os donos das grandes superfícies colocaram os seus trabalhadores no desemprego ou em lay-off, puseram os seus lucros em paraísos fiscais e irão distribuir dividendos pelos seus acionistas. Os pequenos comerciantes dos mercados e do comércio local, pelo contrário, mantêm o emprego e pagam impostos em Portugal, contribuindo para o bem comum.

A economia vai começar a reabrir nas próximas semanas e o pequeno comércio vai ser dos primeiros setores a fazê-lo, podendo ajudar as famílias a retomar alguma normalidade nas suas vidas. Nos próximos meses poderemos ter de enfrentar novas temporadas de encerramento do comércio a registar-se uma segunda vaga do vírus, pelo que a manutenção da capacidade dos mercados e do pequeno comércio é muito importante.

Os mercados e o comércio local têm dado um exemplo de resistência e solidariedade em Lisboa que deve ser valorizado no fim desta crise. O Governo, mas também a Câmara Municipal e as Juntas de Freguesia devem reconhecer a importância dos mercados e apoiar a modernização destes pequenos comerciantes, permitindo a entrega de produtos frescos de qualidade de forma reinventada, com encomendas online, mbway ou mesmo uma rede de entregas locais.

Artigo publicado no “Jornal Económico” a 20 de abril de 2020

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
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