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Abril deu-me a minha vida, e provavelmente deu-te a tua também

Abril abriu-nos as portas a muito. Abriu-nos as janelas, as esquinas, as ruas pintadas com palavras de ordem, a avenida cheia enquanto a descemos. Permitiu-nos levantar bem a voz até ficarmos roucos, contra todas as injustiças que estão por eliminar.

Nasci em democracia. Vinte e um anos passados desde a revolução que derrubou o Estado Novo e pôs fim à ditadura, nasci num país onde a palavra Liberdade não era apenas mais uma entrada no dicionário, mas sim sinónimo de uma luta longa e brutal contra um regime que matou, prendeu inocentes, deixou pobres a morrer de fome, censurou, suspendeu a vida a tanta gente e que culminou numa madrugada em que o poder passou para as mãos do povo.

Sei bem que, se hoje estou aqui, se consegui construir uma vida, ser livre de explorar quem sou e o que gosto, se não temo o dia de amanhã, é graças a todas e todos aqueles que construíram Abril. Sei que o meu espírito revolucionário não veio do nada. Vem de um misto de influências e sentimentos de injustiça. Vem do legado dos que partilhavam genes comigo, dos que não conheci, das vezes em que encarei a pobreza de frente.

Venho de uma família antifascista. O nome do meu avô materno estava na lista das pessoas a prender. O meu avô paterno reunia-se numa cave com quem imaginava a revolução. A minha avó teve a sua primeira filha enquanto não sabia se o meu avô voltaria para casa da resistência ao Estado Novo.

Tudo o que sei dessa altura é dos livros, da escola e das histórias da minha avó. Contou-me ela, que nessa madrugada, o meu avô deixou o rádio ligado. Rádio esse que ainda lá está, naquela pequena casa, em Sacavém. Contou-me ela, que aos primeiros segundos daquela música, o meu avô lhe disse “Não saias daqui. Vai ficar tudo bem”.

Os pormenores da história que ela me conta vão mudando ao longo dos anos, mas há uma coisa que nunca mudará: o sentimento com que ela a conta. Porque para ela (e para tanta gente) aquele foi o primeiro dia do resto da sua vida.

Abril trouxe-nos a Liberdade, o Estado Social, a Escola Pública, o Serviço Nacional de Saúde e o direito ao trabalho com direitos. Trouxe-nos esperança por um futuro mais justo e mais igual. Eu sou e serei sempre herdeira dessas conquistas, alguém que beneficiou em primeira mão da luta daqueles que caíram perante o Estado Novo e daqueles que o derrubaram.

Foi graças ao Estado Social que a minha mãe teve acesso ao subsídio de desemprego quando perdeu o seu trabalho e tinha três filhos para sustentar.

Foi graças ao Estado Social que eu e os meus irmão tivemos acesso à Ação Social Escolar e pudemos estudar e construir o nosso futuro.

Foi o Estado Social que nos permitiu ter acesso a cuidados de saúde, quando o pouco dinheiro que tinhamos mal chegava para pôr comida em cima da mesa. Sei bem aquilo que Abril me trouxe, a mim e a tanta gente, sei bem o quão presente está nas nossas vidas e apagar essa memória é algo que nunca permitirei.

Mas sei também que cumprir Abril é uma missão que está longe de terminada. A minha avó, que se viu livre das correntes da ditadura, passou a sua vida inteira a tentar escapar às correntes da pobreza.

Como a minha avó, há muitas. Há a quem a pensão, demasiadas vezes tão baixa, não chegue para comprar os medicamentos, pagar a renda, o passe ou uma alimentação digna.

Há quem não tenha um sítio para viver. Há quem cá viva, trabalhe e contribua para a subsistência da Segurança Social e para a riqueza do nosso país e não seja considerado cidadão.

Há quem seja discriminado pela cor da sua pele, pelo sítio onde nasceu,

Há quem seja discriminado por amar quem ama, por viver de acordo com quem é.

Há quem ainda não tenha acesso à eletricidade ou ao saneamento básico, há quem ainda não saiba como vai sobreviver o dia de amanhã.

Falta ainda responder a estas pessoas, e a Liberdade só será plena quando for para todas e para todos.

Enfrentamos hoje uma pandemia sem precedentes, e nestes dias eu penso no que seria de nós, do nosso país, de quem tem menos, se não tivéssemos o Serviço Nacional de Saúde. Se hoje Portugal é um exemplo internacional no combate à pandemia, é porque Abril nos trouxe um Serviço Nacional de Saúde público, universal, gratuito e que não discrimina ninguém.

Se hoje temos os números que temos, se hoje todos e todas aqueles que precisam têm acesso a cuidados de saúde, é graças a quem não deixou que o SNS fosse privatizado e que estivesse ao serviço da população.

Agora, voltamos a ser ameaçados com a austeridade. Lembramo-nos bem do que isso significa. Sabemos bem que não é solução para responder à crise. Esta pandemia não pode ser justificação para voltarmos a esses tempo sombrios.

Não podem continuar a ser os mais pequenos e os que menos têm a pagar as crises. Não podemos deixar que esta pandemia seja desculpa para cortar salários, para cortar pensões, para destruir os direitos laborais que a nossa democracia conquistou, enquanto os mais ricos continuam a ficar mais ricos e os mais pobres, uma vez mais, são os que sofrem as consequências.

O Bloco não aceitou a austeridade, não aceitamos a austeridade e não aceitaremos a austeridade. Deixamos isso bem claro.

Abril abriu-nos as portas a muito. Não só as portas, as janelas, as esquinas, as ruas pintadas com palavras de ordem, a avenida cheia enquanto a descemos e os jovens a segurar as faixas. Abril permitiu-nos levantar bem a voz até ficarmos roucos, contra todas as injustiças que estão ainda por eliminar. Estas portas abertas são também para o muito que está por fazer.

Agora temos quem não queira assinalar esta data. Quem queira desprovê-la da sua importância, que queira alterar o que significa para tanta gente. Há quem queira reescrever a história. Mas eu tenho a certeza que, todos os que viveram em ditadura, todos os que testemunharam o 25 de Abril e todos os que são seus herdeiros, não deixarão que tal aconteça.

A cumprir Abril me comprometo. E por cumprir Abril lutarei.

Sobre o/a autor(a)

Trabalhadora-estudante. Dirigente nacional do Bloco de Esquerda
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