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Agora sem varandas

Serão quase nenhumas as saudades que viremos a ter do momento em que o Mundo, anunciado catástrofe, inesperadamente tombou.

Diremos que foi roleta russa, a dado tempo. Lembraremos que ninguém conhecia toda a verdade, que cedemos à nossa natureza de sábios precipitados, nós os que nascemos educados para adivinhar como se ciência fosse. Congeminado o vírus por teorias da conspiração, costumes e preconceito, remetemo-nos ao isolamento, tingimos os dias com escapes, alimentamos a roda a evitar desesperos enquanto o Mundo, literalmente, fechava. E teletrabalhamos, essa modernice decretada a adultos, qual telescola imposta às crianças. Voltámos atrás. Descobrimos o espaço entre as varandas. Alguém dirá, quando isto passar, que fomos reencontrados mais solidários após tanta intimidade à força. Oxalá. Depois de termos descoberto o espaço entre varandas, pode ser intimidante olhá-las do mundo cá fora.

Há uma bravura indesmentível na forma como atravessamos um momento para o qual ninguém se preparou senão a olhar à distância para outros países em-dias-em-curvas. Ou a antecipar como fazer a pontuação das horas seguintes, servidas por estatísticas e percentagens à hora de almoço que são muito mais do que números servidos a frio. Acumulam-se mortos, salvam-se vidas. Perder a noção dos dias não é perder a noção do tempo que passa e que será - vamos então adivinhar - muito, conceito bem indefinido. Este conteúdo heróico que nos quiseram injectar surtiu efeito, conteve-nos mais humanos, mais finitos, mais perecíveis. A título de educação cívica, nenhum de nós devia deixar de passar uma noite por ano num serviço de urgências. E poderia ser o fim das aulas de educação moral e religiosa. É quase uma estranha dependência da catástrofe, esta, a de termos de esperar por uma pandemia que nos reconcilie com o comprometimento individual e colectivo da vida em sociedade.

A fé nos homens é agora matéria divina. Está nas notícias, puxada pelo frémito da economia: ouvimos dizer que a vida, tal como a conhecemos, vai recomeçar aos poucos. Melhor seria imaginar que começasse de novo. Tantas vezes, a força libertadora de um "reset". A revolução que se pede na nossa relação com a natureza exige-nos um pacto de não agressão com o Homem. Licenciada por um "bem maior", a terrível imagem de um Mundo movido e controlado a GPS individuais está à porta e entrará enquanto espreita pela fechadura. Convém estar alerta ou seremos todos infectados e tratados como tal, infectados, gente monitorizada por gente. É o tempo certo para se debater políticas e lideranças que nos assegurem que o pelotão da frente cuida bem do carro-vassoura sem o qual ninguém fecha a corrida. Se das varandas vimos um condomínio, lavre-se acta. Um vírus libertador, era bem visto.

Artigo publicado em “Jornal de Notícias” a 17 de abril de 2020

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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