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Como garantir uma Escola Pública inclusiva e igualitária neste 3º período?

As Escolas podem - e devem - continuar a fornecer material de estudo e fichas de trabalho. Tal como os pais podem - e devem - continuar a acompanhar os trabalhos dos filhos. Mas faltam recursos, instrumentos e meios que só o Governo tem capacidade para colmatar.

Numa fase em que as famílias se adaptam a uma nova realidade, cujos os dias são infindavelmente iguais, onde a pressão de manter tarefas domésticas, teletrabalho, tomar conta das crianças, ir ao supermercado com cuidados de higienização necessários (mas exacerbados!), pagar as suas contas - ou seja, manter as suas vidas - pais e filhos aguardam directrizes acerca da vida escolar das crianças.

Falemos então dos prós e contras das diferentes possibilidades colocadas "em cima da mesa". Centremo-nos nos exemplos de famílias em situações mais estáveis do ponto de vista económico, retirando da equação, para já, o flagelo daquelas já atingidas pelo desemprego, pela brutal redução nos seus vencimentos, por falta de condições de habitação digna. Até nesses setores sociais, se sentem dificuldades neste período. Quem vive no Porto, como eu, sabe que essa realidade é gritante.

Aqui onde eu vivo, existem pais que não têm email nem qualquer tipo de recurso digital, outros não conseguem ver as imagens enviadas para o telemóvel com fichas de trabalho; há ainda quem peça que lhes sejam explicadas as Notas Informativas enviadas pela Escola.

Aqui onde eu vivo, todos os dias a Escola é palco de desigualdade e, ao mesmo tempo, combate a essas realidades. Num bairro social com uma população carenciada mas humilde, a entreajuda e a solidariedade tem procurado suprimir dificuldades e carências de pais e alunos. O dia-a-dia dos professores e auxiliares de ação educativa no nosso Agrupamento é muito exigente e obriga a uma atenção redobrada. Ensaiar uma aplicação de modelo de ensino à distância pode provar-se difícil, senão um falhanço.

Reflectindo acerca desta possibilidade, é justamente essa "distância" que será tão grande que não vai atingir muitos alunos. Um Ensino que não chega a todos: aos que não têm um computador, aos que não acedem à internet, aos que não recebem emails, aos que estão em teletrabalho e apenas têm um computador. E o que dizer das famílias mais desfavorecidas economicamente e que têm 2 ou 3 filhos a estudar?!

Pensemos então numa outra possibilidade, que já funcionou outrora e em outros moldes: a Telescola. Já reduzimos bastante o problema da "distância", a televisão é uma realidade mais transversal entre as famílias portuguesas. Já temos garantia que a mensagem chega ao destinatário, no entanto, como sabemos se a informação fica bem consolidada? Antigamente, nos programas de Telescola as aulas eram seguidas pela televisão e os alunos eram acompanhados por professores que completavam as lições com mais informação. Atribuirmos esse papel aos pais é uma possibilidade, embora arriscada. Primeiro por uma questão de logística: a adaptação das famílias a esta nova realidade não está a ser fácil; depois pelo facto de poderem existir limitações no que concerne a conhecimentos escolares e académicos. Neste contexto difícil, agrava-se ainda mais a situação dos alunos com Necessidades Educaticas Especiasis, Dificuldades de Aprendizagem Específicas, entre outras.

As Escolas podem - e devem - continuar a fornecer material de estudo e fichas de trabalho, para que os alunos estudem e pratiquem aquilo que já aprenderam, consolidem as matérias e as competências que já adquiriram. Tal como os pais podem - e devem - continuar a acompanhar os trabalhos dos filhos e auxiliar naquilo que souberem. Mas faltam recursos, instrumentos e meios que só o Governo tem capacidade para colmatar. A existência de certas barreiras, anula todo o processo de ensino e aprendizagem. Desta forma, não é mais do que Ensino a "fazer-de-conta”. Mais do que nunca, precisamos do Estado enquanto Estado Social.

Sobre o/a autor(a)

Membro da APEEAEVP (Associação de Pais e E.E. Agrupamento Escolas do Viso do Porto) e ativista do MESA (Movimento Escolas Sem Amianto)
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