You are here

À beira de uma recessão mais grave do que em 2009

Os custos das emissões estão a disparar, a dívida das empresas é gigante, os juros na zona euro são negativos e o nível de coordenação internacional é menor.

O crash financeiro já é comparável ao de 2008: quando escrevo, a bolsa norte-americana caiu 40% em relação ao seu ponto culminante (19 de fevereiro), a francesa, a alemã e a espanhola mais do que isso e a portuguesa aproxima-se. Vai continuar a cair e será provavelmente o maior colapso bolsista da história. Se houvesse sensatez, as bolsas teriam sido fechadas por vários meses. Entretanto, as projeções de recessão são graves para a zona euro e o Japão, ou mesmo para os EUA. Mas será pior do que estes números indicam.

Não faltaram avisos

Foram três os principais sinais precursores que referi aqui e no Tabu, na SIC Notícias, ao longo dos últimos dois anos. O primeiro, a bolha especulativa no mercado de obrigações, ou seja, na dívida das empresas. O segundo, a evidência de sobreprodução em sectores estratégicos: em 2019, as encomendas industriais na Alemanha estavam ao nível mais baixo dos últimos seis anos, o que acontecia também no Japão, França e Itália. Desde 2018, o automóvel está em crise (a produção alemã reduziu-se em 14%). O terceiro, o comércio mundial estagnou. Os fatores da crise económica estavam instalados antes da pandemia.

E, se olharmos para trás, verifica-se que as soluções são agora um problema, notado a seu tempo. A resposta europeia foi injetar liquidez com os programas de compra de ativos pelo BCE. Isso permitiu baixar as taxas dos juros soberanos, mas acentuou a bolha especulativa. O BCE pediu aos Governos que fizessem a sua parte, aumentando o investimento, mas encontrou a barreira das regras orçamentais. Alguém se lembra do orgulho pomposo dos ministros que anunciavam superávite, a obra culminante das suas carreiras? Pois foi isso que nos tramou.

Cada dia é um bico de obra

Ao contrário de 2008-2009, desta vez a dívida tóxica (as hipotecas incobráveis) é menor e os bancos centrais detêm parte importante das dívidas públicas. Isso é a parte boa. Mas os custos de futuras emissões estão a disparar e há uma montanha de dívida de empresas. Por outro lado, há fatores que prejudicam a resposta, é a parte má. Em primeiro lugar, os juros de referência na zona euro são negativos; o BCE não pode fazer mais nada nesse capítulo. O que devia fazer está fora do que acha ser o seu mundo: dar dois mil euros a cada cidadão europeu, abater parte da dívida soberana que tem no seu balanço, comprar as próximas emissões. Criaria alguma inflação? Ainda bem.

Em segundo lugar, o nível de coordenação internacional é menor do que em 2008-2009, Trump ocupa a Casa Branca e é o vizinho que não queremos ter. Vai ser o salve-se quem puder e, como Lagarde provou ao lançar um ataque pirómano contra a dívida italiana, o BCE está em estado de negação.

Dias de emergência

No meio deste caos, ao longo desta semana os Governos apresentaram planos de emergência. O da Alemanha é 15% do PIB, Espanha, 8%, Portugal, pouco menos de 5%, desesperadamente pouco. E há o jogo dos números: Centeno coloca 5.200 milhões de euros de deferimento de impostos na conta dos fundos para a recuperação (57% do programa). É uma medida importante, ajuda empresas a aguentar. Mas terão a conta para pagar. O que fica para reestruturar a economia é pouco. Mesmo sabendo que haverá mais de 3% de défice e um Orçamento Retificativo, é agora que se devem tomar as decisões que contam: subsídios a empresas, nacionalização de outras, proibição de despedimentos, apoio aos precários, investimento na saúde com muito mais médicos e enfermeiros em exclusividade, baixar as rendas das casas com o aluguer do alojamento local.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 21 de março de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
(...)

Resto dossier

Dossier 316: Crise global, vai ficar tudo bem?

Crise global, vai ficar tudo bem?

A pandemia trouxe grandes mudanças à situação global política, social, económica, ambiental, cultural. A crise sanitária evolui para uma profunda crise económica, cujos traços importa analisar.

Efeito ressalto.

Economia: ressalto ou afundanço?

A retoma da economia não será miraculosa porque as empresas ficaram endividadas e procurarão cortar emprego e salário, as famílias empobreceram e vão reduzir o consumo. Os governos irão mais tarde ou mais cedo procurar “sanear” as finanças públicas às custas dos de sempre. Por Michel Husson.

Walter Cronkite, Reagan, Bush e vários outros membros da sua administração em 1981. Foto de Diana Walker, disponível no Briscoe Center for American History.

Auto-extinção do neoliberalismo? Não apostem nisso

O resultado final da crise económica será determinado pelas relações entre forças sociais. O mais certo não será o abandono do neoliberalismo, nem tão pouco um estado monstruoso trumpiano, mas em vez disso a tentativa dos governantes neoliberais de transferir o peso da dívida para os trabalhadores. Por Gilbert Achcar.

Obra que Banksy ofereceu ao hospital de Southampton e que será leiloada para angariar fundos para o Serviço Nacional de Saúde britânico.

Governança e conflito social em tempo de pandemia

Ainda é possível que todos fiquemos bem. Mas isso dependerá de nós, da nossa capacidade de impedir que tudo volte a ser como era. Se a tarefa parece ser assustadora, devemo-nos lembrar que não somos totalmente impotentes. Por Cinzia Arruzza e Felice Mometti.

Plataforma petrolífera. Foto de chumlee10/Flickr.

Crash petrolífero: como é possível haver preços negativos?

Com o confinamento e o encerramento de fábricas, a procura mundial de petróleo caiu a pique e a capacidade de armazenamento está a esgotar-se. Há produtores a pagar fortunas para armazenar o produto em alto mar. A queda do preço coloca em maus lençóis os países dependentes da exportação. Artigo de Atif Kubursi.

Com o pretexto de “salvar a economia”, estado indiano suspende leis laborais até 2023

Entre as medidas do governo de Madhya Pradesh, o quinto estado mais populoso da Índia, está o aumento da jornada laboral para até 72 horas semanais. Artigo de Praveen S. para o Brasil de Fato

Monumento a Dom Quixote e Sancho Pança em Tandil. Foto de Alena Grebneva/wikimedia commons.

Covid-19 e a superação imaginária do neoliberalismo

A crise não derrotou magicamente o neoliberalismo nem abre uma avenida para um Green New Deal ou um novo Plano Marshall. É precisa uma “radiografia o mais precisa possível da situação que enfrentamos” e das relações de forças sociais existentes. Por Alejandro Pedregal e Jaime Vindel.

Cidadãos chineses durante o surto da Covid-19. Foto No Borders News.

"Esta crise pode ser a pior desde a transição da China para o capitalismo"

O que falhou e acertou no combate do governo chinês ao novo coronavírus? Que sistema de saúde existe no país e que consequências terá a crise económica? E como tudo isto afetará os movimentos sociais do país? O ativista e editor da revista Made in China, Kevin Lin, dá as respostas nesta entrevista.

Cédric Durand num debate em 2015.Foto de Attac Essone.

"O desafio desta crise é planear democraticamente a transformação da economia"

Devido às falhas do mercado e ao desenvolvimento das tecnologias da informação, o planeamento económico democrático é mais urgente do que nunca. É a forma de construir uma sociedade livre da ditadura do capital e de enfrentar a crise ambiental. Entrevista com Cédric Durand.

Economia. Foto de spDucham/Flickr.

O estado da economia mundial no início da grande recessão do Covid-19

Primeira parte da análise ao estado da economia entre a crise económico-financeira de 2007-2009 e o surgimento da Covid-19, pelo economista François Chesnais.

Marisa Matias e José Gusmão. Foto de Paulete Matos.

Bloco propõe fundo europeu para responder à crise sem austeridade

Marisa Matias considera o resultado do Eurogrupo “um fracasso”. Os eurodeputados do Bloco apresentaram uma proposta alternativa para a economia europeia. Leia aqui na íntegra.

Crise do Corona. Ilustração de Jernej Furman/Flickr.

Covid-19 e os circuitos do capital

Enquanto o interesse público é excluído da agropecuária e da fábrica de produtos alimentares, os patógenos superam a bio-segurança que a indústria está disposta a garantir ao público. O agronegócio está em conflito com a saúde pública. E a saúde pública está a perder. Por Rob Wallace, Alex Liebman, Luis Fernando Chaves e Rodrick Wallace

Morador da favela da Rocinha, janeiro de 2013. Foto de João Lima/Flickr.

A sul da quarentena

Boaventura Sousa Santos escreve sobre alguns dos grupos para os quais este período tem sido mais difícil: mulheres, trabalhadores precários e informais, moradores nas periferias pobres e idosos.

Pandemia pode empurrar para a pobreza 500 milhões de pessoas em todo o mundo

A Oxfam lançou o alerta: se não forem tomadas medidas urgentes, a pobreza global poderá abranger 8% da população mundial. Isso seria um retrocesso de décadas para vários países, aponta o estudo apresentado em vésperas da reunião dos ministros das Finanças do G-20.

Marisa Matias e José Gusmão analisam e criticam as decisões do Eurogrupo

"Ministros das Finanças não têm noção da dimensão da crise”

A resposta europeia à crise resume-se a três instrumentos de dívida. Tudo o que poderia constituir uma resposta a sério, ou ficou fora do documento, ou ficou adiado para o Conselho ou para as calendas, afirmam Marisa Matias e José Gusmão sobre as decisões do Eurogrupo.

Foto de romanakr/pixabay.

Insolvência Pandémica: porque esta crise económica será diferente

Enquanto a gestão da crise após 2008 estava preocupada com a liquidez, a principal preocupação agora é a solvência. E essa generalização de resgates e “despejos de helicópteros” de dinheiro – por mais desiguais que sejam – gera uma crise muito diferente em termos políticos e morais. Por Bue Rübner Hansen.

A economia global pára não só por causa dos bloqueios para deter o vírus, mas também porque as linhas de produção da China param

A Covid-19 e a morte da conetividade

A pandemia de Covid-19 é a segunda grande crise da globalização numa década. A primeira foi a crise financeira global de 2008-2009, da qual a economia global levou anos para parecer recuperar. Por Walden Bello

Em 2008, foi a esfera financeira que acendeu o rastilho, passando-o para a esfera produtiva. Hoje, é o contrário: a atividade económica estagnou em parte e este súbito freio está a regressar

Economia global: neoliberalismo contaminado

A atividade económica estagnou parcialmente e este súbito travão está a regressar, como um bumerangue, para ter impacto nas finanças. Esta implosão das finanças irá, por sua vez, agravar a recessão. Por Michel Husson.

Donald Trump. Foto: TheWhiteHouse/Flickr

O megapacote financeiro dos EUA e as fraturas do sistema

O plano de estímulos à economia que resultou do acordo entre republicanos e democratas surpreendeu pelo valor histórico: 2 biliões de dólares. No entanto, o plano virado para o resgate de Wall Street e das grandes empresas não resolve os problemas de um país cada vez mais desigual.

À beira de uma recessão mais grave do que em 2009

Os custos das emissões estão a disparar, a dívida das empresas é gigante, os juros na zona euro são negativos e o nível de coordenação internacional é menor.