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Parece que tem MEL

A nova direita gosta de se chamar liberal, mas acaba por cair nos termos e nos debates dos “populistas”, como se tivessem mel.

Acontece por estes dias o encontro a que alguns chamaram estados gerais da direita. E mesmo que os seus promotores recusem tamanha responsabilidade, ninguém duvida que a 2.a convenção nacional do Movimento Europa e Liberdade (MEL) tem peso existencial naquela área política. Desde logo, pelo protagonismo da lista de convidados, que inclui Paulo Portas, ex-líder do CDS e antigo governante, Francisco Rodrigues dos Santos, presidente do CDS, os dirigentes e militantes do PSD Paulo Mota Pinto, Miguel Poiares Maduro, Miguel Morgado e José Miguel Júdice, os deputados André Ventura, do Chega, e João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, e ainda Jaime Nogueira Pinto, Nuno Garoupa e Proença de Carvalho.

Um peso justificado também pelo espírito refundacional que envolve o congresso. Esta é a direita órfã de Passos Coelho, a que governou e perdeu, a que viu na viabilidade da geringonça e na recuperação económica do país a falência do seu projeto. Olhando para os seus protagonistas, esta direita é a cara de Miguel Morgado, um dos responsáveis pelo programa político com que a direita perdeu eleições em 2015 e um dos mais conservadores entre as suas hostes.

Mas isso foi em 2015. Estamos em 2020, a direita tradicional está em agonia um pouco por todo o mundo, o que tem a direita portuguesa para propor ao país agora? A austeridade é uma herança demasiado pesada para carregar. Mais do que federar os derrotados, a nova direita quer ser nova, quer rasgar o passado para encontrar um projeto e um líder. Como se constrói esse caminho? É isso que o MEL procura descobrir.

E parece estar a traçá-lo. Ao contrário do que aconteceu em 2019, quando a organização explicou que não convidou André Ventura porque era “contra os populismos”, desta vez, o deputado do Chega participa num painel intitulado “as novas alternativas ao espaço da extrema-esquerda e do socialismo radical” com Miguel Morgado, João Cotrim de Figueiredo e moderação de José Manuel Fernandes.

Sim, é verdade que, no ano passado, André Ventura disse que “qualquer líder de direita” devia “ter vergonha” de participar num evento “inútil” como o MEL. Mas isso foi no ano passado, quando não tinha sido convidado. Este ano, o canto do oportunismo foi mais forte, nada de novo no reino da aldrabice do deputado em exclusividade/consultor de empresas de planeamento fiscal/cobrador de impostos em licença sabática.

Bem mais preocupante do que a incoerência de Ventura é o que a sua presença diz sobre a trajetória desta nova direita, onde são cada vez mais comuns as expressões “domínio cultural da esquerda radical” ou “ideologia de género”, uma novilíngua que une o discurso de Morgado, Ventura e Bolsonaro contra os direitos e liberdades conquistados nas últimas décadas. A nova direita gosta de se chamar liberal, mas acaba por cair nos termos e nos debates dos “populistas”, como se tivessem mel. Se for este o caminho, só poderemos lamentar. Portugal dispensava bem qualquer forma de trumpismo lusitano.

Artigo publicado no jornal “I” a 12 de março de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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