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Clima: as várias formas de não fazer

Na Europa, e especialmente em Portugal, a crise climática em resultado da atividade humana tem um consenso político alargado. Há, no entanto, outros tipos de discurso que têm oferecido soluções pífias ou simples inação. Qual é então a clivagem no debate?

O negacionismo climático tem ganho novo fôlego com a eleição de Trump, Bolsonaro e outros. O discurso negacionista, ao negar o conhecimento científico e a existência de alterações climáticas com origem antropogénica, tem como objetivo central negar a ação política para a resolução do problema. Mas na Europa, e especialmente em Portugal, essa não é a discussão. A crise climática em resultado da atividade humana tem um consenso político alargado. Há, no entanto, outros tipos de discurso que têm oferecido soluções pífias ou simples inação. Qual é então a clivagem no debate?

Engenharia climática

"A engenharia portuguesa deverá ter sabido proteger a tempo a baixa de Lisboa e saberá altear as cotas do Montijo, se necessário for" escreveu o secretário de estado Alberto Souto sobre o futuro do aeroporto, no mesmo artigo que garantia que "os pássaros não são estúpidos". A frase mereceu menos atenção, mas é ilustrativa do pensamento da engenharia climática: podemos continuar o "business as usual" que o desenvolvimento tecnológico nos salvará a tempo.

Essa é aliás a linha condutora de todo o artigo. No início podemos ler que "Greta [Thunberg] é um grito. E tem razão". E terminar com a última frase lapidar: "Talvez a Greta, na longevidade, então banal, dos seus 17 anos, aterre no Montijo, muito mais sábia e ciente das capacidades do Homem para se transformar e com uma pontinha de orgulho por ter contribuído para tal". Ou seja, reconhece a existência de alterações climáticas, mas olha para as reivindicações de mudança como histeria própria dos tempos e da juventude. E, principalmente, recusa a ação, no caso a adaptação do território porque o futuro nos trará a solução para os nossos erros do presente.

Resposta individual

Apenas 100 empresas são responsáveis por 71% das emissões globais de gases com efeito de estufa (GEE). Ainda assim é frequente o discurso que o nosso comportamento individual tem de mudar para salvar o planeta. Seguramente que tem, não é essa a questão, é sobre o centro do discurso e como esta individualização serve para apagar o papel do sistema económico na crise climática.

A Coca-Cola produz 200 mil garrafas de plástico por minuto. "Os negócios não serão negócios se não acomodarmos os consumidores", justificou a empresa em Davos sobre a manutenção do plástico de uso único. É o que os clientes querem e como tal é o que a empresa oferece.

Há quem concorde: os cidadãos através de compras mais conscientes mudam o mercado. Há várias falhas neste raciocínio. Os consumidores não definem o que é produzido e muitos não têm acesso a produtos mais éticos se mais caros. No final, este tipo de política criaria uma "democracia" onde quem tem mais recursos financeiros é que definia as regras. Mas, mais simples: basta ver o que diz a Coca-Cola, não há mudanças em nome do bem comum; apenas do lucro. Mas tem de ser só o cidadão a fazer pelas nossas vidas? Para além dessa resposta, não é ainda mais eficaz a sociedade criar um conjunto de regras para garantir embalagens mais sustentáveis e com menor pegada de carbono?

Noutro exemplo concreto e recente: deve o preço dos produtos incorporar uma taxa pelas suas emissões de GEE? É preferível reduzir o consumo de carne encarecendo-a? Não há outras formas de o fazer sem criar mais desigualdade sobre quem tem carências económicas?

Mais mercado

A última Conferência Climática das Nações Unidas (COP25) tinha como missão estabelecer as regras para o artigo 6 do Acordo de Paris, ou seja, a criação de um mercado global de carbono. Não houve acordo sobre a arquitetura do negócio e a consequente repartição de proveitos pelo que voltará a ser tema de negociação este ano.

Perante a crise climática, a reposta internacional é a panaceia do mercado. Empresas mais poderosas podem continuar a emitir GEE desde que comprem direitos de poluição às que reduzam as emissões. Uma via verde para continuarem a vida como até aqui. Soma-se a especulação e a secundarização do mercado.

Construir a alternativa

A conclusão não pode ser que estes discursos, e em particular os seus autores, são todos iguais. Muito menos que são o equivalente aos conservadores que mantêm a linha do negacionismo. Há vários momentos e várias políticas climáticas concretas onde encontraremos aqui aliados. Mas é necessário identificar estas ideias no espaço público e político e reconhecer nelas a manutenção do sistema capitalista e, muitas vezes, a inação ou respostas sem a ambição necessária.

A engenharia climática, a responsabilização individual e a financeirização da resposta climática são narrativas para salvar o "business as usual" quando o que precisamos de salvar é o planeta, a biodiversidade e as vidas humanas. Para isso teremos, sim, que mudar os nossos comportamentos e recorrer a conhecimentos tecnológicos avançados. Mas temos de criar uma alternativa ao sistema. É nessa ambição e nessa escala que está a mudança efetiva para superar a crise climática e para fazer desse trilho um caminho para mais igualdade, mais emprego e menos exclusão.

Sobre o/a autor(a)

Biólogo. Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda
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