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O vírus da indiferença

É imperativo combater o vírus da indiferença! Os povos da Europa não podem ficar em silêncio quando os direitos humanos se compram e vendem e são meras armas de arremesso no xadrez da política internacional.

Por estes dias, e desde há algumas semanas, que a situação criada pelo designado COVID-19 domina as atenções mediáticas e o debate público pelas características da doença e pelo seu impacto global. O assunto merece, sem margem de dúvida, a atuação decidida das autoridades públicas - mas também de todas e todos nós - no sentido de debelar esta situação e evitar ao máximo o seu alastramento.

Mas há outros vírus, alguns que já se alastraram muitíssimo. O vírus da indiferença, infelizmente, já se alastrou por uma parte substancial da população europeia e atinge de forma intensa os seus líderes.

Essa indiferença constata-se pela reduzida atenção e preocupação mediática que a crise humanitária que se agudiza na Turquia e na Grécia merece. Por decisão do governo turco, a Turquia decidiu permitir a passagem para a Grécia - que antes barrava - dos refugiados sírios que se encontram no seu território. Quebra assim o infame acordo que assinou com a UE em 2016 e que, em linhas muito gerais, ditava que a UE paga à Turquia para conter o fluxo de refugiados a caminho da Europa.

Neste acordo vergonhoso, a UE paga 6 mil milhões de euros à Turquia para impedir a chegada dos refugiados à europa, a que acrescem custos de repatriamento. A UE, em vez de defender os direitos humanos, criando corredores humanitários para salvar vidas e proteger seres humanos da guerra, preferiu pagar a um protoditador para tratar do assunto. Pensavam os líderes europeus, afetados por uma indiferença atroz, que Erdogan honraria o acordo e não utilizaria a primeira oportunidade para utilizar os refugiados como meio para chantagear a UE como meio para obter mais apoio na sua guerra pelo domínio regional. Enganaram-se.

E que resposta dá a UE e os países membros? Na Grécia, que faz fronteira com a Turquia, as autoridades recebem a tiro os barcos de borracha de refugiados e os populares de extrema-direita agridem refugiados e jornalistas.

Os apelos das ONG de direitos humanos sucedem-se. Exigem que se garanta o direito ao asilo e que sejam acolhidos pela UE os refugiados em condições dignas.

Na UE não se debate o acolhimento, não se debate a criação de corredores humanitários, não se debate a responsabilidade da própria UE que continua a vender armas para as zonas de conflito de onde fogem os refugiados que estão à nossa porta. Atira-se com alguns milhões para apoiar a Grécia a lidar com o assunto, país onde há dezenas de milhares de refugiados em campos com condições desumanas sem procurar uma solução global. Na ilha de Lesbos, onde chegam muitos dos que fogem por mar, estão 21 mil refugiados.

Resta saber se a UE irá ceder a mais esta chantagem da Turquia ou se irá pôr em prática a defesa dos direitos humanos que tanto apregoa, acolhendo os refugiados e criando corredores humanitários seguros. O passado recente e os governos dos diversos países da UE fazem temer que, uma vez mais, a UE cederá à chantagem de Erdogan e pagará mais para que este nos resolva o problema. E Erdogan quererá certamente mais, como uma carta branca para continuar a sua obsessiva ofensiva contra o povo Curdo.

É imperativo combater o vírus da indiferença! Os povos da Europa não podem ficar em silêncio quando os direitos humanos se compram e vendem e são meras armas de arremesso no xadrez da política internacional.

Sobre o/a autor(a)

Coordenador regional do Bloco de Esquerda/Açores
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