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Uma experiência sociológica com a exclusividade de Ventura

O caso revela a estratégia de Ventura: como os seus mestres, ele quer viver num universo de provocações em que a verdade ou palavra dada são irrelevantes.

Publiquei o video de uma entrevista de Ventura em que assegurava, naquele estilo enfático que lhe conhecemos, que seria deputado em exclusividade, mesmo “perdendo muito dinheiro”. E que a exclusividade era a forma de garantir que lutaria por quem tem pensões baixas. Depois das eleições, não ficou em exclusividade no parlamento e afirmou mesmo que nunca o tinha prometido. Este video foi visto por centenas de milhares de pessoas e muitas vieram comentá-lo na minha página do FB.

Os comentários, como seria de esperar, dividem-se em duas categorias. Há quem não aprecie a fanfarronada de Ventura e veja no episódio a confirmação da sua desconfiança: ele diz uma coisa e faz outra, não estando disposto a “perder muito dinheiro”, mesmo que assim viole a sua promessa de ficar em exclusividade. E há quem o defenda como se fosse o salvador da pátria. É quanto a esse segundo grupo que esta experiência é tão esclarecedora.

Dos defensores de Ventura, ninguém se atreve a afirmar que os videos não são verdadeiros. Toda a gente dá por certo que ele prometeu mesmo e não cumpriu, como de facto aconteceu. Mas há três linhas de defesa desta reviravolta e que merecem atenção. A primeira é simplesmente insultar-me, só que isso não defende nem explica a mentira de Ventura: não foi por não gostar de mim ou de qualquer outra pessoa que ele prometeu e mentiu sobre a exclusividade. Os mais sofisticados dizem que eu também, quando fui deputado, não estava em exclusividade (o problema desta acusação é que é falsa, estive sempre em exclusividade e, por isso mesmo, dei aulas na Universidade de Lisboa sem receber um cêntimo durante treze anos). A segunda linha de defesa é sugerir que o doutor, coitado, estaria atado por contratos que não poderia anular (o que não explica então porque prometeu ser deputado em exclusividade). Ou, os mais imaginosos, que ele precisa de pagar a campanha eleitoral e por isso precisa do tal “muito dinheiro”. Mais uma vez, isso é fraca justificação para ter mentido aos eleitores, tanto mais que o contrato com a CMTV se pode interromper de um dia para o outro.

Vem depois a terceira linha de defesa, que é a mais interessante. É que ele pode e deve mentir sempre que lhe convier, pode fazer o que quiser, porque é o salvador do país. “Já fez muito por Portugal”, escrevem os mais entusiastas. De facto, não fez nada: Ventura não fez aprovar uma única medida importante, não propôs nada que mudasse a vida dos reformados pobres, os tais que o levavam a prometer ficar em exclusividade. Até agora, só falou. Quando fez alguma coisa, foi quando estava no PSD e aprovou as medidas de corte de pensões, ou quando com os seus amigos do partido foi investigado pela Polícia Judiciária num caso de corrupção. Depois disso, nada.

Os seus apoiantes entendem que isso não importa. Tratam Ventura como o chefe de um culto religioso. Ele é Deus na terra. Combate a corrupção (mas está a ser investigado por corrupção e é um dos operadores do mundo do futebol), combate a vergonha (mas promete e não cumpre a promessa para “ganhar muito dinheiro”) e vai fazer e acontecer. Mesmo que esta prosápia seja encarrilada por inúmeros perfis falsos do pequeno exército de bolsominions que trabalha para Ventura, há alguma gente que reproduz esta cruzada e que recupera um entusiasmo que a direita não voltou a ter desde os grupos reaccionários dos anos 1970, que raramente emergiu desde então no PSD ou no CDS, mas que descobriu a sua hora com Trump, Bolsonaro, Salvini e Abascal. O caso revela portanto a estratégia de Ventura: como os seus mestres, ele quer viver num universo de provocações em que a verdade ou palavra dada são irrelevantes. Para conseguir isso, tem de multiplicar ainda mais os episódios como o da promessa de exclusividade e respetiva violação. Pensa o doutor que, para triunfar, precisa de mentir o mais possível e, de preferência, fazendo notar as mentiras.

Artigo publicado na página de Francisco Louçã no facebook

 

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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