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O sorriso de Trump

O segundo mandato pode ser perigoso: a Trump só restará a ambição de enraizar uma nova cultura política que banalize um autoritarismo de tipo novo.

A eleição de Trump não foi um acidente, nem mesmo um incidente, foi um ponto de viragem. Em pouco tempo, as direitas recompuseram-se em torno dos temas do Presidente norte-americano. Não passará muito tempo até que se estranhe quem, à direita, não imitar a sua pose. E é melhor apertarmos o cinto de segurança: ele pode ser reeleito e esse será sempre o mandato mais ameaçador. Começou a contagem decrescente.

Não basta ganhar as cidades

Se bem que a disputa de 2020 mostre o esgotamento do modelo bipartidário (a nomeação democrata pode vir a ser ganha por um independente que é socialista e a do partido republicano vai ser ganha por um que não é republicano), a recente demografia eleitoral demonstra como é que Trump poderá ser reeleito.

Uma fotografia simples parece indicar o contrário. Os votos intercalares em 2018 foram em 75% para os democratas nas grandes cidades. Nos subúrbios das 20 maiores áreas metropolitanas, têm mais de metade dos votos. É aí que está o poder económico: os condados que em 2016 votaram em Hillary Clinton geraram dois terços do crescimento do produto desde 2010 e dos novos empregos. Mas, fora dessas cidades, Trump obteve a maior votação de qualquer candidato republicano desde Reagan, há 35 anos, e, nos subúrbios das 100 maiores cidades os democratas limitam-se a uma pequena vantagem de menos de 3%.

Um país dividido ao meio

Um conjunto de estudos de William Frey, um demógrafo do Brookings Institute que tem analisado a dinâmica populacional nos Estados Unidos, aponta para um cenário eleitoral mais complicado, que regista a fratura do país em dois polos opostos. Assim, se os democratas têm maioria nas cidades, têm perdido peso eleitoral nos subúrbios das áreas metropolitanas mais pequenas e nos condados rurais, onde andam à volta dos 25%.

Frey, notando que a maior parte da população vive em zonas suburbanas, analisou o mapa do que chamou subúrbios maduros (com mais de 75% da área construída, com 82 milhões de eleitores), subúrbios emergentes (entre 25% e 75% de área construída e 27 milhões) e os outros (com menor construção e 9 milhões). Nos subúrbios maduros, os eleitores brancos passaram de 70 para 58% desde 1980, o que significa aumento de comunidades que são mais fiéis ao voto democrata. Mas nos outros Trump ganha com grande vantagem e, nas zonas rurais, com mais de 80%. Isso dá-lhe uma dispersão de voto que permite uma vantagem nas eleições presidenciais (foi assim que foi eleito mesmo com menos três milhões de votos do que Clinton).

O ódio resulta

Este mapa permite compreender as escolhas de discurso de Trump. Como tem o país dividido, prefere o discurso de ódio e de medo para mobilizar os seus eleitores e para os tornar indiferentes a qualquer argumento. Como dizia o seu advogado, o milionário passaria a ser imune a qualquer acusação, mesmo que matasse uma pessoa na 5ª Avenida. Assim, utilizou o julgamento no Senado para erguer uma maré de devoção e para submeter as instituições. Desta forma, o trumpismo, com o mais implausível dos líderes, é uma força social crescente. O discurso contra as comunidades imigrantes, procurando capitalizar os votos dos trabalhadores brancos pobres, é reforçado pelo discurso imperial e pela arrogância destrutiva contra os seus adversários. E é isso que revela como o segundo mandato pode ser perigoso: a Trump só restará a ambição tremenda de criar e enraizar uma nova cultura política que banalize o autoritarismo de tipo novo que tem prosseguido.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 29 de fevereiro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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