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Marega: o rosto declarado de um problema invisível

Por mais paradoxal que possa parecer, este despertar serve de prova da existência de um problema estrutural e de longo-termo de racismo em Portugal.

A onda de solidariedade para com Moussa Marega, avançado maliano do Futebol Clube do Porto, vítima de racismo evidente e grosseiro, não é sintoma de que temos um país antirracista por excelência, mas antes é sinal de que a empatia para com as vítimas de racismo é enviesada, demandando por casos evidentes e atores salientes. Portanto, por mais paradoxal que possa parecer, este despertar serve de prova da existência de um problema estrutural e de longo-termo de racismo em Portugal, haja visto que o racismo se configura como uma prática inscrita nas estruturas da sociedade, sendo “uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou privilégios, a depender ao grupo racial ao qual pertençam”1. Ora, é no quadro da dimensão inconsciente que o racismo se torna estrutural, uma vez que tem a prerrogativa de parecer inexistente. Daí advém esse património tão caro à nossa sociedade, elencado na ideologia do luso-tropicalismo2, de que em Portugal não existe racismo/os portugueses não são racistas. Trata-se de uma mnemónica cultural que permite reforçar a referida ideologia, participando na construção de uma ideia própria de “ser português”. Para tanto, faz-se uso da miscigenação como argumento. Sucede, todavia, que a miscigenação não contradiz a existência de racismo, pois a miscigenação enquanto ato historicamente inscrito pressupõe uma circunstância de dominação.

Da invasão, colonização, escravidão e colonialismo tardio dos povos africanos, sobreveio um modelo de relação racializada e assente na dominação, tipologia que se assimilou como padrão, em que se considerou harmonia a subserviência e o paternalismo. Ora, este paternalismo serviu para transformar o racismo num problema de “classe”, porque negritude e marginalidade tornaram-se faces da mesma moeda. Esse fenómeno encontra-se evidente no apagamento da memória histórica da presença africana em Portugal, bem como na marginalidade urbana dos negros nas cidades ocidentais, uma vez que ser negro participava da condição de ser pobre. Não é por acaso que ao defender a luta de classes e o empoderamento do operariado branco, Karl Marx o opôs, qualitativa e civilizacionalmente, aos escravos negros3. É por essa razão que Matory (idem) considera que o apartheid na sociedade norte-americana não desapareceu, porque a verdadeira integração e igualdade não advieram.

Chegamos, com isto, à questão da invisibilidade. O que tornou o caso de Marega numa comoção nacional? A exposição mediática. Primeiro pelo facto de que na qualidade de ídolos é muito mais fácil gerar empatia do que no papel de cidadão anónimo. Segundo, pelo efeito de arrasto gerado pela visibilidade pública do caso e o posicionamento imediato de líderes de opinião. Com isto percebemos a existência de um modelo social em que as lutas das minorias, das classes marginalizadas, dos segmentos sociais invisíveis, precisam de atores com relevo, que elas não existem por si mesmas nem sem autoevidentes. É preciso que se desperte a consciência social por meio de intervenientes relevantes. Numa linguagem atual, são precisos “influencers” para que haja uma consciência nos “followers”.

Ao aludir ao papel da invisibilidade, i.e., à existência de uma condição social de marginalidade de longo-termo que torna os seus alvos socialmente impercetíveis em sede das estruturas centrais da sociedade, coloco em enfoque um eixo dialético entre “centro” e “margens” que permite compreender que se produz o “centro” por via do reconhecimento e da verosimilhança entre os membros. A reação face à diferença é o empurrar para as margens da sociedade, construindo uma tipologia que cruza diferença sexual, de género, económica e racial.

Ao ser inconsciente, o racismo estrutural é tremendamente eficaz, ainda que não opere como mecanismo intencional de alinhamento da sociedade. A falta de políticas públicas de integração ou a insuficiência das mesmas, conduz à manutenção de um status quo, onde a divisão de papéis continua a ter uma componente racial e permanecem raros os casos de sujeitos negros em lugares do centro, como em cargos de direção ou em funções que exijam qualificações académicas. Não entender que o facto de poucas empresas terem funcionários negros, de que a existência de poucos negros nas universidades, e de que as funções subalternas realizadas por pais vindos de África continuarem a ser realizadas pelos seus descendentes são sintomas de um problema estrutural de racismo que opera sobre as condições económicas dos sujeitos e, assim, sobre as oportunidades de mobilidade social, é a derradeira prova do efeito da invisibilidade do problema.


Notas:

1 DE ALMEIDA, Silvio Luiz. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018, p. 25

2 CASTELO, Cláudia. O modo português de estar no mundo. O luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961). CITCEM-Publicações, 2012.

3 MATORY, J. Lorand. The Fetish Revisited. Marx, Freud, and the Gods Black People Make. Duke University Press, 2018.

Sobre o/a autor(a)

Doutorado em Estudos Africanos pelo ISCTE-IUL. Mestre em História e Cultura das Religiões pela FLUL. Investigador Integrado do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL.
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