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O Autoritarismo Pós-liberal

Neste artigo, Fernando Rosas explica-nos que a história não se repete, mostrando as diferenças dos novos autoritarismos de caráter liberal dos velhos fascismos e lembrando a urgência do combate contra estes fenómenos.
Manifestação anti-fascista em Itália.
Manifestação anti-fascista em Itália. Fonte: wikipedia.

É certo que a história nunca se repete na sua factualidade. O fascismo dos anos vinte e trinta também não, nem como movimento, nem como regime. Os movimentos que na segunda metade do século XX e no início do presente o pretenderam mimetizar transformaram se invariavelmente em grupos de atividades criminais ligados à violência racista, ao tráfico de armas ou de drogas, ou seja, repetem se como farsa marginal e de delinquência, mas sem qualquer influência real na sociedade ou expressão política relevante. Não foi ali que a serpente pôs o ovo.

As crises do capitalismo, sendo cíclicas, repetem se, mas nunca se repetem verdadeiramente, porque o capitalismo também muda no seu processo de desenvolvimento e cada crise, sendo uma crise do sistema capitalista, obedece a lógicas causais e a condicionalismos históricos distintos, portanto com efeitos e alcance histórico diferenciados. Mas as circunstâncias históricas e sistémicas que podem originar a grande conflitualidade política e social, as revoluções e as guerras, ainda que com origens epocalmente distintas, são suscetíveis de voltar a verificar se sob novas formas, sendo os seus efeitos seguramente diferentes, largamente imprevisíveis, mas igualmente geradores de inquieta expectativa. É desses paralelismos que pretendo falar neste texto.

O neoliberalismo: época de reversão da relação de forças

O primeiro paralelismo com o tempo presente respeita à crise do sistema liberal como pano de fundo. A segunda crise histórica do sistema liberal, também ela multímoda, ou seja, global na sua expressão (financeira, económica, social, ideológica) está a provocar, cada vez menos subterraneamente, enormes tensões subversoras na ordem demoliberal estabelecida internacionalmente. E com uma característica nova: é que ela atinge em cheio o centro do sistema e não só as periferias. O neoliberalismo, enquanto estratégia global do capitalismo para responder à crise, está no cerne desta grande e ameaçadora mudança que, com as suas novas expressões e recursos de hegemonia e manipulação ideológica, parece atingir não só lógicas económicas, financeiras e sociais de acumulação como estar a abrir um espaço de subversão política autoritária e antidemocrática.

De forma idêntica ao período entre as guerras do século passado, o capitalismo conhece desde os finais dos anos 1970 uma prolongada crise sistémica, de que a grande depressão de 2008/09 não foi senão o seu abalo mais profundo e recente. Isso obriga o capital financeiro de hoje, por razões funcionalmente semelhantes às das classes possidentes da época dos fascismos, a uma drástica ofensiva em todas as frentes tendente à recuperação das suas taxas de lucro e de acumulação através da inversão da relação de forças social e política instalada a partir do segundo pós guerra.

Na realidade, a vitória sobre o nazi fascismo e as dinâmicas sociais políticas que ela desencadeou conjugaram se, depois do conflito, com o medo do comunismo e a oportunidade da recuperação económica (os “trinta anos de ouro” de desenvolvimento do capitalismo) para simultaneamente obrigar e facultar a vários Estados do ocidente “atlantista” a adoção de políticas de ampla democratização política e social que irão configurar o novo tipo de Estado social.

Ora, precisamente, é o fim dessa época, chamemos lhes assim, de “concessões”, é a liquidação brutal e radical desse património de conquistas que hoje está em jogo. É, e nisso há semelhança com o período entre as duas guerras do século XX, uma época a que chamarei de reversão, destinada a reduzir ou eliminar os avanços alcançados com a derrota do fascismo, e depois do colonialismo, em larga parte da humanidade. Um processo de enorme violência social e simbólica, mas que, nas atuais condições históricas, e por enquanto, no Ocidente, não tem tido necessidade de recorrer à violência política e policial extrema para atingir os seus fins. Uma ofensiva relativamente pacífica, provavelmente por ausência de resistência eficaz ou ameaçadora para os fundamentos da ordem estabelecida.

O segundo paralelismo a realçar é o da derrota das forças que social, política e ideologicamente podiam fazer frente à estratégia neoliberal. Naturalmente, a situação internacional verificada à esquerda no último vinténio do século XX é em si mesma distinta historicamente da derrota da ofensiva revolucionária do operariado que sucedeu à Revolução de Outubro de 1917. Mas, nas condições da transição dos anos 1980 para os anos 1990, esse revés teve efeitos decisivos no desarmamento da resistência ao neoliberalismo, tal como a vitória sobre as insurreições e as mobilizações vermelhas no primeiro pós guerra iria abrir terreno ao avanço do fascismo.

Na realidade, essa ofensiva neoliberal e neoconservadora, desde logo no plano da ideologia, isto é, da hegemonia das ideias e representações do mundo, mas também nos domínios do político, do social, do económico, ou seja, aquilo que se desenvolveu como novo paradigma a partir dos sombrios anos 1980 de Thatcher e de Reagan, só se tornou possível após duas derrotas históricas decisivas:

Em primeiro lugar, a implosão do “socialismo real”, tendendo a arrastar consigo e com o seu descrédito, pelo menos por algum tempo, o património das esquerdas marxistas e socialistas enquanto alternativas ao capitalismo. Como salienta E. Traverso, isso levou ao fim da identificação natural das classes trabalhadoras com as esquerdas e à sua permeabilidade à influência do populismo de extrema-direita, como acontece no norte de Itália com a Liga ou em França com a Frente Nacional1. Era o “fim da história” que se anunciava, criando uma espécie de coerção de “pensamento único” pós moderno conducente à sujeição, melhor dizendo, à rendição de qualquer ideia emancipatória ao “realismo” da nova ordem do mercado e do capital. Ou seja, entregando ao neoliberalismo, em largos setores da sociedade, a hegemonia, o domínio no campo da ideologia e da política que ela informava.

Em segundo lugar, verificou se, como um dominó, a capitulação da social democracia internacional face ao neoliberalismo. O que também tem historicamente semelhanças funcionais com a rendição do liberalismo à marcha do fascismo para o poder nos anos 20/30 do século passado. No caso presente, desarmando as defesas do Estado social e transformando os partidos sociais democratas num instrumento ativo das políticas económicas e sociais neoliberais. Os partidos sociais democratas, tornados partidos sociais liberais, estão hoje a pagar, por todo o lado, um elevado preço político por esse alinhamento com as políticas destruidoras do capital financeiro. E, aparentemente, só em Portugal, e mais recentemente em Espanha, estão a procurar tirar, hesitantemente, algumas lições do seu descalabro internacional.

Mas, como argumenta Louçã, as dificuldades em construir uma resposta alternativa à ofensiva neoliberal em termos de mobilização social não resultam só das derrotas ou da rendição: «de facto, a dificuldade de uma política de contraste (…) resulta também de o poder se reproduzir de formas mais extensas e complexas», ou seja, «existe hoje uma canibalização do espaço público por diversas formas mercantis, das quais as mais destacadas são as que produzem a realidade como uma imagem, os media, que engendram as ideias que se fazem consensualizar» ao jeito de «uma fabricação de legitimidade»2.

Estes acontecimentos, apesar das importantes lutas de resistência travadas em vários países ou no plano internacional, enfraqueceram, dividiram e desmobilizaram os movimentos sociais e, sobretudo, a sua capacidade de resposta conjunta e articulada à escala global. Ou seja, por aqui entrou a nova ofensiva desreguladora e destruidora do capital financeiro a todos os níveis da vida em sociedade.

É sabido o que isso tem significado: a reversão das conquistas dos direitos sociais, o crescimento acelerado da pobreza e das desigualdades, a financeirização especulativa e a desprodutização das economias, a privatização mercantilista dos setores rentáveis do Estado social, o endividamento sem alternativa dos países periféricos, o rearmamento e o fomento de novas guerras pela partilha de mercados e de zonas de influência, a marcha cega para a catástrofe climática e ambiental.

A globalização capitalista e o neoliberalismo contribuem para uma crescente oligarquização do sistema agravada pelas características específicas do processo de financeirização: «a autonomização da finança, graças à conjugação entre liberdade de circulação de capitais e desregulamentação para a criação de produtos e operações que absorvam as poupanças, gerem os excedentes e criem capital fictício, determinando os principais fluxos económicos no mundo. Assim sendo, a finança organiza a sua dominação num território que é exterior ao controlo democrático e à expressão das pressões imediatas na luta de classes, dos processos eleitorais ou dos movimentos sociais, por ser transnacionalizada e indiferente ao próprio exercício direto da hegemonia. Neste sentido, a afirmação da coerção por imposição internacional, uma versão contemporânea da política da canhoneira, é o traço marcante do final desta década»3.

Nestes termos, a globalização capitalista transforma se também num «processo brutal de homogeneização cultural», que «produz e reproduz à escala mundial formas de pânico identitário (o termo é de Daniel Bensaïd) conducentes a manifestações nacionalistas e/ou religiosas de intolerância e favorecendo a conflitualidade étnica e confessional. Quanto mais as nações perdem o seu poder económico, mais se proclama a imensa glória da nação “acima de tudo”»4.

O populismo de extrema direita

O terceiro paralelismo relevante com a época dos fascismos respeita à tentativa de ocupação do espaço social da revolta e do protesto das vítimas da globalização pelas organizações emergentes da extrema direita xenófoba e autoritária. Um espaço, em parte, abandonado pela capitulação da social democracia, pelo colapso dos partidos comunistas antes e após a implosão do campo soviético e pelo surgimento tardio de forças da esquerda radical.

A estratégia de recuperação neoliberal deixou e deixa um imenso rasto de milhões de espoliados, quer no mundo do trabalho, quer nas classes intermédias. Mulheres e homens que perderam o emprego, o salário, a casa onde viviam, a dignidade, a posição social e ficam sem perspetiva de vida. Redução salarial, precariedade crescente, corte nas pensões e nas ajudas sociais, medo, revolta constituíram o terreno ideal para a manipulação nacional populista do descontentamento das classes intermédias e de significativos setores do mundo do trabalho por parte da extrema direita. Esses movimentos têm três traços comuns no seu discurso ideológico: o nacionalismo xenófobo e racista (o imigrante tomou o lugar do judeu como passa culpas), o autoritarismo do Estado (a ideologia repressiva e o culto da violência policial) e a intolerância contra as minorias sexuais e os direitos das mulheres. Já no plano económico os registos variam: desde a adesão a estratégias ultraliberais (Bolsonaro), a críticas moralistas contra a “plutocracia” neoliberal, a corrupção, a globalização e a União Europeia, em nome do nacionalismo económico e do protecionismo, mas sem nunca pôr em causa o capitalismo como sistema.

É certo que vários desses movimentos de extrema direita (em França, na Holanda, na Itália, na Áustria) tiveram origem em grupos caracterizadamente fascistas ou fascizantes. Mas, para alcançarem apoio social e capacidade de intervir na vida política no interior do sistema, vários deles engravataram se, adotaram posturas “responsáveis” e entraram, no quadro de uma radicalização política geral, em acordos de sustentação ou de participação no governo com os partidos da direita tradicional (Hungria, Áustria, Itália, Andaluzia). Fora da Europa, e com laivos de fascistização e intolerância étnica e religiosa mais marcados, a extrema direita governa no Brasil de Bolsonaro, na Turquia de Erdoğan, na Índia de Modi, nas Filipinas de Duterte, etc.

Na Europa, o “cordão sanitário” que impedia por consenso não escrito as alianças políticas das direitas tradicionais com a extrema direita populista tende a desaparecer, como recentemente se verificou nas eleições regionais da Andaluzia. Ao tornar se uma força política com base social e expressão eleitoral, o populismo de extrema direita tornou se um aliado apetecível para uma direita sistémica em perda de apoio social e de votantes. A extrema direita torna se “respeitável” em matéria de mercado livre e circulação de capitais e a direita tradicional aproxima se das suas reivindicações xenófobas, autoritárias e repressivas. Tudo isso empurra a direita europeia, e não só ela, para a direita, num processo de radicalização que pode vir a ter consequências preocupantes para a situação da democracia europeia.

Uma estratégia de subversão política?

Até ao momento presente, no plano político institucional, e ao contrário do que aconteceu nos anos 20/30 do século passado, a ofensiva neoliberal na Europa não exigira ainda ao capital financeiro um novo processo de destruição violenta do Estado liberal parlamentar e das aquisições do Estado social, apesar da crise de legitimidade em que este está crescentemente mergulhado. Creio que por três ordens de razão: porque não existe uma ameaça revolucionária à ordem estabelecida; porque o regime liberal parlamentar, apesar de tudo, tem se demonstrado eficaz no enquadramento e na contenção neutralizadora da resistência laboral e popular; e porque a memória do que foram as ditaduras fascistas permanece presente em largos setores dos povos que as sofreram.

Precisamente, multiplicam se os sintomas de que algo pode estar a mudar nesta complacência, sugerindo que seria precipitado pensar que as prioridades atuais do capital financeiro se compatibilizaram com a democracia política e parlamentar. É certo que, por enquanto, na Europa, as liberdades públicas e as principais conquistas sociais não têm sido atacadas pelo recurso à brutalidade terrorista e policial como no passado. Mas os parlamentos eleitos, depositários desses direitos soberanos, têm sido paulatinamente esvaziados dos seus poderes a favor de novos centros de poder supranacionais, de aparelhos burocráticos de funcionários zelosos que nenhum cidadão elegeu ou fiscalizou. A recente designação dos mais altos cargos da União Europeia por conluios obscuros de diretórios supranacionais fora de qualquer debate, fiscalização ou escolhas dos cidadãos (e imposta ao Parlamento Europeu por nove votos tangenciais no que respeita à presidente alemã da Comissão) aí está para o demonstrar. Silenciosamente, os Estados nacionais, sobretudo os dos países periféricos, perderam autonomia democrática de decisão sobre quase tudo o que é essencial à governação: o orçamento, a moeda, a estratégia económica, as políticas sociais, a política externa, a guerra ou a paz. O esvaziamento dos Estados nacionais, quadro onde historicamente nasceram as democracias, representa o esvaziamento paulatino e “invisível “da própria democracia política e social, sem qualquer compensação visível à escala supranacional, para onde se transferem os poderes soberanos em quase todos os domínios da vida social. Está pois criada uma questão sobre o futuro da democracia nas sociedades europeias de hoje.

Essa realidade, na Europa, vai dando origem ao surgimento, à escala dos Estados nacionais, como uma espécie de segunda pele de um parlamentarismo em crise, de um novo tipo de regimes pós liberais, autoritários, xenófobos, repressivos que parecem querer conjugar e reforçar a estratégia de agressão económica, social e financeira do neoliberalismo com outro tipo de medidas especificamente políticas.

Desde logo, uma clara crispação autoritária com o cerco às liberdades públicas; em segundo lugar, a agudização de todas as formas de discriminação social, sexual e racial; em terceiro lugar, o fomento de novos tipos de obscurantismo e regressão cultural, designadamente através do controlo ideológico e oligopolístico das empresas dos media e das redes sociais, e, finalmente, a crescente instrumentalização política da justiça contra os direitos, liberdades e garantias. Aquilo a que Boaventura Sousa Santos chama «o alastramento viscoso de um fascismo jurídico político de um novo tipo»5, como se constata, entre outros, nos casos gritantes do Brasil, da Polónia ou da Hungria e, fora da Europa, no Brasil, no Egito, na Turquia, nas Filipinas, na India, etc.

Neste quadro, a concentração dos media e das redes sociais, sob controlo de um punhado de multinacionais, tem um duplo efeito perverso: tende inevitavelmente para a restrição do pluralismo informativo e da liberdade de expressão, por um lado, e, por outro, à atomização das relações sociais por via informática, à transformação de cada um em objeto fácil de manipulação centralizada e generalizada, à exacerbação de novas modalidades de ignorância, iliteracia e desmobilização cívica. O recente escândalo das manipulações eleitorais através da fabricação e falsificação noticiosa dirigida a milhões de “perfis” cedidos pelo Facebook a empresas especializadas nesse tipo de fraude está aí para o ilustrar. A outra face desta mesma moeda, precisamente, é a banalização e a normalização do cerco e ataque aos direitos fundamentais. É mais do que isso: é a criação de um ambiente de impunidade e até de consenso em torno de todo o tipo de alarvidades racistas e sexistas proferidas pelos candidatos a higienistas do mundo. De Trump a Bolsonaro, pretende instalar se a impunidade política e social das mais torpes formas de agressão fascizante. Que, aliás, rapidamente tenderão a passar da verbalização para a ação criminosa.

A ameaça à independência dos tribunais polacos, o ataque à liberdade de imprensa na Hungria, as leis de exceção antiterroristas tornadas legislação ordinária de ordem pública na França de Macron ou a negação pelo Estado Espanhol do direito à autodeterminação da Catalunha e a vergonha dos presos políticos catalães são alguns de vários outros exemplos possíveis. E sobre isto tudo uma União Europeia quase indiferente, ou impotente, face ao deslizar da situação política em vários países europeus para alianças políticas e ideológicas das direitas tradicionais com a extrema direita populista, xenófoba e autoritária.

O facto é que há um processo de polarização e radicalização em curso, com o afundamento dos partidos centristas e a reorganização dos espaços de intervenção política à esquerda e à direita, como se a própria sociedade arrumasse os distintos campos ideológicos para os combates complexos que se advinham a uma escala global. De um lado, uma esquerda radical que se reinventa e alarga sem quebrar com o seu património de memórias. Do outro, uma direita pós fascista e pós liberal que funde as velhas direitas liberais com o novo populismo de extrema direita num novo tipo de autoritarismo. O capital financeiro pode entender que as resistências populares com que a estratégia neoliberal tem deparado um pouco por todo o lado impõem que se passe a encarar um novo tipo de medidas ao nível da reforma autoritária e antidemocrática do Estado. O Brasil sob o domínio de Bolsonaro e dos grandes interesses financeiros vai ser um campo privilegiado para essa demonstração.

Mas o estado de exceção transformado em norma, em França, a crispação policial e repressiva contra os imigrantes e o protesto social em geral, a degeneração política dos sistemas de justiça, a manipulação ideológica sem precedentes das redes de comunicação social, as alianças de governo com a extrema direita e o “estímulo” trazido pela pseudoeleição de Trump nos EUA ou pelos sucessos de uma nova estratégia golpista no Brasil e, no momento em que escrevo, na Venezuela, podem significar que o neoliberalismo, apoiado e interpretado pela radicalização polarizadora das direitas, se prepara para um novo tipo de ataques especificamente políticos contra os sistemas democráticos, na realidade, contra os direitos do trabalho, das minorias étnicas e de orientação sexual, das mulheres e de largos setores das classes intermédias.

É certo que a polarização tende, também, a facilitar e reforçar o campo das esquerdas. Mas, com os movimentos sociais na defensiva e as esquerdas socialistas fragmentadas à escala internacional, esse processo tem se mostrado lento e difícil em termos de ação política conjunta. E esse desequilíbrio, a não ser superado, augura tempos difíceis para as democracias europeias.

Na realidade, tudo está em aberto. A capacidade de resiliência cultural e memorial dos paradigmas emancipatórios não só assegurou a sua resistência política face às rendições políticas do centrismo e da social democracia como tende a renovar se, a desenquistar se, sob a enorme mas desafiante pressão das dificuldades sociais, políticas e ideológicas nascidas dos reveses experimentados. Não é, pois, uma nota pessimista esta com que encerro estas páginas. É antes com a constatação da urgência e das necessidades com que o presente desafia a cidadania dos dias que vivemos. E a consciência dessa necessidade é a condição primeira da verdadeira liberdade.

 

Notas:

[1] TRAVERSO, Enzo (2019). The New Faces of Fascism. Populism and the Far Right. Londres/Nova Iorque: Verso.

[2] LOUÇÃ, Francisco (2018). “A Maldição Populista na Bola de Cristal do Século XXI”. In Cecília Honório (coord.), O Espectro dos Populismos. Ensaios Políticos e Historiográficos. Lisboa: Tinta-da-China,
p. 224.

[3] Ibidem, pp. 225-226.

[4] LÖWY, Michael (2019). “A extrema-direita: um fenómeno global”. Cf. pp. 23-29 desta publicação.

[5] Boaventura de Sousa Santos, “Lula da Silva: os tribunais o condenam, a história o absolverá”, Público, 9 de abril de 2018.

 

Este artigo é um capítulo do livro: Combates contra a extrema-direita, das Edições Combate, em homenagem a José Carvalho. O livro pode ser adquirido aqui.

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