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A parede que desabou à direita

“Chicão” e Ventura são iguais a outros dirigentes da extrema-direita europeia, que espreitam uma oportunidade, repetem alguns slogans, constroem alvos, apelam aos ressentimentos, montam cenários que permitam que o ódio se torne respeitável e procuram criar milícias políticas.

Não faltará muito tempo até sabermos se o levantamento de rancho que ocorreu no CDS terá consequências para salvar o partido do pior dos destinos, que seria deslizar para o terceiro lugar na hierarquia das direitas e excluir-se assim da viabilidade eleitoral. Mas esta ameaça permite perceber a razão da obsessão do novo presidente quanto ao Chega, quer quando o imita quer quando o desvaloriza. Ele olha, ciumento, para o que lhe parece ser um sucesso garantido, mas talvez tenha escassos motivos para se meter nesta alhada e menos ainda para escolher este posicionamento de vistas curtas.

Evocar a precedência de um reacionarismo católico ultramontano, apimentado de machismo com esteroides, como fonte de autoridade daquele velhíssimo CDS que foi abandonado ou pelo menos secundarizado por todos os seus fundadores e continuadores, de Adriano Moreira a Lucas Pires, de Freitas do Amaral a Paulo Portas, é algo que nem belisca Ventura, que antes busca a sua força na novidade de um espalhafato mais tonitruante do que o que se poderá imaginar mesmo num CDS que abre o armário dos seus fantasmas.

Pois o problema do CDS é distinto do daquele que “Chicão” quer imitar: precisa de alegrar uma base mas não pode desistir de a ampliar e de lhe dar credibilidade governamental para algum entendimento à direita quando D. Sebastião aportar à praia lusitana. Ouvir Nuno Melo assustado com a nova deriva é um retrato esclarecedor deste imbróglio. De facto, quando se está em 4%, querer purificar ainda mais o partido é a mais estranha das estratégias. Assim, pode ocorrer que o remédio seja venenoso e que o CDS, ao procurar refazer-se como extrema-direita passadista, ainda por cima comboiado por alguém a quem falta gravitas e a quem sobra ligeireza, mergulhe mais fundo na irrelevância e perca a capacidade de contentar clientelas, ficando resumido a uma seita de admiradores do chefe. Se nos lembramos do que foi, nos últimos meses, o momento escolhido pelo então candidatável para se fazer notar, o colossal episódio das casas de banho das crianças transgénero, com direito a campanha acesa e até a falsificação do despacho ministerial, ficamos com um retrato das suas prioridades, da forma como rapidamente desertou da sua própria trincheira e de onde está o seu instinto. Só pode dar asneira.

Em tudo isto, o novo CDS – curioso, que este partido que agora quer defenestrar o “socialismo que vigora em Portugal” e erradicar a “quadrilha” que é a esquerda, ainda se chame “Centro” e “Democrático-Social” - segue exatamente a política contrária da que fez o seu sucesso, quando Portas o alcandorou a um partido de governo. Pode dizer-se que Portas tinha sido o inspirador de Monteiro e que, nesse tempo, os ciganos já eram apontados como o mal da pátria, o CSI era castigado como financiando Mercedes e a política era uma guerrilha de escandaleiras contra o PSD e contra a União Europeia.

De qualquer modo, veio depois o tempo de assentar, como após uma adolescência problemática, e foi um ápice até os dirigentes vestirem o fato príncipe de Gales. Portas teorizou isto de forma clara: à nossa direita, só há uma parede. Nenhuma aliança, ignoramo-los. Certo, não era difícil, lá só estavam então bandos de skinheads ou um PNR irrelevante. A lógica, no entanto, era implacável, era para a direita tradicional e para o PSD que o CDS se devia virar. Assim, se comparamos o tempo em que o CDS fabricava ou cultivava apoios eleitorais fechados (“lavradores”, antigos combatentes, taxistas) e os seus momentos de governo, percebe-se com funcionou esta viragem para o lado contrário ao da parede. Nem tudo funcionou bem, o governo Santana Lopes foi um desastre, a conivência com a Uber alienou os taxistas, a agricultura é esquecida por dar poucos votos, os antigos combatentes fartaram-se do fingimento. Mas era uma política e, se perguntarmos agora para quem fala o novo CDS, não há resposta.

No entanto, há uma condição em que o partido poderia ser salvo por um milagre que lhe bata à porta. E não é impossível que encontre nesse vislumbre uma oportunidade, se bem que o tempo possa não ser de feição. Seria surfar a vaga de fundo da transformação cultural da direita tradicional, que se iniciou com a vitória de Trump e que se pode consolidar com a sua eventual reeleição. Nisso, “Chicão” e Ventura são iguais a outros dirigentes da extrema-direita europeia, que espreitam uma oportunidade, repetem alguns slogans, constroem alvos, apelam aos ressentimentos, montam cenários que permitam que o ódio se torne respeitável e procuram criar milícias políticas (os sindicatos de polícias), eles que dizem representar um povo ansioso contra a política. A tecnologia e a mística são as mesmas.

Não é evidente se esta trumpização será o bastante para criar povo para esta extrema-direita crescer e governar. Em Espanha um partido com muito mais sucesso, o Vox, ainda está longe de o conseguir e o tempo é cruel, vão aparecendo dirigentes que falsificaram currículos, corrécios que cometeram crimes, gente que esconde dinheiros e malfeitorias diversas. O que em qualquer caso é irrecusável é que é para aí que olham os dirigentes da direita. Mesmo nas eleições do PSD se notou que todos os candidatos, do mais façanhudo ao mais moderado, davam como certo que o seu futuro é aliar-se ao Chega. A parede à direita do CDS foi mesmo derrubada e parece que, nesses partidos que se diziam moderados e firmemente do lado de cá da tal parede, estão todos contentes com o que viram do outro lado.

Artigo publicado em expresso.pt a 29 de janeiro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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