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“Em Portugal não há racismo”, por isso há tantos “anti-anti-racistas”

É já um lugar comum dizer-se que os discursos racistas, em Portugal (e noutros países onde os Direitos Humanos estão minimamente protegidos na Lei), começam quase sempre por “eu cá não sou racista, mas...”.

A hipocrisia de muitos não consegue esconder o ódio racista que alguns soltam por aí nas ruas e nas redes sociais. Mais grave é o racismo institucional que dá um péssimo exemplo aos cidadãos. Portugal foi apontado, em Fevereiro de 2018, pelo Comité Europeu para a Prevenção da Tortura e das Penas e Tratamentos Desumanos ou Degradantes do Conselho da Europa, como um dos países da Europa Ocidental com maior número de casos de violência policial, o que é corroborado pela Comissão Europeia Contra o Racismo e a Intolerância (que monitoriza o respeito pelos direitos humanos em 47 países europeus do Conselho da Europa) e por sucessivos relatórios anuais da Amnistia Internacional. O próprio vice-presidente do maior sindicato de polícias, Manuel Morais, em Maio de 2019, denunciou a existência de preconceito étnico e racismo no seio da PSP, com a mesma coragem que lhe valeu um processo disciplinar por criticar a intervenção do deputado do Chega vestindo uma camisola do movimento Zero, na manifestação de polícias em frente ao Parlamento, já depois de se ter demitido da ASPP.

 

O caso mais recente, que chegou à opinião pública esta semana, foi o da cidadã portuguesa e angolana, Cláudia Simões que, acompanhada pela filha de 8 anos, entrou num autocarro, na Amadora, mostrou o seu passe ao motorista e pediu desculpa por a filha se ter esquecido do dela (embora os menores de 12 anos não paguem bilhete), mas que iria ligar ao filho para o levar à paragem de destino. Na paragem seguinte entrou uma idosa brasileira com uma menina de 4 anos, que o motorista obrigou a descer por a menina não ter o passe, e perante os protestos da senhora, por a criança não ter de pagar bilhete, começou a lançar insultos racistas: “Vocês, pretos, macacos, ficam aqui a encher o nosso país. Vão embora para a vossa terra”. Várias passageiros insurgiram-se contra o o motorista, perguntando-lhe se ele não tinha familiares emigrados noutros países, segundo testemunhas ouvidas pelo jornal Público. Na paragem de destino, o motorista chamou um polícia que ia a sair de uma taberna e este, face aos protestos de Cláudia Simões, atira-a ao chão, imobilizando-a pelo pescoço, o que terá levado a senhora, sentindo-se sufocada, a morder-lhe a mão, motivo pelo que já foi ouvida no Tribunal, como arguida, numa queixa apresentada pelo agente. Dentro do carro da polícia, o agente terá voltado a agredir com socos na boca e na cara, acompanhados por insultos obscenos e racistas, sem ligar aos pedidos de um dos colegas para não bater mais. A esquadra chamou a ambulância dos Bombeiros da Amadora a quem disseram que se tinha tratado de “uma queda”, tendo sido transportada para o Hospital Amadora-Sintra, onde foi tratada dos traumatismos na face e na cabeça. O Ministério da Administração Interna já mandou abrir um inquérito. Esperemos que, se os factos descritos pela vítima e pelas testemunhas se comprovarem, que o agente seja expulso da polícia, para bem da Justiça e da própria PSP.

 

O Sindicato Unificado da Polícia, dirigido por um ex-candidato do Chega e que tem como sócios 16 dos 17 polícias da Esquadra de Alfragide que foram julgados sob a acusação de racismo e tortura contra 6 jovens da Cova da Moura (oito destes agentes foram condenados por agressão e sequestro), publicou um post em defesa do polícia que agrediu Cláudia Simões, com teor racista, o que já levou a Direcção Nacional da PSP a dizer ao Público que pondera encaminhar uma queixa para o Ministério Público.

 

Um site de extrema-direita, “Notícias de Viriato”, fundado por um Carlos Abreu, e reproduzida pelo ex-inspector da PJ, Carlos Anjos, comentador na CMTV, atribui a morte de Giovani, a um grupo de ciganos, o que já mereceu um comunicado de imprensa de oito associações ciganas a desmentir e a repudiar o aproveitamento político deste crime por “um determinado político da nossa praça” cuja perseguição movida [aos ciganos] é diária”.

 

Quando se soube da morte de Luís Giovani, estudante no Instituto Politécnico de Bragança, assassinado por um grupo de 15 jovens que, após um mal entendido dentro de uma discoteca, lhe fizeram uma espera, a ele e mais 3 amigos, armados com paus e ferros, deixando-o em coma, houve uma reacção generalizada contra um crime que, num país com o nosso triste historial racista, se supôs, logo à partida, ser de ódio racial. Houve concentrações e manifestações de pesar e de homenagem ao jovem estudante cabo-verdeano em 20 cidades de 9 países, de Bragança a Paris, passando pela Praia, exigindo Justiça. Mas logo se ouviram os protestos dos “anti-anti-racistas” (porque em Portugal não há racistas...), uns (incluindo um conhecido advogado de Viseu) a questionar por que motivo os anti-racistas não falavam também do assassinato de um jovem “branco” às mãos de um gangue de jovens “de cor”, por ter resistido a um roubo, perto da sua Faculdade, em Lisboa, como se quisessem estabelecer um empate entre crimes racistas; outros, insurgiram-se contra a presunção prematura de “crime racista”, quando até alguns colegas de Giovani não acreditavam nessa causa. A PSP não autorizou os colegas a fazerem queixa de imediato, com o argumento de que tinha de ser a vítima a fazê-lo. Como a vítima ficou em coma, só passado dez dias da morte é que a PJ iniciou as investigações e, após uma semana, o próprio Director Nacional da PJ fez questão (face às repercussões que o caso tomou) de se deslocar a Vila Real para anunciar a detenção dos 5 principais suspeitos (entre os 22 e os 35 anos) da morte de Giovani, apenas por “motivos fúteis” e não por xenofobia ou racismo. Pode ser que não, mas se não foi um crime de ódio racial, não deixou de ser um crime de ódio e o ódio é o pai do racismo e da xenofobia (a mãe é a ignorância). Logo, mesmo que fosse um juiz a declarar que não foi um crime racista, eu não poderia deixar de me lembrar da penúltima crónica de Ricardo Araújo Pereira, citando um juiz que absolveu um homem num caso de violência doméstica, com o seguinte acórdão: “Resultou provado que apertou o pescoço, puxou os cabelos e desferiu pontapés em Cátia, que lhe provocou traumatismos. Porém, não se apurou que esse tenha sido o seu intencional propósito, nem que o tenha conseguido.” Somos um país de “Netos de Moura”...

 

O fascismo, que se alimenta do racismo, alastra no nosso país, mas ainda há gente, como um bloguista e colunista do Jornal do Centro, mais preocupada em acusar activistas anti-racistas e partidos de esquerda, que apelida de “identitários” e de “racializarem” as pessoas distinguindo-as pela cor da pele. A culpa, já se vê, é dos“identitários”, das e dos feministas, activistas LGBTI, ambientalistas e anti-racistas, porque, naturalmente se estivessem calados não existiria tanto alarido sobre a discriminação de género, a homofobia, a emergência climática, nem sobre o racismo. Seríamos todos(as) vítimas silenciosas dos “brancos costumes”, para usar a expressão da multipremiada jornalista do Público, Joana Gorjão Henriques, autora do livro/DVD, “Racismo no País dos Brancos Costumes”.

 

Por coincidência, na mesma edição do Jornal do Centro era dado destaque aos “ataques racistas no futebol distrital”, com atletas negros insultados por adeptos e jogadores, o que já levou a Associação de Futebol de Viseu a obrigar os clubes a jogar à porta fechada e a aplicar multas por “comportamentos discriminatórios”. Como disse ao Público, em 27.11.2019, Lilian Thuram, campeão Mundial de Futebol, pela França em 1998, o jogador mais internacional de sempre da selecção francesa, autor do livro As Minhas Estrelas Negras, “é preciso que os jogadores brancos intervenham para que as coisas mudem. Quantos já foram às bancadas dizer aos adeptos para pararem com os insultos?”

 

Por muito que custe aos “anti-anti-racistas”, enquanto houver racismo haverá sempre luta anti-racista. Mas não basta ser “não racista” de bancada, temos de ser todos anti-racistas!

Sobre o/a autor(a)

Ativista associativo na defesa dos Direitos Humanos. Militante do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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