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Um pavio curto não alumia

Apesar de a contragosto, o PS não se conseguiu limitar a discutir com o PCP, mais algum voto de oportunidade, foi forçado a tratar de questões orçamentais essenciais com outros partidos, incluindo aquele que queria excluir.

Entre as muitas reações ao debate na generalidade sobre o Orçamento e aos acordos temáticos pontuais que foram anunciados nas vésperas pelo PCP e pelo Bloco, está o que vai conformando um padrão: discurso tremendista de algum comentarismo militante, governismo empenhado de alguma comunicação, tiroteio de augúrios.

Os argumentos são variados, que S. Bento tem sempre razão nas suas restrições ou que o povo vive alabardado por impostos confiscantes, que depois da cura pela recessão é um escândalo que se contratem profissionais de saúde, que devemos pagar menos e receber mais ou ainda, naturalmente, que a culpa é dos ciganos.

Bem sei que a sensação que trespassa deste cenário gritante é parecida com a nossa perceção dos rigores da invernia, registamos sempre que é pior o momento que vivemos do que aquele de que mal nos lembramos (mas é evidente que, em 1974 e 1975, depois durante os anos cavaquistas, ou em alguns momentos do socratismo, tivemos episódios e discursos tão poluentes do que aqueles que agora nos incomodam).

A bem dizer, isso tem escassa importância e, provavelmente, magro alcance para além das redes dos inflamados recrutas do catastrofismo ou do situacionismo. O estilo pode contaminar almas bondosas, a agressividade pode suscitar orgulhos clubísticos, mas tudo junto é somente um modo de falar com que havemos de viver. Bem mais interessantes, em contrapartida, são vários discursos sobre o mapa político que se vai adivinhando para 2020 e, na cogitação de alguns mais preclaros, para os anos seguintes.

Ora, desta negociação sofrida podem tirar-se várias conclusões mas, na minha opinião, algumas das que têm vindo a ser sugeridas são mais eflúvios passionais do que caminhos praticáveis. A única que vi escrita e que me convence é que o PS não mudará a sua política negocial: estimar o PCP, tentar marginalizar o Bloco, ceder pouco no terreno do défice e nada no investimento, aceitar alguma urgência na salvação de serviços públicos, como na saúde, e adiar todas as políticas estruturais, em particular na habitação, educação, impostos e proteção social.

Foi isto que fez na campanha eleitoral, para surpresa dos seus eleitores e certamente de muita gente à esquerda, não vai agora arredar pé. A questão é que isto já produziu um fiasco eleitoral, não havia o menor resquício de evidência de que o eleitorado goste desta mistura de agressividade contra o maior dos anteriores parceiros e de poucochinhice para Zona Euro ver. Foi assim que o PS perdeu a maioria absoluta, mas concedo que não parece defeito, deve ser mesmo feitio. Será deste modo até ao último dia da discussão deste orçamento e será assim in secula seculorum.

É fácil concluir disto uma necessidade de aceleração e choque político. É a estratégia do pavio curto, rebentar tudo. Só que essa vertigem não serviria para nada, não clarificaria e só mergulharia o país num jogo de espelhos em que nada é verdadeiro. Sugerir uma crise para eleições em junho, com um prolongado governo em gestão, ofereceria ao PS o cenário maravilhoso que nem se atreveu a imaginar.

Ficando-se, em alternativa, pela meia crise, ou aceitando-se a lógica do Governo no jogo político, poderia, por exemplo, concluir-se que o Bloco deveria excluir-se para isolar o PCP, condicionando este partido a um voto decisivo ao lado do PSD-Madeira, ou seja, usando a armadilha criada pelo aparente entusiasmo pela preferência de António Costa.

Seria uma opção simples: como se viu no resultado eleitoral, o PS sabe que deste modo vai esboroando milimetricamente a identidade de um partido construído como seu opositor e, portanto, essa escolha poderia configurar uma profecia autorrealizada. E seria um erro com consequências duradouras. Seria prejudicial para o futuro das relações políticas à esquerda e, mais importante, diminuiria o alcance social das respostas que serão necessárias. Mobilizaria sectarismo e curto-prazismo; ora, do que a esquerda precisa é de cabeça fria e de visão unitária que resista a todos os cantos de sereia, precisa da sua força popular em todas as dimensões.

De facto, o que estes dias provaram é que o Governo não consegue seguir o seu guião. Isso é mesmo o mais relevante e pode até surpreender os agoireiros. Apesar de a contragosto, o PS não se conseguiu limitar a discutir com o PCP, mais algum voto de oportunidade, foi forçado a tratar de questões orçamentais essenciais com outros partidos, incluindo aquele que queria excluir. Penalizado pelo ziguezague daquela semana em que no domingo das eleições aceitou trabalhar para um acordo escrito de maioria e na quarta-feira comunicou a sua liminar recusa, enterrando assim a geringonça, o Governo não sairá no mesmo beco, mas é forçado a conceder muito do que pretende recusar. Não tem mesmo maioria absoluta, nem um acordo de maioria, é um Governo mais fraco do que o anterior e é preferível que a esquerda mostre que percebe essa relação de forças. Mais uma razão para evitar o pavio curto.

Ora, neste contexto, o Governo é também totalmente previsível, adivinha-se a crispação que alimentará, sabe-se como vai conduzir a negociação, antecipa-se o jogo que vai fazer. O seu principal fator de desgaste é mesmo este seu total fechamento num discurso e numa estratégia política vulnerável (como o caso da saúde veio demonstrar, lembra-se de que ainda há pouco o Governo se virou para o PSD para negociar a Lei de Bases e foi forçado a arredar pé?) e numa estratégia orçamental que já não consegue sustentar (como o caso da habitação virá a provar mais cedo do que tarde).

O Governo desgasta-se porque não se renovou nem abriu novas vias de negociação (nem na Educação!), porque escolheu um caminho económico e social que não consegue respostas no tempo certo e porque, por razões políticas pessoalizadas, decidiu ser o verdugo da geringonça e, aliás, faz questão de o lembrar com frequência.

São bons motivos para recusar o tal pavio curto. Sairá entretanto o ministro das Finanças para o Banco de Portugal, talvez outros ministros com ele, será tempo de descobrir que há mais vida para além do superávite e que faltam as decisões mais difíceis em políticas estruturais consistentes. O tempo, como sempre, ensina e exige. Quem juntar energia social e mostrar a confiabilidade de propostas e trabalho nas questões que importam ganhará força ao longo de todo o ano de 2020.

Artigo publicado em expresso.pt a 14 de janeiro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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