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500 anos da Viagem de Circum-Navegação, mais uma vaga de comemorações com algum incómodo

A viagem de Fernão de Magalhães é um acontecimento traumático para Portugal. O navegador, apesar de português, fez a viagem ao serviço da coroa espanhola. Curiosamente também é um processo traumático para Espanha, afinal Magalhães não era espanhol.

Periodicamente entra-se em época de comemorações. Em Portugal ficaram famosas as comemorações dos “Centenários” em 1940 e, mais recentemente, a Expo 98 estava integrada na comemoração da Viagem de Vasco da Gama à India. A “mãe de todas as comemorações” em Portugal é o centenário de Camões em 1880 que colocou o poeta no lugar de símbolo da pátria, isto para desespero dos estudantes do antigo 5º ano e do atual 9º. Mais recentes (e relativas a acontecimentos mais recentes) tivemos o centenário da República e o da Grande Guerra.

2020 também é ano de comemorações, são 500 anos sobre a primeira viagem de Circum-Navegação, inicialmente (e até à sua morte) comandada por Fernão de Magalhães. A fúria comemorativa raramente é boa conselheira em relação ao rigor histórico, já que, mesmo quando prevê apoio à investigação sobre o facto comemorado, acaba por prevalecer um discurso político nacionalista.

A viagem de Fernão de Magalhães é um acontecimento traumático para Portugal. O navegador, apesar de português, fez a viagem ao serviço da coroa espanhola. Também acabou por morrer durante a viagem, sendo a parte final desta comandada por Sebastián del Cano. Curiosamente também é um processo traumático para Espanha, afinal Magalhães não era espanhol.

Os “Países Irmãos” têm uma longa história de conflitos e guerras entre si e após 200 anos de paz, Fernão de Magalhães veio avivar esse conflito. Neste momento é apenas verbal e assim irá continuar. Diz a Real Academia Espanhola num texto que em Portugal foi polémico: Pero ya en 1517, Magallanes, enojado con D. Manuel de Portugal por no reconocer sus méritos, decide abandonar su país, dejar de servir a su Rey y viajar a España, concretamente a Sevilla, donde se instaló, contrajo matrimonio y desde entonces estuvo al servicio del Rey Carlos I, castellanizando su nombre portugués, Fernão de Magalhaes por Fernando de Magallanes. Y algo muy importante: cuando antes de partir la expedición dictó y firmó su testamento en el Alcázar de Sevilla, instituyó un mayorazgo en el que dejaba heredero a su hijo Rodrigo, nacido en Sevilla y, si éste falleciese sin descendencia, impone a su familia portuguesa que quien lo herede debería castellanizar su apellido, llevar sus armas y vivir en Castilla. Se considera por tanto un castellano más. 1

Também na RAE outro texto mais antigo e da autoria de Carlos Marquez Montero segue a mesma linha e acrescenta alguns pormenores. Fernão de Magalhães ter-se-ia retirado de Portugal e passado para Espanha, por contra ele terem sido cometidas grandes injustiças. Posteriormente teria mesmo renunciado à cidadania portuguesa. A palavra cidadania é no mínimo curiosa aplicada ao Século XVI. Também teria batizado o filho com o nome de Rodrigo, que seria muito espanhol.2 A atitude é tornar mais espanhol Fernão de Magalhães, a viagem não seria uma questão profissional, ou a concretização de um projeto, mas sim o resultado do voltar costas a Portugal e se ter tornado quase espanhol. Tudo isto como se estas questões “nacionais” fossem como são hoje e entre Portugal e Espanha não houvesse uma enorme permeabilidade.

As biografias portuguesas são, naturalmente muito diferentes, por exemplo a que está na página do Instituto Camões: Terá esse facto contribuído, certamente, para a sua má reputação na Corte, pois só assim se compreende que D. Manuel o tenha votado ao ostracismo, negando-lhe uma recompensa para os seus feitos guerreiros. Sentindo-se alvo de injustiça, Magalhães dedica-se por inteiro, juntamente com o cosmógrafo Rui Faleiro, a gizar um plano de uma nave500 anos da Viagem de Circum-Navegação, mais uma vaga de comemorações com algum incómodogação por ocidente, para tentar provar que as ilhas Molucas se encontravam fora do hemisfério português definido pelo Tratado de Tordesilhas (1494). 3

A forma portuguesa de lidar com este trauma passa pela desvalorização, não de uma forma tão explicita como com Colombo (outro trauma português), mas também temos aqui a ideia de que o feito do navegador deve muito ao acaso: Desejava Fernão Magalhães circum-navegar o Globo? Ou pretendia simplesmente tocar as ilhas Molucas e regressar? É uma dúvida que desvaloriza toda a viagem. Porém a desvalorização não é a principal forma de lidar com o tema em Portugal, o processo passa mais pela omissão relativa à organização da viagem, como adiante se verá.

Há comemorações oficiais desta viagem, houve duas resoluções de Conselho de Ministros para organizar as comemorações, o envolvimento de uma série de ministérios e, sobretudo, uma viagem de circum-navegação da Sagres iniciada nos primeiros dias de 2020. Em nenhum dos documentos é referido o facto de a viagem não ter sido feita ao serviço da coroa portuguesa, mas sim da espanhola. É a omissão, ou, se preferirem, a verdade parcial no centro de umas comemorações em que se pretende dar algum contributo para o conhecimento.

À volta destas comemorações há toda uma literatura produzida. Ideologicamente estamos ainda na forma pós-colonial de lidar com o trauma do império e do seu fim, o “encontro de culturas”. Sinal dos tempos mais modernos, apela-se à globalização, à sustentabilidade: Reconhecimento do papel, passado e presente, de Portugal e dos portugueses para a promoção do conhecimento, do diálogo intercultural e da sustentabilidade do planeta, contribuindo para uma sociedade mais justa, inclusiva e com maior bem-estar. Não esquecendo, claro, o “encontro de culturas”: Incentivar o diálogo intercultural e inter-religioso, contribuindo para a aproximação entre povos e culturas. Até a nova religião do empreendedorismo consegue o seu lugar nos documentos que fundamentam estas comemorações: Valorização da viagem de Magalhães como símbolo da capacidade portuguesa de superação, de empreendedorismo e de inovação, nos diferentes domínios: científico, cultural e económico. É um pouco como se Magalhães tivesse organizado a Web-Summit.

As ligações digitais de Magalhães já têm uns anos e quem está perto dos 20 anos conhece-as bem. Em 2008 o projeto e-escolinhas pretendia dar, ou vender abaixo do custo, um computador para cada aluno do 1º ciclo. O nome do computador, versão portuguesa de um modelo da Microsoft era, precisamente Magalhães. Este computador foi exportado, em grande quantidade (cerca de 5 milhões), para a Venezuela. Acredito que também fosse incómodo falar sobre isso.

O ponto culminante das comemorações é uma viagem de circum-navegação em que a Sagres partiu no início de 2020, para voltar nos primeiros dias de 2021, é pouco mais de um ano, por oposição aos três anos da viagem inicial. Também se espera que toda a tripulação regresse sã e salva. Na viagem de 1520, a maioria ficou pelo caminho. O percurso da viagem é estranho. Primeiro para Oeste, para a América do Sul, depois em vez de contornar a América do Sul, como fez Magalhães, segue para leste. Passa para o Índico e atravessa o Pacífico na direção oposta. Este percurso poderá ser o necessário para a pesquisa científica, mas também servirá o novo desígnio nacional, o desporto, nomeadamente a presença nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

É estranho que se comemore partindo de uma omissão, é estranho comemorar a abertura e depois produzir um discurso nacionalista que esconde parte da verdade. É estranho pretender alargar o conhecimento quando se esconde uma parte. Porém tudo isto faz parte de um trauma. De um trauma que é uma pequena parte do trauma maior que é o império e o seu fim. O trauma do império também está na origem do discurso racista, nem que disfarçado por “não há racismo” que veio ao de cima recentemente. A história nacionalista tem destas coisas e Portugal teve (e tem) uma grande exposição a isso, pelo Estado Novo que precisava da história para se legitimar, mas também por uma democracia que depois da descolonização encontrou narrativas igualmente enganadoras para o império.

Nem o nacionalismo é bom conselheiro da história, nem o trauma o é da política. A viagem de circum-navegação foi um acontecimento importante na história da humanidade. A nacionalidade do comandante, ou a bandeira dos navios são o menos importante. Conhecer as razões da ida de Magalhães para Espanha e mais ainda do desinteresse da coroa portuguesa por esta viagem é mais importante que o esquecimento deliberado. É importante abrir horizontes, não os fechar. Investigar, conhecer esse deve ser o centro destas comemorações, e não discursos políticos omissos.

Boa viagem à Sagres


Notas:

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL
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