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2020 em contra-ciclo

A ordem mundial está a mudar e os conflitos estão longe de resolver-se. É difícil de prever o desfecho de muitos de eles, mas as sociedades movem-se em contextos muito diferentes.

Logo a abrir o ano, Hong Kong volta a levantar-se. Na realidade, nem houve uma paragem depois das 746 manifestações registadas nos últimos meses por Kong Tsung-gan, nas quais participaram mais de 13 milhões de pessoas. No Iraque, as multidões que se levantaram em Outubro levaram à demissão do primeiro ministro Adil Abdul-Mahdi no início de Dezembro. Protestos que cresceram à medida que crescia a repressão. Abrir-se-á uma nova página na trágica história recente? No Chile, também desde Outubro as ruas estão cheias de reivindicações contra as desigualdades. Em todos estes casos, os elementos comuns foram a repressão e a resistência.

Sociedades oprimidas durante anos, em lugares tão distintos, começaram a reforçar as suas lutas. Num mundo que parece tolerar cada vez mais os ataques à democracia e a repressão como resposta, estes parecem também ser exemplos em contra-ciclo. Conseguirão estes movimentos consolidar-se e romper o ciclo de opressão e de violação sistemática de direitos? Esta é uma das perguntas em aberto no início deste novo ano.

Falamos de protestos de natureza muito distinta, mas com uma base comum de luta por direitos sistematicamente negados, por uma mudança económica e social radical e contra as influências externas. Logo no início deste ano, o assassinato de Kassim Suleimani no Iraque, por ataque de um drone norte-americano, pode mudar o curso dos eventos, mas sejam quais forem os desenvolvimentos, as mobilizações iraquianas parecem não querer baixar o tom.

Se estes três protestos estão bem localizados, há um que se espalhou por todo o mundo e que se fortaleceu em 2019. Falo do movimento contra as alterações climáticas. O que começou por ser um protesto de estudantes rapidamente se transformou num grito de urgência. Chegámos ao final do ano com uma mais do que decepcionante conferência em Madrid. O sinal enviado pelos governos foi claro: não estão interessados em enfrentar o problema. É, contudo, a primeira vez que assistimos a um movimento global em torno das alterações climáticas. É difícil perceber se os resultados de Madrid serão desmobilizadores ou se, pelo contrário, servirão de base para o reforço da base de protesto. O tempo esgota-se e exige-se uma resposta. O ano que agora começa será a consumação do braço de ferro.

Começar o ano a lembrar estes protestos é também uma mensagem. A mensagem de que as sociedades não estão adormecidas, que a opressão não pode ser infinita e que a luta pela democracia ainda faz levantar países e pode fazer levantar o mundo. Se olharmos com atenção para as ruas, 2020 tem tudo para ser um ano de boas surpresas.

Artigo publicado em “Diário de Notícias” a 4 de janeiro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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