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Itália: regresso ao movimento das sardinhas

Não é difícil perceber porque é que o Partido Democrata está a prestar tanta atenção ao movimento das sardinhas. Por Franco Turigliatto.
flash mob das "sardinhas" em Modena
Flash mob das "sardinhas" em Modena, 15 novembro 2019. Foto Taleoma/Flickr

A situação política italiana está marcada por um movimento novo e particular, o das sardinhas, que juntou nas ruas várias centenas de milhar de pessoas, incluindo muitas e muitos jovens, e que culminou na grande manifestação de Roma a 14 de dezembro. 

Para compreender o que se está a passar, devem ter-se em conta dois elementos: por um lado, a importância e o lado positivo destas manifestações sociais contra o fascismo e o racismo, apesar da natureza generalista das suas reivindicações e, por outro lado, os objetivos definidos pelos promotores deste movimento, ligados ao Partido Democrata e apoiados por um jornal como o La Reppublica, e a forma como o gerem.

Baixo grau de politização

Não foi por acaso que este movimento nasceu em Bolonha, na Emilia-Romanha, região governada desde os anos do pós-guerra pelo PCI e depois pelas diversas combinações políticas do centro-esquerda. Nesta região, a 26 de janeiro há eleições para o Conselho Regional e o seu presidente; e pela primeira vez os partidos da direita, com a Liga de Salvini à cabeça, podem ganhar. O que significaria a derrota do Partido Democrata e o Movimento 5 Estrelas. É fácil ver porque é que o Partido Democrata está a prestar tanta atenção ao movimento das sardinhas.

Mas a verdade é que em Roma, como em outras ocupações de praças pelas sardinhas, fomos testemunhas de uma reação positiva e massiva contra o aumento do racismo, do veneno reacionário e o nacionalismo soberanista de Salvini e da direita, tanto na sociedade como nas instituições, e a juventude esteve na primeira linha.

O grau de politização do movimento é ainda baixo, e os que o organizam tentam deliberadamente mantê-lo num nível de crítica geral e superficial aos discursos de ódio e desumanidade das direitas reacionárias, da defesa do marco democrático constitucional, ou seja, uma batalha travada apenas ao nível da opinião pública (não é por acaso que não há manifestações, mas apenas concentrações de poucas horas nas praças com música e intervenções gerais a partir das tribunas).

Não se definem objetivos claros e ainda menos se propõe que haja lugares para o debate e aprofundamento de uma plataforma reivindicativa que poderia causar dificuldades ao governo de Conte que, na maior parte dos assuntos, é uma continuação das políticas do primeiro governo Conte, apoiado pela Liga de Salvini.

Radicalizar as exigências

De facto, o Partido Democrata teme uma radicalização das palavras de ordem e uma crítica das políticas de austeridade neoliberal que levou a cabo e provocaram o descontentamento social que permitiu o desenvolvimento das diversas direitas. O grupo de organizadores bolonheses atua de forma coerente em relação a esta exigência. Por isso, a sua extrema verticalidade não é um elemento de somenos importância, responde a uma lógica e a uma escolha precisas: evitar lugares de discussão e debate, públicos, abertos e democráticos, que favoreçam o confronto entre diferentes ideias e posições políticas, que correspondem também a diferentes interesses sociais.

Durante estas semanas, a esquerda de classe e anticapitalista (a Sinistra Anticapitalista desempenhou um papel importante) procurou abrir um novo caminho para a unidade na ação, a partir de uma assembleia nacional celebrada a 7 de dezembro em Roma (com cerca de 400 pessoas), na qual participaram sete ou oito organizações nacionais e vinte coletivos locais. Ficou definida uma plataforma comum para a luta social como base de trabalho para os próximos meses: contra os gastos e as políticas militares, pelo emprego (redução das horas de trabalho sem redução de salário, nacionalização das grandes empresas e fábricas que despedem trabalhadores e trabalhadoras e se reestruturam, abolição dos decretos securitários, revogação da contrarreforma das pensões de Fornero).

Esta esquerda de classe deverá tentar levar a cabo tanto a batalha por objetivos sociais como por objetivos democráticos, tratando de relançar uma mobilização das classes  trabalhadoras em simbiose com os sentimentos democráticos que animaram massivamente as praças durante as concentrações das sardinhas; trata-se de tentar radicalizar as suas exigências, favorecendo a construção de uma grande luta social contra as direitas, mas também contra as políticas liberais de austeridade e contra todas as forças políticas que, ontem como hoje, as difundem.


Franco Turigliatto é dirigente da Sinistra Anticapitalista e foi senador entre 2006 e 2008, eleito pela Refundação Comunista. Artigo publicado em Viento Sur, traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

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