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Negacionismo climático

Esperar por milagres tecnológicos não é a postura mais realista e precavida. Este é um desafio que requer solidariedade, cooperação e respostas coletivas.

As alterações climáticas são um tema central da atualidade. São um reflexo da crise ecológica contemporânea e do seu agravamento. A comunidade científica em geral e inúmeras personalidades dos mais variados âmbitos sociais têm apelado à ação política.

No entanto existem movimentos intelectuais e políticos que negam ou desvalorizam esta problemática. São movimentos que procuram desacreditar o consenso científico vigente e promover incertezas sobre afirmações científicas consolidadas, como por exemplo:

1) A concentração de gases com efeito de estufa está a aumentar na atmosfera; 2) Esse aumento está a ocorrer a grande velocidade e a desencadear perigosas alterações climáticas; 3) Existem outras variáveis que afetam o clima, mas o processo em curso deve-se sobretudo às atividades humanas; 4) As consequências serão em geral prejudiciais e terão potencialmente um impacto devastador nos ecossistemas e nas sociedades humanas; 5) A adaptação humana às novas condições ecológicas e climáticas será muito custosa.

Porque é que este movimento negacionista é tão forte, nomeadamente em países centrais do capitalismo global? Algumas das razões que sustentam o negacionismo também refletem e nos ajudam a compreender o porquê da ação em matéria climática e os seus resultados estarem a ser tão reduzidos ou insuficientes. Apresento algumas (relacionadas entre si), que, na minha opinião, podem ajudar a compreender esta situação.

A primeira razão é a do financiamento e do “lobbying”. Há poderosos interesses multinacionais e negócios que lucram enormemente com o statu quo e que nas últimas décadas têm financiado organizações e estudos que promovem o negacionismo climático.

A segunda razão é que há a correta intuição ou crença que esta problemática põe em causa o atual modelo de “desenvolvimento”, a “religião” do crescimento económico e dos “mercados livres”. Em última análise revela o esgotamento do próprio modo de produção capitalista.

A terceira razão são os valores político-culturais dominantes: o individualismo, a competição e mesmo a ganância como motores da sociedade e da economia. É o lema do aproveitemos enquanto cá estamos, gozemos enquanto podemos, as próximas gerações que se desenrasquem. Este é um desafio que requer solidariedade, cooperação e respostas coletivas.

A quarta razão é a crença que mesmo que a problemática seja real, a humanidade é engenhosa e vai sempre encontrar soluções tecnológicas ou técnicas. Esperar por milagres tecnológicos não é a postura mais realista e precavida. Além disso, o problema é que nem sequer as soluções atualmente existentes são devidamente implementadas. Estamos perante um desafio que é sobretudo político e económico.

Perante factos que põem em causa a suas crenças ou os seus interesses materiais, muitos preferem a negação ou a desvalorização. Cabe a todos os cidadãos responsáveis, cujas vidas não se limitam ao seu ego, ser e fazer pela vida e pelo futuro.

Artigo publicado em “Jornal Económico” a 12 de dezembro de 2019

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Investigador
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