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A sustentabilidade está por toda a parte, mas o que significa?

A palavra sustentabilidade é usada com tanta frequência e em contextos tão diversos que corre o risco de tornar-se um significante vazio, se já não o é. O que é, então, a sustentabilidade?

A palavra sustentabilidade está em toda a parte. Nas redes sociais, na rádio e na televisão. Nas etiquetas de roupa “100% responsável” com “materiais ecológicos”. Em relatórios de petrolíferas como “desenvolvimento sustentável” ou “sustentabilidade corporativa”. Ou até em discursos políticos na forma de “crescimento sustentável”. A palavra sustentabilidade é usada com tanta frequência e em contextos tão diversos que corre o risco de tornar-se um significante vazio, se já não o é. O que é, então, a sustentabilidade?

Sustentabilidades há muitas. Há a ecológica, a social e a económica, por exemplo. Estão todas interligadas, mas como todos dependemos de energia, alimento, ar respirável e água potável para viver, não faz sentido falar das nossas relações sociais e da economia sem primeiro abordarmos os sistemas de vida que as sustentam e dos quais dependemos para existir. Por isso abordarei aqui a sustentabilidade mais importante de todas—a ecológica.

Os dicionários são sempre um bom ponto de partida. Num deles, o termo sustentabilidade é definido como “a característica da evolução que permite preservar, manter ou melhorar a qualidade dos recursos e dos equilíbrios naturais, assim como acautelar o futuro”. “Preservar”, “manter”, “melhorar”, são verbos a ter em conta; e “acautelar o futuro” é absolutamente essencial.

“Preservar”, “manter” e “melhorar” os sistemas de vida dos quais dependemos. As serras, florestas, rios e mares que nos sustentam. Não só os de Portugal, mas os de todo o planeta. No mundo globalizado de hoje são os países mais pobres aqueles que mais sofrem com a destruição dos seus sistemas de vida. Veja-se o caso da República Democrática do Congo: o seu território é rico em coltan, uma mistura de minerais essencial para as baterias de carros elétricos, computadores e telemóveis. Ali predomina o trabalho infantil e a guerra civil pelo controlo deste recurso. O coltan é extraído em minas a céu aberto que provocam o colapso ecológico de vastas regiões. Há demasiados Congos no mundo.

Já “acautelar o futuro” é não pôr em causa os direitos das gerações presentes e futuras a apreciar a natureza como a conhecemos e a aceder a tudo o que necessitam para prosperar. É também saber respeitar e partilhar o planeta com os outros animais, plantas e demais formas de vida.

Há quem jure a pés juntos que desta vez é que é. É agora que a causa da depredação origina ela mesmo as soluções: o capitalismo—agora de cor verde—veio para nos salvar! Outros sonham com a dissociação entre os crescentes padrões de consumo — principalmente os das classes dominantes — e a destruição dos sistemas de vida que nos sustentam. Mas as juras e os sonhos chocam com a realidade: a emergência climática e a perda maciça de diversidade de vida servem para nos alertar para a fantasia destas narrativas.

A sustentabilidade ecológica não o é por estar estampada numa qualquer etiqueta de roupa, embalagem de telemóvel ou relatório empresarial. É praticada quando respeitamos os limites biofísicos do planeta, quando reconhecemos o valor intrínseco da natureza e quando acautelamos o futuro das gerações vindouras. É por isso que, coletivamente, temos o dever de agir: participando, difundindo e acarinhando os movimentos sociais, os modos de vida e as iniciativas que verdadeiramente lutam por uma sociedade mais justa, próspera e sustentável.

Artigo original publicado na Revista Punto. Traduzido e adaptado pelo autor para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Investigador em sistemas socioecológicos. Ativista do Bloco de Esquerda
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