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Um arquivo para o nosso futuro

O que os trabalhadores do arquivo reclamam é assim tão estratosférico? Depende apenas do valor que damos às coisas, das prioridades orçamentais da autarquia para os próximos anos.

Os trabalhadores do Arquivo Municipal de Lisboa estão em luta. Porque lutam eles? Por melhores condições de trabalho, por um arquivo com instalações adequadas à função e responsabilidade; instalações dignas que respondam às necessidades dos utilizadores, à altura do seu papel cívico. O problema com mais de uma década, ameaça eternizar-se porque quem manda não distingue um armazém de um verdadeiro arquivo. Está em causa o arquivo de uma cidade com cerca de 1000 anos de história; uma cidade que continua a produzir documentação escrita e, eventualmente, começará também a ver crescer o seu arquivo digital. Ou seja, enquanto os testemunhos do passado longínquo exigem determinados cuidados, os documentos de hoje requerem outro tipo de atenção, todos baixam ao arquivo depois de uma triagem e organização que os impede de ficarem perdidos na amálgama de pastas que a administração produz todos os dias. O tratamento dos documentos de arquivo exige muitas competências e complementaridade exigindo que aos arquivistas se juntem historiadores, técnicos de conservação e restauro, especialistas na história da instituição e técnicos de informática. Em cada um destes grupos profissionais, a especialização vai a níveis muito específicos e é preciso coragem para o admitir, estruturar quadros de pessoal correspondentes e abrir concursos, promover a continuidade de saberes e assegurar a entrada de sangue novo.

As condições de trabalho reclamadas não têm nada de pessoal ou corporativo. Não se trata somente conforto no local de trabalho, ainda que falte e fosse bem-vindo. Tudo pelo que reclamam prende-se com a forma como o arquivo, os papéis têm sido desprezados por edilidades sucessivas. Só a vereadora da Cultura há dez anos que conhece o problema. Sabe da chuva nos depósitos, dos esgotos que não escoam, do lixo orgânico deixado pelo vandalismo, da elevada humidade, das temperaturas oscilantes, dos fungos e bactérias que inevitavelmente se instalam. Também não lhe será estranha a queixa sobre falta de espaço causando uma arrumação casuística e amontoada. Como sabe que o arquivo se encontra disperso por várias instalações na cidade de Lisboa provocando dificuldades no funcionamento, no estudo e no acesso dos utilizadores e no serviço a estes. Com estes condimentos, assistir à degradação irreversível dos documentos é apenas parte do problema. E o problema não é exclusivo aos trabalhadores do Arquivo. Num cenário assim, a nossa cidadania fica mais pobre.

O que os trabalhadores do arquivo reclamam é assim tão estratosférico? Depende apenas do valor que damos às coisas, das prioridades orçamentais da autarquia para os próximos anos. De momento, o orçamento para os anos vindouros é totalmente omisso, arquivo nada. Para os trabalhadores do arquivo falta um espaço suficientemente amplo que aloje todas as vertentes do arquivo, o arquivo histórico e o intermédio, a videoteca, o arquivo fotográfico, os depósitos, as salas de trabalho, os espaços laboratoriais, sejam de conservação e restauro sejam de transferência de suportes (vulgo, digitalização). Todo um espaço com condições de temperatura, humidade relativa e luz condicentes com as exigências dos materiais aí guardados. Engane-se quem pensar que nas salas de trabalho estes aspectos não importam ou que os papéis contemporâneos não exigem cuidados como os antigos. Cada um é como cada um e o respeito pelo próximo assume-se como regra de ouro. As etapas no processo de tratamento são as mesmas, a triagem inadiável, o conhecimento da instituição incontornável. Os papéis, velhos e novos, reflectem a vida da instituição, não sendo classificados e arrumados obedecendo à dinâmica e estrutura produtoras, tornam-se uma inutilidade e os historiadores não perdoarão.

O arquivo precisa de instalações novas, preferencialmente de raiz para evitar problemas no curto prazo. Localizado centralmente para facilitar o acesso aos utilizadores mas também para ficar perto de outras grandes instituições com as quais interage. O conjunto destes acervos é coerente e compreensiva, constitui uma riqueza nacional. Facilitar a vida a quem estuda sim mas também contribuir para aproximar trabalhadores do mesmo tipo de instituições proporcionando a criação e fortalecimento da massa crítica num sector profissional de recursos limitados.

A luta dos trabalhadores do Arquivo Municipal é justa, merecedora do apoio de colegas e utilizadores. Possa a autarquia tomar a decisão certa depois de ouvir os trabalhadores e atender à perícia acumulada.

Artigo publicado em publico.pt a 30 de novembro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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